Saudade, um sentimento forte, límpido e intenso
De ares plácidos, que enveredam por nosso eu
Na falta do outro, de algo, do sentir
Sentimos uma ausência, mas o sentir no peito
De tão especial, por alguém que nos marcou,
Por alguém que vive, que gostamos,
Aprendemos à sonhar, estando com tal,
Feliz por vê-lo, com saudade para revê-lo,
Sentir o toque, curtir seu olhar,
Matar essa saudade, ao sentir e ver passar.
Ao olhar, lembrar, sentir, sonhar contigo
Eis que nosso coração acelera, e a aflição nos toma
As correntes que nos prendem se quebram, caem
E essa aflição cessa, desaparece, como um vento à passar
Um sentimento no ar, de saudade, nos torna vivos,
Sabendo que um dia iremos nos encontrar, quem sabe,
Em algum dia, em algum lugar, sei que estás bem,
Sei que estás aí, assim à me olhar, sentindo algo que especial
Que como chama aquece, que como um bálsamo perfuma,
Como à água que corre, num rio sem fim, com uma emoção no ar.
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
quarta-feira, 2 de julho de 2014
sábado, 10 de maio de 2014
UM OLHAR
Um silêncio
Um algo que nos inquieta
Um rastro de sentimento
Um tom no ar.
O Silêncio que nos rodeia
Presente e nos rodeia,
No ar sideral
No corpo espacial.
De sutileza bela,
Tranquila e que nos amedronta,
O símbolo de sossego e paz,
Que necessitamos para nos acalmar.
Como a luz que arde,
Como o som que é neutro,
Um ar de feixes
Ao mais fundo silenciar.
De tez tenebrosa,
Sutil, fria e sólida,
O medo de silenciar
E ficar oculto.
Nosso inconsciente nos mostra
Quando nos silenciamos
Eis a ele se manifestar
E nos fazer sonhar.
Um ar que nos dá a paz,
Como um toque, um sentimento no ar
Ao caminhar das águas
Ao soar dos sinos das catedrais.
No falar dos sons
Silenciando marcas
Que nos fazem lembrar
Da razão de tudo.
Oculta em nosso ser
Como uma chama que queima,
Uma energia vital e plena
Sentindo o princípio da vida
À luz, no oculto de nosso olhar
Janelas da alma
Ao grande passo a se guiar
Ao ponto final.
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
Um algo que nos inquieta
Um rastro de sentimento
Um tom no ar.
O Silêncio que nos rodeia
Presente e nos rodeia,
No ar sideral
No corpo espacial.
De sutileza bela,
Tranquila e que nos amedronta,
O símbolo de sossego e paz,
Que necessitamos para nos acalmar.
Como a luz que arde,
Como o som que é neutro,
Um ar de feixes
Ao mais fundo silenciar.
De tez tenebrosa,
Sutil, fria e sólida,
O medo de silenciar
E ficar oculto.
Nosso inconsciente nos mostra
Quando nos silenciamos
Eis a ele se manifestar
E nos fazer sonhar.
Um ar que nos dá a paz,
Como um toque, um sentimento no ar
Ao caminhar das águas
Ao soar dos sinos das catedrais.
No falar dos sons
Silenciando marcas
Que nos fazem lembrar
Da razão de tudo.
Oculta em nosso ser
Como uma chama que queima,
Uma energia vital e plena
Sentindo o princípio da vida
À luz, no oculto de nosso olhar
Janelas da alma
Ao grande passo a se guiar
Ao ponto final.
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
RASTROS (Poesia)
Pensamentos que voam,
Imagens que ilustram,
Começo de uma era,
Daquilo que é e será,
Num repouso de vida,
Solenemente à luz ilumina,
Serena e plena,
Alba luminosa,
Assim vem nos tocar.
Laços da perdição,
Cristais do ego,
Sonhos azúreos,
Resplandescer de ilusão,
Como assim se comporta,
A mais sincera canção,
O despertar de um ser,
Desejos, ares e vozes,
Num cantarolar de pássaros.
Num abismo de rosas,
Sinto um ar doce,
Sereno e úmido,
De toques suaves,
Sons leves e áridos,
No começo de uma canção,
Que diz o poeta,
Sereis à luz do mundo moderno,
Sereis um dom nessa dimensão.
Ao cantarolar das folhas,
Das perdizes esvoaçantes,
De alvorar belo,
Cânticos serenos,
És assim, uma casa,
Uma árvore e um doce lar,
Leveza e serenidade,
Ao simples despertar,
De uma nova manhã.
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
Imagens que ilustram,
Começo de uma era,
Daquilo que é e será,
Num repouso de vida,
Solenemente à luz ilumina,
Serena e plena,
Alba luminosa,
Assim vem nos tocar.
Laços da perdição,
Cristais do ego,
Sonhos azúreos,
Resplandescer de ilusão,
Como assim se comporta,
A mais sincera canção,
O despertar de um ser,
Desejos, ares e vozes,
Num cantarolar de pássaros.
Num abismo de rosas,
Sinto um ar doce,
Sereno e úmido,
De toques suaves,
Sons leves e áridos,
No começo de uma canção,
Que diz o poeta,
Sereis à luz do mundo moderno,
Sereis um dom nessa dimensão.
Ao cantarolar das folhas,
Das perdizes esvoaçantes,
De alvorar belo,
Cânticos serenos,
És assim, uma casa,
Uma árvore e um doce lar,
Leveza e serenidade,
Ao simples despertar,
De uma nova manhã.
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
domingo, 20 de abril de 2014
O avarento que perdeu o tesouro
Se a posse consiste somente no gozo,
Ó vós que nos cofres dinheiro guardais,
Dizei que vantagens gozais sobre a Terra,
Que sejam vedadas aos outros mortais?
Diógenes no outro mundo
É mais rico de que vós,
Que neste, como o Sinópio,
Lidais em miséria atroz.
O rico de Esopo, que esconde o tesouro,
Exemplo no assunto nos pode prestar;
O triste supunha segunda existência
E nela esperava seus bens desfrutar.
Não possuía seu ouro;
O ouro é que o possuía.
Tinha ao solo confiado
Considerável maquia.
Só tinha por fito, prazer e recreio
Pensar, dia e noite, na soma enterrada.
E assim ruminando, só viu na riqueza
Relíquia, a si próprio defesa e vedada.
Indo, voltando, correndo,
Trazia sempre o sentido
No lugar, em que deixara
O seu tesouro escondido.
Mas dando mil voltas em torno do sítio,
Um dia foi visto por certo coveiro,
Que assim surpreendendo do fona o segredo,
No chão cavoucando, roubou-lhe o dinheiro.
Nosso avaro em certo dia
Vazia a cova encontrou;
Gemeu, suspirou, carpiu-se
E em pranto se debulhou.
Um, que passa, pergunta o motivo
Dessa grita. O avarento responde:
"— Ai! Roubaram meu rico tesouro!"
"— Um tesouro roubado! Mas donde?"
AVARENTO
"Era junto desta pedra."
TRANSEUNTE
"Por que escondê-lo na terra?
Por que trazê-lo tão longe,
Não sendo tempo de guerra?
Não era mais fácil guardá-lo no armário,
Num canto seguro de vosso aposento?
Assim poderíeis à mão conservá-lo,
Tirando-o em parcelas a cada momento."
AVARENTO
"A cada momento! Oh deuses!
Que temerária asserção!
Vem, como vai, o dinheiro?
Eu nunca lhe ponho a mão."
"Se assim sucedia (replica o sujeito)
Dizei-me, eu vos peço. por que vos carpis?
Se nunca tocáveis naquele dinheiro,
Não sei em que a perda vos torne infeliz.
Ponde uma pedra na cova
Que vos guardava o tesouro;
Será para vós o mesmo
Que um montão de prata ou ouro."
Referências:
PARANAPIACABA, Barão. O avarento que perdeu o tesouro. Tradução. Fábula. In: LA FONTAINE, Jean de, 1621-1695. Fábulas: antologia / La Fontaine. - 4. ed. - São Paulo: Martin Claret, 2012.
Extraído do livro:
LA FONTAINE, Jean de, 1621-1695. Fábulas: antologia / La Fontaine. - 4. ed. - São Paulo: Martin Claret, 2012. - (Coleção a obra-prima de cada autor; 200)
Ó vós que nos cofres dinheiro guardais,
Dizei que vantagens gozais sobre a Terra,
Que sejam vedadas aos outros mortais?
Diógenes no outro mundo
É mais rico de que vós,
Que neste, como o Sinópio,
Lidais em miséria atroz.
O rico de Esopo, que esconde o tesouro,
Exemplo no assunto nos pode prestar;
O triste supunha segunda existência
E nela esperava seus bens desfrutar.
Não possuía seu ouro;
O ouro é que o possuía.
Tinha ao solo confiado
Considerável maquia.
Só tinha por fito, prazer e recreio
Pensar, dia e noite, na soma enterrada.
E assim ruminando, só viu na riqueza
Relíquia, a si próprio defesa e vedada.
Indo, voltando, correndo,
Trazia sempre o sentido
No lugar, em que deixara
O seu tesouro escondido.
Mas dando mil voltas em torno do sítio,
Um dia foi visto por certo coveiro,
Que assim surpreendendo do fona o segredo,
No chão cavoucando, roubou-lhe o dinheiro.
Nosso avaro em certo dia
Vazia a cova encontrou;
Gemeu, suspirou, carpiu-se
E em pranto se debulhou.
Um, que passa, pergunta o motivo
Dessa grita. O avarento responde:
"— Ai! Roubaram meu rico tesouro!"
"— Um tesouro roubado! Mas donde?"
AVARENTO
"Era junto desta pedra."
TRANSEUNTE
"Por que escondê-lo na terra?
Por que trazê-lo tão longe,
Não sendo tempo de guerra?
Não era mais fácil guardá-lo no armário,
Num canto seguro de vosso aposento?
Assim poderíeis à mão conservá-lo,
Tirando-o em parcelas a cada momento."
AVARENTO
"A cada momento! Oh deuses!
Que temerária asserção!
Vem, como vai, o dinheiro?
Eu nunca lhe ponho a mão."
"Se assim sucedia (replica o sujeito)
Dizei-me, eu vos peço. por que vos carpis?
Se nunca tocáveis naquele dinheiro,
Não sei em que a perda vos torne infeliz.
Ponde uma pedra na cova
Que vos guardava o tesouro;
Será para vós o mesmo
Que um montão de prata ou ouro."
Referências:
PARANAPIACABA, Barão. O avarento que perdeu o tesouro. Tradução. Fábula. In: LA FONTAINE, Jean de, 1621-1695. Fábulas: antologia / La Fontaine. - 4. ed. - São Paulo: Martin Claret, 2012.
Extraído do livro:
LA FONTAINE, Jean de, 1621-1695. Fábulas: antologia / La Fontaine. - 4. ed. - São Paulo: Martin Claret, 2012. - (Coleção a obra-prima de cada autor; 200)
domingo, 6 de abril de 2014
O código morse e seu criador
O Código Morse foi inventado por Samuel Morse, que já em 1832 tinha construído um pequeno protótipo do telégrafo. Mas foi em 1838 que desenvolve o descobrimento nos interessa hoje; o código morse, um sistema de pontos e traços que serviu para comunicar através do som. Estas duas invenções combinadas por Samuel Morse, rendeu uma gran
de fortuna, com a qual comprou grandes propriedades e também fez algumas doações para as universidades e instituições de caridade.
No inicio para transmitir e receber mensagens em código Morse foi utilizado um dispositivo primitivo inventado em 1844 por Samuel Morse. Este aparelho consistia de uma chave de transmissão telegráfica, que serviu como um interruptor e de um eletroímã como um receptor de pontos e traços.
Cada vez que a tecla é pressionada para baixo com o dedos indicador e médio, se estabelecia contato elétrico que permitia transmitir os pontos do código. Os pulsos intermitentes que produziam ao apertar a chave telegráfica eram enviado para uma linha elétrica composta por dois fios de cobre. Estes cabos apoiados por estacas de madeira, se estendia por centenas de quilômetros de distância do ponto de origem da transmissão até ponto de recepção.
Quando em 1860 Napoleão III concedeu um justo prêmio de reconhecimento por sua invenção, nos Estados Unidos e na Europa já haviam numerosas instalação do código morse. Quando morreu, o continente americano estava cruzado por mais de 300 mil quilômetros de linhas.
Com a invenção do transmissor de base de ondas de rádio feita por Marconi, a partir do ano 1901, a transmissão de mensagens por telégrafo foi iniciada através de Wi-Fi, adaptando o mesmo sistema inventado por Morse. Esta nova forma de transmissão teve a vantagem de que não era necessário cabo e corre longas distâncias, de forma que os navios adotaram esta nova tecnologia para comunicar entre eles e com a terra.
BULHUFAS. Quem inventou o código morse e seu criador. Quem inventou. Artigo. [Blog]. Brasil: Bulfufas.com, 2011. Disponível em: http://www.bulhufas.com/quem-inventou/o-codigo-morse-e-seu-criador/ Acesso em: 06/04/2014.
ILUSÃO
Uma música,
Um leve brilho nesse luar,
Nessa escuridão da noite,
Que faz silenciar,
às luzes atenuar,
Ao som tênue dos grilos,
Dos sonhos, razões e sentimentos,
O mergulhar em nosso eu,
De travessões e pontos,
Traçando as vozes,
De polifonias ecoais,
Num mistério plúmbeo,
No alvorescer de uma ilusão.
Alessandro Arantes
Um leve brilho nesse luar,
Nessa escuridão da noite,
Que faz silenciar,
às luzes atenuar,
Ao som tênue dos grilos,
Dos sonhos, razões e sentimentos,
O mergulhar em nosso eu,
De travessões e pontos,
Traçando as vozes,
De polifonias ecoais,
Num mistério plúmbeo,
No alvorescer de uma ilusão.
Alessandro Arantes
quinta-feira, 6 de março de 2014
Será o Benedito! - Mário de Andrade
A primeira vez que me encontrei com Benedito, foi no dia mesmo da minha chegada na Fazenda Larga, que tirava o nome das suas enormes pastagens. O negrinho era quase só pernas, nos seus treze anos de carreiras livres pelo campo, e enquanto eu conversava com os campeiros, ficara ali, de lado, imóvel, me olhando com admiração. Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, mas não pôde agüentar a comoção. Mistura de malícia e de entusiasmo no olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:
— O hôme da cidade, chi!...
Deu uma risada quase histérica, estalada insopitavelmente dos seus sonhos insatisfeitos, desatou a correr pelo caminho, macaco-aranha, num mexe-mexe aflito de pernas, seis, oito pernas, nem sei quantas, até desaparecer por detrás das mangueiras grossas do pomar.
Nos primeiros dias Benedito fugiu de mim. Só lá pelas horas da tarde, quando eu me deixava ficar na varanda da casa-grande, gozando essa tristeza sem motivo das nossas tardes paulistas, o negrinho trepava na cerca do mangueirão que defrontava o terraço, uns trinta passos além, e ficava, só pernas, me olhando sempre, decorando os meus gestos, às vezes sorrindo para mim. Uma feita, em que eu me esforçava por prender a rédea do meu cavalo numa das argolas do mangueirão com o laço tradicional, o negrinho saiu não sei de onde, me olhou nas minhas ignorâncias de praceano, e não se conteve:
— Mas será o Benedito! Não é assim, moço!
Pegou na rédea e deu o laço com uma presteza serelepe. Depois me olhou irônico e superior. Pedi para ele me ensinar o laço, fabriquei um desajeitamento muito grande, e assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias.
***
Pouco aprendi com o Benedito, embora ele fosse muito sabido das coisas rurais. O que guardei mais dele foi essa curiosa exclamação, "Será o Benedito!", com que ele arrematava todas as suas surpresas diante do que eu lhe contava da cidade. Porque o negrinho não me deixava aprender com ele, ele é que aprendia comigo todas as coisas da cidade, a cidade que era a única obsessão da sua vida. Tamanho entusiasmo, tamanho ardor ele punha em devorar meus contos, que às vezes eu me surpreendia exagerando um bocado, para não dizer que mentindo. Então eu me envergonhava de mim, voltava às mais
perfeitas realidades, e metia a boca na cidade, mostrava o quanto ela era ruim e devorava os homens. "Qual, Benedito, a cidade não presta, não. E depois tem a tuberculose que..."
— O que é isso?...
- É uma doença, Benedito, uma doença horrível, que vai comendo o peito da gente por dentro, a gente não pode mais respirar e morre em três tempos.
— Será o Benedito...
E ele recuava um pouco, talvez imaginando que eu fosse a própria tuberculose que o ia matar. Mas logo se esquecia da tuberculose, só alguns minutos de mutismo e melancolia, e voltava a perguntar coisas sobre os arranha-céus, os "chauffeurs" (queria ser "chauffeur"...), os cantores de rádio (queria ser cantor de rádio...), e o presidente da República (não sei se queria ser presidente da República). Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu riso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam, numa brancura sem par.
Nas vésperas de minha partida, Benedito veio numa corrida e me pôs nas mãos um chumaço de papéis velhos. Eram cartões postais usados, recortes de jornais, tudo fotografias de São Paulo e do Rio, que ele colecionava. Pela sujeira e amassado em que estavam, era fácil perceber que aquelas imagens eram a única Bíblia, a exclusiva cartilha do negrinho. Então ele me pediu que o levasse comigo para a enorme cidade. Lembrei-lhe os pais, não se amolou; lembrei-lhe as brincadeiras livres da roça, não se amolou; lembrei-lhe a tuberculose, ficou muito sério. Ele que reparasse, era forte mas magrinho e a tuberculose se metia principalmente com os meninos magrinhos. Ele precisava ficar no campo, que assim a tuberculose não o mataria. Benedito pensou, pensou. Murmurou muito baixinho:
— Morrer não quero, não sinhô... Eu fico.
E seus olhos enevoados numa profunda melancolia se estenderam pelo plano aberto dos pastos, foram dizer um adeus à cidade invisível, lá longe, com seus "chauffeurs", seus cantores de rádio, e o presidente da República. Desistiu da cidade e eu parti. Uns quinze dias depois, na obrigatória carta de resposta à minha obrigatória carta de agradecimentos, o dono da fazenda me contava que Benedito tinha morrido de um coice de burro bravo que o pegara pela nuca. Não pude me conter: "Mas será o Benedito!...”. E é o remorso comovido que me faz celebrá-lo aqui.
São Paulo, 2ª. quinzena de outubro de 1939. (n°145)
ANDRADE, Mário de. Será o Benedito!. In: Será o Benedito!. Livro. São Paulo: Editora da PUC-SP, Editora Giordano Ltda. e Agência Estado Ltda.- São Paulo, 1992, pág. 66. Disponível em: <http://www.releituras.com/marioandrade_menu.asp> Acesso em: 06/03/2014. Labore citattum apud: © NOGUEIRA JR, Arnaldo. Projeto Releituras. São Paulo, 2014.
Referência da imagem: http://editora.cosacnaify.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/06/ODILON.jpg
terça-feira, 4 de março de 2014
Televisão: um invento que dura até nossos dias
Em 26 de janeiro de 1926, John Logie Baird foi capaz de fazer a primeira emissão televisiva desde seu laboratório em Londres supervisionados pelos membros da Royal Institution e um jornalista britânico. As imagens que puderam ser vistas em uma televisão consistiu de uma gravação feita ao rosto de um manequim.
Anteriormente, em 25 de março de 1925, Baird tinha emitido uma imagem televisiva, no Departamento da loja Selfridges, em Londres. No entanto, como era uma imagem estática, não se considerou como uma retransmissão televisada.
A televisão, invenção de Baird, pode desenvolver graças aos avances anteriores como o disco de Nipkow, patenteado em 1884 pelo estudante alemão Paul Nipkow. Este disco, foi o primeiro sistema de televisão eletromecânica capaz de produzir uma imagem através de pequenos orifícios.
Em 1911, Boris Rosing e seu aluno Vladimir Kosma Zworykin, criaram outro sistema de televisão que realizava a digitalização de uma imagem por um espelho-tambor e transmitia através de um receptor com um tubo eletrônico de raios catódicos Braun
Ao contrário de outros sistemas eletrônicos, a imagem obtida por Baird em 1926, foi digitalizado verticalmente por um disco equipado com uma dupla-espiral de lentes que só tinham apenas 30 linhas, o suficiente para reproduzir um rosto humano reconhecível. Um ano depois de seu sucesso, Baird transmitiu um sinal de Londres para Glasgow, através de uma linha telefônica.
Em 1928, a empresa de Baird, Baird Television Development Company, ganhou o primeiro sinal de televisão transatlântica entre Londres e Nova York.
BULHUFAS, Televisão: um invento que dura até nossos dias. In: Quem inventou. [Artigo]. Blog. .Brasil: Bulhufas.com, 2011.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Os inventores do avião, fracassos e conquistas
O homem tentou desde os tempos antigos imitar o vôo dos pássaros e finalmente conseguiram graças o avião. No princípio pensavam que bastava ter asas e criou máquinas que chamava ornithopters. Durante séculos houve tímidas tentativas de voar, fracassando total na maioria deles, mas desde o século XVIII o homem começou a experimentar com os balões que foram capazes de se elevar no ar, mas tinha a desvantagem de não serem controlados.
Segundo as crónicas do século XVIII, o primeiro vôo bem sucedido de um balão de ar quente, foi graças ao Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Um Português nascido no Brasil na época colonial que conseguiu levantar vôo em um balão, que chamaria Passarola, em 08 de agosto de 1709 na corte de D. João V de Portugal, em Lisboa. Na demonstração, a Passarola subiu cerca de 3 metros acima do solo, deixando os observadores impressionado, e ganhando o apelido de Padre Volador.
Com a invenção do balão dirigível, os inventores começaram a tentar criar uma máquina mais pesada que o ar, era capaz de voar por meios próprios. Primeiro vieram os planadores, máquinas capazes de sustentar vôo controlado por algum tempo. Em 1799, George Cayley, um inventor Inglês, desenhou um planador relativamente moderno, que tinha uma cauda para controle, e um lugar onde o piloto pode ser posicionado abaixo do centro de gravidade do aparelho, dando assim estabilidade à aeronave. Cayley construiu um protótipo, que realizou seu primeiro vôo não-tripulado em 1804.
No século XIX, foram feitas tentativas de produzir um avião decolando por seus próprios meios. Mas a maioria deles eram de má qualidade, construídos por pessoas interessadas em aviação. Mas nenhum tinha os conhecimento dos problemas que solucionaram Lilienthal e Chanute.
Foram os irmão Wilbur e Orville Wright, que conseguiram desenvolver o primeiro avião no início do século XX, ou seja, o primeiro avião funcional, como esboços de sonhadores já existiam antes na história, como os de Leonardo da Vinci. Essa façanha foi realizada em 17 de dezembro de 1903. O avião se chamou Flyer. Então Kitty Hawk (Carolina do Norte), uma vez que naquela cidade fez o primeiro vôo. Então, mais tarde passou a desenvolver duas outras aeronaves, que foram batizadas como Flyer Flyer II e III.
Fundamentalmente, as mais modernas aeronaves de hoje seguem sendo construídas com base nos mesmos elementos que permitiram que os irmãos Wright e de Alberto Santos Dumont realizassem o primeiro voo no início do século XX: as asas que suportam o peso da aeronave e sua carga, as superfícies de cauda que servem para dar equilíbrio e direção. Usando controles apropriados, conseguimos variar a posição de algumas superfícies para que o avião suba, abaixe ou vire de um lado para outro.
Referências:
BULHUFAS, Blogue. Os inventores do avião, fracassos e conquistas. In: Quem Inventou. Artigo. Blog. Bulhufas.com, 2011.
Imagens: Google Images.
Segundo as crónicas do século XVIII, o primeiro vôo bem sucedido de um balão de ar quente, foi graças ao Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Um Português nascido no Brasil na época colonial que conseguiu levantar vôo em um balão, que chamaria Passarola, em 08 de agosto de 1709 na corte de D. João V de Portugal, em Lisboa. Na demonstração, a Passarola subiu cerca de 3 metros acima do solo, deixando os observadores impressionado, e ganhando o apelido de Padre Volador.
Com a invenção do balão dirigível, os inventores começaram a tentar criar uma máquina mais pesada que o ar, era capaz de voar por meios próprios. Primeiro vieram os planadores, máquinas capazes de sustentar vôo controlado por algum tempo. Em 1799, George Cayley, um inventor Inglês, desenhou um planador relativamente moderno, que tinha uma cauda para controle, e um lugar onde o piloto pode ser posicionado abaixo do centro de gravidade do aparelho, dando assim estabilidade à aeronave. Cayley construiu um protótipo, que realizou seu primeiro vôo não-tripulado em 1804.
No século XIX, foram feitas tentativas de produzir um avião decolando por seus próprios meios. Mas a maioria deles eram de má qualidade, construídos por pessoas interessadas em aviação. Mas nenhum tinha os conhecimento dos problemas que solucionaram Lilienthal e Chanute.
Foram os irmão Wilbur e Orville Wright, que conseguiram desenvolver o primeiro avião no início do século XX, ou seja, o primeiro avião funcional, como esboços de sonhadores já existiam antes na história, como os de Leonardo da Vinci. Essa façanha foi realizada em 17 de dezembro de 1903. O avião se chamou Flyer. Então Kitty Hawk (Carolina do Norte), uma vez que naquela cidade fez o primeiro vôo. Então, mais tarde passou a desenvolver duas outras aeronaves, que foram batizadas como Flyer Flyer II e III.
Fundamentalmente, as mais modernas aeronaves de hoje seguem sendo construídas com base nos mesmos elementos que permitiram que os irmãos Wright e de Alberto Santos Dumont realizassem o primeiro voo no início do século XX: as asas que suportam o peso da aeronave e sua carga, as superfícies de cauda que servem para dar equilíbrio e direção. Usando controles apropriados, conseguimos variar a posição de algumas superfícies para que o avião suba, abaixe ou vire de um lado para outro.Referências:
BULHUFAS, Blogue. Os inventores do avião, fracassos e conquistas. In: Quem Inventou. Artigo. Blog. Bulhufas.com, 2011.
Imagens: Google Images.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Vícios de linguagem
A gramática é um conjunto de regras que estabelece um determinado uso da língua, denominado norma culta ou língua padrão. Acontece que as normas estabelecidas pela gramática normativa nem sempre são obedecidas, em se tratando da linguagem escrita. O ato de desviar-se da norma padrão no intuito de alcançar uma maior expressividade, refere-se às figuras de linguagem. Quando o desvio se dá pelo não conhecimento da norma culta, temos os chamados vícios de linguagem.
a) barbarismo: consiste em grafar ou pronunciar uma palavra em desacordo com a norma culta.
pesquiza (em vez de pesquisa)
prototipo (em vez de protótipo)
b) solecismo: consiste em desviar-se da norma culta na construção sintática.
Fazem dois meses que ele não aparece. (em vez de faz ; desvio na sintaxe de concordância)
c) ambiguidade ou anfibologia: trata-se de construir a frase de um modo tal que ela apresente mais de um sentido.
O guarda deteve o suspeito em sua casa. (na casa de quem: do guarda ou do suspeito?)
d) cacófato: consiste no mau som produzido pela junção de palavras.
Paguei cinco mil reais por cada.
e) pleonasmo vicioso: consiste na repetição desnecessária de uma ideia.
O pai ordenou que a menina entrasse para dentro imediatamente.
Observação: Quando o uso do pleonasmo se dá de modo enfático, este não é considerado vicioso.
f) eco: trata-se da repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.
O menino repetente mente alegremente.
CABRAL, Marina. Vícios de Linguagem. Gramática. Língua Portuguesa. Equipe Brasil Escola, 2012.
a) barbarismo: consiste em grafar ou pronunciar uma palavra em desacordo com a norma culta.
pesquiza (em vez de pesquisa)
prototipo (em vez de protótipo)
b) solecismo: consiste em desviar-se da norma culta na construção sintática.
Fazem dois meses que ele não aparece. (em vez de faz ; desvio na sintaxe de concordância)
c) ambiguidade ou anfibologia: trata-se de construir a frase de um modo tal que ela apresente mais de um sentido.
O guarda deteve o suspeito em sua casa. (na casa de quem: do guarda ou do suspeito?)
d) cacófato: consiste no mau som produzido pela junção de palavras.
Paguei cinco mil reais por cada.
e) pleonasmo vicioso: consiste na repetição desnecessária de uma ideia.
O pai ordenou que a menina entrasse para dentro imediatamente.
Observação: Quando o uso do pleonasmo se dá de modo enfático, este não é considerado vicioso.
f) eco: trata-se da repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.
O menino repetente mente alegremente.
CABRAL, Marina. Vícios de Linguagem. Gramática. Língua Portuguesa. Equipe Brasil Escola, 2012.
Expressões idiomáticas
Conceituam-se como expressões idiomáticas aquelas que, perante os estudos linguísticos, são destituídas de tradução. Pode considerar-se que fazem parte daquilo que chamamos de variações da língua, uma vez que retratam traços culturais de uma determinada região. Dotadas de um evidente grau de informalismo são geradas por meio das gírias e tendem a se perpetuar ao longo de toda uma geração.
Desta forma, ao analisarmos as imagens que seguem constatamos que estas nos remetem a dizeres já bastante conhecidos e até “cristalizados” no tempo. Observemos, pois:
Assim, já ouvimos muitas que “fulano engoliu um sapo”, ou que “fulano pisou na bola”. Estas, assim como tantas outras revelam um discurso específico, uma vez que “engolir um sapo” significa receber uma “bronca” e “pisar na bola” revela uma atitude considerada inaceitável”.
No intuito de aprofundarmos ainda mais nossos conhecimentos no que tange a este assunto, analisemos alguns casos representativos:
Armar um barraco – criar uma confusão em público.
Ao pé da letra – literalmente.
Arregaçar as mangas – dar início a uma determinada atividade.
Bater as botas – falecer.
Boca de siri – manter um segredo referente a um determinado assunto.
Cara de pau – descarado, sem-vergonha.
Chutar o balde/chutar o pau da barraca – perder o controle, a calma.
Descascar o abacaxi – resolver um problema complicado.
Encher linguiça – enrolar, ocupar o tempo por meio da embromação.
Lavar as mãos – não se envolver com um determinado assunto.
Pé na jaca – cometer excessos (enfiar o pé na jaca).
Quebrar o galho – improvisar.
Segurar vela – atrapalhar o namoro.
Trocar as bolas – atrapalhar-se.
Trocar os pés pelas mãos - agir de modo desajeitado, apressadamente.
DUARTE, Vânia. Expressões idiomáticas. Gramática. Língua Portuguesa. Equipe Brasil Escola, 2012.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
O Homem Nú - Fernando Sabino
Ao acordar, disse para a mulher:
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
— Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
— Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
— Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um tarado!
— Olha, que horror!
— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
SABINO, Fernando. O homem nú. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 65. Disponível em: <http://www.releituras.com/fsabino_homemnu.asp>
— Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
— Explique isso ao homem — ponderou a mulher.
— Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar — amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
— Maria! Abre aí, Maria. Sou eu — chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
— Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
— Ah, isso é que não! — fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
— Isso é que não — repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
— Maria! Abre esta porta! — gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
— Bom dia, minha senhora — disse ele, confuso. — Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
— Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
— Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
— É um tarado!
— Olha, que horror!
— Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
— Deve ser a polícia — disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
SABINO, Fernando. O homem nú. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 65. Disponível em: <http://www.releituras.com/fsabino_homemnu.asp>
PROTESTOS ABRINDO O VERÃO (Paródia)
PROTESTOS ABRINDO O VERÃO
Autor: Alessandro de Oliveira Arantes
Paródia da música: Águas de março (Tom Jobim)
É bomba, é pedra, é o pau do caminho
É um resto de placa, é um toco caindo
É um caco de vidro, é o povo, é o sol
É a noite, é a morte, é a revolta, é o caos
É o povo do campo, é o da casa de madeira
O cara da roça, do roço, ou da urbe, que nem leão.
É madeira ao vento, é o povo na ribanceira
É a revolta profunda, quer queira ou não queira
É o vento ventando, antes do fim da ladeira
É com viga no vão, no meio da pista, festa da revolução
É a chuva chovendo, e protesto rolando
Contra o desgosto e desmandos, pedindo o fim da roubalheira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Bandeira na mão, pedra e atiradeira
É um avião no céu, é uma carro no chão
É o governo chegando, desfilando na frente, com seu carrão
Mesmo no fundo do poço, perto do fim do caminho
No rosto o sorriso, é um pouco disfarce
É uma máscara, é um lata, é uma ponta, é um pau
É um pingo , pingando, é a chuva chegando, e molhando
É um rio, é um grito, é um raio brilhando
Em plena luz da manhã, são os tijolos chegando
É a chapa, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto do estádio, é o corpo na maca
É o carro enguiçado, que inflama, inflama
É um carro, é uma ponte, é um avião, é um urubu
É um resto de cerca, na luz da manhã
São os protestos da copa abrindo o verão
Se revoltando com o governo, sendo um cidadão.
É uma bandeira, é um pau, é Paulão, é José
É uma câmera mão, é um tênis no pé
São os protestos da copa abrindo o verão
Se revoltando com o governo, sendo um cidadão.
É uma máscara, é um lata, é uma ponta, é um pau
É um pingo, é a chuva, e o esgoto estourando
É um rio, são os carros, boiando na estrada
É um passo, é uma ponte, esgoto saindo
Trilho quebrando, lixo na via,
É uma picaretagem, é uma má administração
São os protestos da copa abrindo o verão
Se revoltando com o governo, sendo um cidadão,
Correndo atrás dos direitos de um cidadão.
Autor: Alessandro de Oliveira Arantes
Paródia da música: Águas de março (Tom Jobim)
É bomba, é pedra, é o pau do caminho
É um resto de placa, é um toco caindo
É um caco de vidro, é o povo, é o sol
É a noite, é a morte, é a revolta, é o caos
É o povo do campo, é o da casa de madeira
O cara da roça, do roço, ou da urbe, que nem leão.
É madeira ao vento, é o povo na ribanceira
É a revolta profunda, quer queira ou não queira
É o vento ventando, antes do fim da ladeira
É com viga no vão, no meio da pista, festa da revolução
É a chuva chovendo, e protesto rolando
Contra o desgosto e desmandos, pedindo o fim da roubalheira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Bandeira na mão, pedra e atiradeira
É um avião no céu, é uma carro no chão
É o governo chegando, desfilando na frente, com seu carrão
Mesmo no fundo do poço, perto do fim do caminho
No rosto o sorriso, é um pouco disfarce
É uma máscara, é um lata, é uma ponta, é um pau
É um pingo , pingando, é a chuva chegando, e molhando
É um rio, é um grito, é um raio brilhando
Em plena luz da manhã, são os tijolos chegando
É a chapa, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto do estádio, é o corpo na maca
É o carro enguiçado, que inflama, inflama
É um carro, é uma ponte, é um avião, é um urubu
É um resto de cerca, na luz da manhã
São os protestos da copa abrindo o verão
Se revoltando com o governo, sendo um cidadão.
É uma bandeira, é um pau, é Paulão, é José
É uma câmera mão, é um tênis no pé
São os protestos da copa abrindo o verão
Se revoltando com o governo, sendo um cidadão.
É uma máscara, é um lata, é uma ponta, é um pau
É um pingo, é a chuva, e o esgoto estourando
É um rio, são os carros, boiando na estrada
É um passo, é uma ponte, esgoto saindo
Trilho quebrando, lixo na via,
É uma picaretagem, é uma má administração
São os protestos da copa abrindo o verão
Se revoltando com o governo, sendo um cidadão,
Correndo atrás dos direitos de um cidadão.
sábado, 30 de novembro de 2013
Redação Oficial e Normatização Técnica - Links
Este link direciona a uma página da biblioteca do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, na qual constam textos, manuais e normas técnicas, pertinentes ao ambiente da Redação Oficial, além do mais, servem para as mais diversas esferas, dentre elas: administrativa, acadêmica, da pesquisa, e do cotidiano, e outras; aconselhamos dar uma visualizada e lida nos textos. São 34 links com textos, manuais e normativas, para acesso público e gratuito.
Endereço do site: http://biblioteca.planejamento.gov.br/biblioteca-tematica-1/textos/redacao-oficial-e-normalizacao-tecnica-dicas/
Conteúdo:
Redação oficial e Normalização técnica - Dicas.
TEXTO 34 - A Reforma Ortográfica visa facilitar o processo de intercâmbio cultural e científico.
TEXTO 33 - Modelo de monografia pronta pelas normas da ABNT.
TEXTO 32 - Normas da ABNT para apresentação de projetos de pesquisa.
TEXTO 31 - Apostila completa de Redação Oficial.
TEXTO 30 - Manual para elaboração de Referencia bibliográfica - NBR 6023.
TEXTO 29 – Recomendações para produzir um bom artigo de opinião.
TEXTO 28 - Estilo de Normalizar de Acordo com as Normas ABNT.
TEXTO 27 - Manual de orientações para elaboração de trabalhos técnico-cientificos e referências bibliográficas.
TEXTO 26 - Manual de Redacao Oficial - ano 2008.
TEXTO 25 - Modelo de trabalho cientifico pronto nas Normas da ABNT.
TEXTO 23 - Modelo capa e folha de rosto pelas Normas da ABNT.
TEXTO 22 - Técnicas de redação.
TEXTO 21 - O uso de Pronomes de Tratamento.
TEXTO 20 - Pronomes de tratamento na redação oficial.
TEXTO 18 - Slide - Curso de aperfeiçoamento linguistico e técnicas de redação oficial.
TEXTO 17 - Dicas de Redação Oficial.
TEXTO 16 - Modelo de Projeto de Lei Complementar.
TEXTO 15 - Modelo de Oficio-Circular.
TEXTO 14 - Modelo de Memorando.
TEXTO 13 - Modelo de Oficio.
TEXTO 12 - Modelo de Mensagem.
TEXTO 11 - Modelo de Instrução Normativa.
TEXTO 10 - Modelo de Justificacão.
TEXTO 9 - Modelo de Encaminhamento de Fax.
TEXTO 7 - Modelo de Efeito Suspensivo de Recursos.
TEXTO 6 - Modelo de Decisao Normativa.
TEXTO 5 - Modelo de Comunicado.
TEXTO 4 - Modelo de Aviso de Licitacao.
TEXTO 3 - Manual de redação da Presidência da República
TEXTO 2 - Dicas para elaborar um texto no padrão oficial.
TEXTO 1 - Redação Oficial é diferencial que amplia chances de alcançar a carreira pública.
TEXTO 24 - Modelo de referencia bibliografica nas Normas da ABNT.
TEXTO 19 - Slide sobre Redacao Oficial.
TEXTO 8 - Modelo de Emenda Regimental.
Referências:
PLANEJAMENTO, Ministério. Redação oficial e Normalização técnica - Dicas. In: Textos. Biblioteca temática. Brasília: Biblioteca MP, 2013. Disponível em: <http://biblioteca.planejamento.gov.br/biblioteca-tematica-1/textos/redacao-oficial-e-normalizacao-tecnica-dicas/> Acesso em: 30 de novembro de 2013.
Endereço do site: http://biblioteca.planejamento.gov.br/biblioteca-tematica-1/textos/redacao-oficial-e-normalizacao-tecnica-dicas/
Conteúdo:
Redação oficial e Normalização técnica - Dicas.
TEXTO 34 - A Reforma Ortográfica visa facilitar o processo de intercâmbio cultural e científico.
TEXTO 33 - Modelo de monografia pronta pelas normas da ABNT.
TEXTO 32 - Normas da ABNT para apresentação de projetos de pesquisa.
TEXTO 31 - Apostila completa de Redação Oficial.
TEXTO 30 - Manual para elaboração de Referencia bibliográfica - NBR 6023.
TEXTO 29 – Recomendações para produzir um bom artigo de opinião.
TEXTO 28 - Estilo de Normalizar de Acordo com as Normas ABNT.
TEXTO 27 - Manual de orientações para elaboração de trabalhos técnico-cientificos e referências bibliográficas.
TEXTO 26 - Manual de Redacao Oficial - ano 2008.
TEXTO 25 - Modelo de trabalho cientifico pronto nas Normas da ABNT.
TEXTO 23 - Modelo capa e folha de rosto pelas Normas da ABNT.
TEXTO 22 - Técnicas de redação.
TEXTO 21 - O uso de Pronomes de Tratamento.
TEXTO 20 - Pronomes de tratamento na redação oficial.
TEXTO 18 - Slide - Curso de aperfeiçoamento linguistico e técnicas de redação oficial.
TEXTO 17 - Dicas de Redação Oficial.
TEXTO 16 - Modelo de Projeto de Lei Complementar.
TEXTO 15 - Modelo de Oficio-Circular.
TEXTO 14 - Modelo de Memorando.
TEXTO 13 - Modelo de Oficio.
TEXTO 12 - Modelo de Mensagem.
TEXTO 11 - Modelo de Instrução Normativa.
TEXTO 10 - Modelo de Justificacão.
TEXTO 9 - Modelo de Encaminhamento de Fax.
TEXTO 7 - Modelo de Efeito Suspensivo de Recursos.
TEXTO 6 - Modelo de Decisao Normativa.
TEXTO 5 - Modelo de Comunicado.
TEXTO 4 - Modelo de Aviso de Licitacao.
TEXTO 3 - Manual de redação da Presidência da República
TEXTO 2 - Dicas para elaborar um texto no padrão oficial.
TEXTO 1 - Redação Oficial é diferencial que amplia chances de alcançar a carreira pública.
TEXTO 24 - Modelo de referencia bibliografica nas Normas da ABNT.
TEXTO 19 - Slide sobre Redacao Oficial.
TEXTO 8 - Modelo de Emenda Regimental.
Referências:
PLANEJAMENTO, Ministério. Redação oficial e Normalização técnica - Dicas. In: Textos. Biblioteca temática. Brasília: Biblioteca MP, 2013. Disponível em: <http://biblioteca.planejamento.gov.br/biblioteca-tematica-1/textos/redacao-oficial-e-normalizacao-tecnica-dicas/> Acesso em: 30 de novembro de 2013.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
terça-feira, 12 de novembro de 2013
BOMBAS EM GUAMARÉ (Paródia)
Soltaram umas bombas, em Guamaré,
Voaram pra todo lado uns pedaços do banco de Guamaré.
Foi tantas bombas explodindo, cacos da agência subindo, voando pelo centro, a cidade toda ouvindo,
Deu até para escutar o ruído, no distrito ali do lado.
No meio da rua estava um pedaço do caixa,
No meio fio a placa da entrada,
Em cima das telhas pedaços de dinheiro,
Na casa do lado tinha um buraco na parede.
Passei por perto, e vi tudo arrebentado,
Vi dinheiro e telhas, pedaço de vidro em cacos,
Gesso todo quebrado, madeiras e trilhos espalhadas pra todo lado.
E assim foi se embora, em Guamaré,
Explodiram a agência, e depois bateram no pé.
Essa é a realidade, bomba em Guamaré, já tinha visto isso meu irmão?
FIM!
Voaram pra todo lado uns pedaços do banco de Guamaré.
Foi tantas bombas explodindo, cacos da agência subindo, voando pelo centro, a cidade toda ouvindo,
Deu até para escutar o ruído, no distrito ali do lado.
No meio da rua estava um pedaço do caixa,
No meio fio a placa da entrada,
Em cima das telhas pedaços de dinheiro,
Na casa do lado tinha um buraco na parede.
Passei por perto, e vi tudo arrebentado,
Vi dinheiro e telhas, pedaço de vidro em cacos,
Gesso todo quebrado, madeiras e trilhos espalhadas pra todo lado.
E assim foi se embora, em Guamaré,
Explodiram a agência, e depois bateram no pé.
Essa é a realidade, bomba em Guamaré, já tinha visto isso meu irmão?
FIM!
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
REFLEXOS
Precisando de ar, de voltar a ver o mar, de sentir a brisa úmida, salina e pura o ar, ver as cintilantes ondas, num mar azul-esverdeado, de grandes pérolas, dunas móveis, calor escaldante, que nos faz delirar, ver cores, de tons de azúreos até o escarlate, que nos impressiona, tamanha beleza, que aos olhos nos faz viajar, imaginar, no revoar dos pássaros, do balançar das ondas, amanhecer na beira do mar, enfim, sonhar.
(ARANTES, Alessandro de Oliveira. Reflexos. [poema]. Guamaré: Brasil, 2013)
(ARANTES, Alessandro de Oliveira. Reflexos. [poema]. Guamaré: Brasil, 2013)
LOUCO PRA DORMIR (Paródia)
Louco, louco, louco,
Eu fiquei foi muito louco pra dormir.
Estou com muito sono, quase ficando louco pra dormir.
Depois de um inteiro ocupadão
Acordar no frio da manhã
Como já sei, como isso é.
Trabalhar o dia inteiro,
Que arrumação,
Como já sei, como isso é.
O que não sei se vou aguentar,
Mas vei ter que ser,
Pois eu já fiquei foi muito louco.
Louco, louco, louco,
Eu já estou muito louco pra dormir
Eu com muito sono, cambaleando pela casa, louco pra dormir.
(Essa vai para os que não conseguem dormir, que ficam no facebook, tentado ver se o sono chega, depois de um dia inteiro de trabalho, afazeres, tarefas e pesquisas de fato, tocadas, ensaios, fazendo arte, produzindo e pondo o cérebro para funcionar, enfim chega o sono, mas não consigo dormir, aí fico louco, louco para dormir).
Louco, louco, louco,
Eu já estou muito louco pra dormir
Eu com muito sono, cambaleando pela casa, louco pra dormir.
Fim
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
Eu fiquei foi muito louco pra dormir.
Estou com muito sono, quase ficando louco pra dormir.
Depois de um inteiro ocupadão
Acordar no frio da manhã
Como já sei, como isso é.
Trabalhar o dia inteiro,
Que arrumação,
Como já sei, como isso é.
O que não sei se vou aguentar,
Mas vei ter que ser,
Pois eu já fiquei foi muito louco.
Louco, louco, louco,
Eu já estou muito louco pra dormir
Eu com muito sono, cambaleando pela casa, louco pra dormir.
(Essa vai para os que não conseguem dormir, que ficam no facebook, tentado ver se o sono chega, depois de um dia inteiro de trabalho, afazeres, tarefas e pesquisas de fato, tocadas, ensaios, fazendo arte, produzindo e pondo o cérebro para funcionar, enfim chega o sono, mas não consigo dormir, aí fico louco, louco para dormir).
Louco, louco, louco,
Eu já estou muito louco pra dormir
Eu com muito sono, cambaleando pela casa, louco pra dormir.
Fim
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
E O GALO CANTOU!
E o Galo cantou... e ele cantou de novo... cantou mais uma vez... e os grilos sumiram!... olhe, cantou novamente, e cadê os grilos?, e tome mais uma cantada... outra... outra... ué? só um Galo cantou?... o que houve com os outros?... Uns estão de ressaca da quinta-feira, outros viajaram, outros decolaram que nem avião, outros estão dormindo e com preguiça de cantar, outros estão no fuso horário certo, ué? e esse galo cantor?... deve estar preocupado com tamanho silêncio, e resolveu cantar. Có-có-ró-cóóó! (já se foram 13 cantadas)
E o Galo volta à dormir, no silêncio da noite, e assim escutam-se ruídos ao fundo...
Grilos? não, Gatos? não, Morcegos? não?, outros Galos?, também não, e o que são? Fantasmas soltos pelas ruas!, que nem zumbis, cheirando a álcool cantando: "pi, pi, pi, pi, pi, piradinha..."
Ouvindo isso, o Galo põe-se a dormir, pensando não ver esses fantasmas, esperando o sol nascer para fazê-los sumir que nem vampiros que veem o sol.
E antes disso, canta: Có-có-ró-cóóó!
Em tom de despedida, como querendo dizer: Boa madrugada!
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
E o Galo volta à dormir, no silêncio da noite, e assim escutam-se ruídos ao fundo...
Grilos? não, Gatos? não, Morcegos? não?, outros Galos?, também não, e o que são? Fantasmas soltos pelas ruas!, que nem zumbis, cheirando a álcool cantando: "pi, pi, pi, pi, pi, piradinha..."
Ouvindo isso, o Galo põe-se a dormir, pensando não ver esses fantasmas, esperando o sol nascer para fazê-los sumir que nem vampiros que veem o sol.
E antes disso, canta: Có-có-ró-cóóó!
Em tom de despedida, como querendo dizer: Boa madrugada!
ALESSANDRO DE OLIVEIRA ARANTES
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Os 10 maiores poemas da Geração Mimeógrafo ou Poesia Marginal
RÁPIDO E RASTEIROChacal
vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida
JOGOS FLORAIS
Cacaso
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.
(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)
COGITO
Torquato neto
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
UMA NOITE
Afonso Henriques Neto
o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada
mais os vazios passos
de ela própria menina.
a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.
o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos
nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.
RECEITA
Nicolas Behr
Ingredientes:
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles
Modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração
leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas
corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver
parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões
TIRA-TEIMA
Bernardo Vilhena
Tire a faca do peito
e o medo dos olhos
Ponha uns óculos escuros
e saia por aí. Dando bandeira
Tire o nó da garganta
que a palavra corre fácil
sem desculpas nem contornos
Direta: do diafragma ao céu da boca
Tire o trinco da porta
liberte a corrente de ar
Deixe os bons ventos levantarem a poeira
levando o cisco ao olho grande
Tire a sorte na esquina
na primeira cigana ou no velho realejo
Leia o horóscopo e olhe o céu
lembre-se das estrelas e da estrada
Tire o corpo da reta
e o cu da seringa
que malandro é você, rapaz
o lado bom da faca é o cabo
Tire a mulher mais bonita
pra dançar e dance
Dance olhando dentro dos olhos
até que ela morra de vergonha
Tire o revólver e atire
a primeira pedra
a última palavra
a praga e a sorte
a peste, ou o vírus?
MUITO OBRIGADO
Francisco Alvim
Ao entrar na sala
cumprimentei-o com três palavras
boa tarde senhor
Sentei-me defronte dele
(como me pediu que fizesse)
Bonita vista
pena que nunca a aviste
Colhendo meu sangue: a agulha
enfiada na ponta do dedo
vai procurar a veia quase no sovaco
Discutir o assunto
fume do meu cigarro
deixa experimentar o seu
(Quanto ganhará este sujeito)
Blazer, roseta, o país voltando-lhe
no hábito do anel profissional
Afinal, meu velho, são trinta anos
hoje como ontem ao meio-dia
Uma cópia deste documento
que lhe confio em amizade
Sua experiência nos pode ser muito útil
não é incômodo algum
volte quando quiser
SONETO
Ana Cristina César
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
AMOR BASTANTE
Paulo Leminski
quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
OLHOS DE RESSACA
Geraldo Carneiro
minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente
eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores
e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos
eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca
e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua
eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua
se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.
Referências:
OPÇÃO CULTURAL. Os 10 maiores poemas da Geração Mimeógrafo ou Poesia Marginal.[Artigo].Goiânia, Goiás, Jornal Opção, 2013. Disponível em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/os-10-maiores-poemas-da-geracao-mimeografo-ou-poesia-marginal
_____.Seja marginal seja herói. [imagem]. In: SDL, Elton. Colunas, Chama a polícia! O poeta é marginal!. [Artigo]. Poetize. Brasil: Leitorcabuloso, 2013. Disponível em: http://leitorcabuloso.com.br/2013/07/chama-a-policia-o-poeta-e-marginal/
sábado, 7 de setembro de 2013
Mercado de livros digitais triplica vendas: fatia responde por 1% do faturamento das editoras
O mercado de livros digitais cresceu mais de 350% de 2011 para 2012. Mesmo assim, ainda não alcança 1% do faturamento das editoras no Brasil. É o que aponta a pesquisa feita pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). A diretora da CBL, Susanna Florissi, garante que o livro digital, ou eBook, já é uma realidade, mas tanto o mercado editorial como os consumidores ainda precisam se adaptar à nova plataforma de leitura.
“Tem vários formatos, uns são mais simples, como o próprio PDF, que
muitos profissionais não consideram como livro digital mas eu considero, temos o ePub, e existem também livros digitais muito mais elaborados, que são mais caros de serem produzidos, como os livros interativos, que tem som, movimento, vídeo no livro”.
O PDF é um formato mais "duro”, sem adequação, por exemplo, do tamanho da letra, mas é de fácil acesso e compatível com praticamente todos os computadores, tablets e smartphones. O ePub é a plataforma mais popular para eBooks, é estático e oferece adequação do tamanho da letra. Já os aplicativos são produtos desenvolvidos para ter mais interatividade e possibilidades, como movimento, áudio e vídeo.
Susanna ressalta que, no Brasil, o setor ainda está no início do desenvolvimento, mas o mundo inteiro está se acostumando a esse modelo de negócios. “Todos estão tentando ver que custo vai ter o livro de fato, qual o preço que o livro deve ser vendido, estamos todos nessa busca”.
De acordo com a pesquisa da CBL, 68% das editoras comercializam livros digitais, sendo que 59% ainda estão inseguras quanto ao formato a ser utilizado. Do total que respondeu a pergunta, 58,7% usam plataformas dos canais de venda e 52,4% usam distribuidoras digitais. A maioria, 70%, vendem o arquivo com DRM, um tipo de bloqueio que não permite que sejam feitas cópias.
Quanto ao faturamento, 54% disseram que a venda de livro digital não chega a 1% do total e 10,53% responderam que está acima de 50%. Para Suzanna, é uma questão de tempo e investimento para o mundo da leitura se fundir com o virtual. “Não que o livro impresso vá desaparecer, mas simplesmente o livro digital é um complemento, principalmente o livro didático”, diz.
“Com o passar do tempo vamos ter mais possibilidade de todo mundo entender o que é o livro digital, até por isso o nosso esforço com o Congresso, trazer pessoas de fora. Desde que a gente passou a mandar os livros para a gráfica não mais em filme, não mais em fotolito, mas sim em PDF, a gente tem o livro digital. Agora, sempre que eu começo a escrever um livro, não penso mais só naquilo que via no PDF, penso naquilo que vai também para o aplicativo, para uma nuvem onde eu tenho interatividade, então já é uma nova forma de escrever e de se publicar”.
De acordo com Suzanna, grandes corporações como Apple Store e Google Play são os principais meios de venda do livro digital. Com um estande na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o gerente de Parceiras do Google Brasil, Newton Neto, explica que o momento é de difundir o livro digital para popularizar cada vez mais a plataforma. “É um movimento natural que deve acontecer no Brasil. Ontem (quarta-feira), a gente anunciou que são mais de 1 bilhão de celulares com dispositivo Androide no mundo, então acho que as plataformas móveis vão ajudar a popularizar muito o livro digital e é um caminho natural, que vai acontecer com o tempo”.
A Google Play tem, no Brasil, 5 milhões de livros disponíveis para venda e download gratuito, das principais editoras brasileiras. Na Apple Store, estão disponíveis para o leitor mais de 1,5 milhão de livros digitais.
Na Bienal, a Google disponibilizou tablets e celulares com conteúdo pré-carregado para as pessoas testarem a plataforma. “Há um interesse muito grande, principalmente pelos jovens, na adoção do livro digital, desperta muita curiosidade. É uma oportunidade que o Brasil tem de popularizar a leitura, por meio das mídias digitais, pois os desafios logísticos no país são grande, pra você mandar um livro impresso para um leitor em Manaus é muito complicado, então a gente acredita que essa plataforma vai reduzir a distância entre os leitores e o livro”, diz Neto.
Outra prova da tendência da digitalização dos livros é o sucesso do Portal Domínio Público, do Ministério da Educação (MEC). Criado em 2004 com 500 obras, hoje são 171.311 obras disponíveis, a maioria de textos, mas também há imagens, sons e vídeos. De acordo com o MEC, o portal está em processo de reestruturação e, apesar de estar sem atualização há três meses, continua campeão de acesso no portal do ministério, com média mensal 400 mil acessos. Além de obras que já estejam em domínio público de acordo com a lei de direitos autorais, autores que queiram divulgar seu trabalho também disponibilizam material no portal.
Entre os destaques do Domínio Público estão a obra completa de Machado de Assis, disponibilizado por ocasião do centenário de morte do escritor, em 2008, poemas de Fernando Pessoa, peças de William Shakespeare, Sófocles e Gil Vicente, livros de Joaquim Nabuco, Aluísio Azevedo, Eça de Queiroz, Miguel de Cervantes e Júlio Verne, além de literatura infantil, música erudita brasileira, hinos e a coleção História Geral da África. Os arquivos são disponibilizados em formato PDF para textos e MP3 para áudios.
O recordista de acessos no Portal Domínio Público é a Divina Comédia, de Dante Aliguieri, com mais de 2 milhões de downloads. Em segundo lugar está Angola e as Novas Tecnologias de Informação, de Victor Natanael Narciso, com 1,8 milhão de acessos, seguido de Poemas, de Fernando Pessoa, com 831 mil downloads, e Romeu e Julieta, de William Shakespeare, que foi acessado por 546 mil pessoas.
O Ministério da Educação também planeja para 2015 a inclusão de livros em formato digital na distribuição do Programa Nacional do Livro Didático.
Referências:
Mercado de livros digitais triplica vendas. In: Cultura, Literatura. [Artigo de jornal]. Recife: Jornal do Comércio Online, 2013. Disponível em: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2013/09/05/mercado-de-livros-digitais-triplica-vendas-96427.php
O processo de independência do Brasil
Para compreender o verdadeiro significado histórico da independência do Brasil, levaremos em consideração duas importantes questões:
Em primeiro lugar, entender que o 07 de setembro de 1822 não foi um ato isolado do príncipe D. Pedro, e sim um acontecimento que integra o processo de crise do Antigo Sistema Colonial, iniciada com as revoltas de emancipação no final do século XVIII. Ainda é muito comum a memória do estudante associar a independência do Brasil ao quadro de Pedro Américo, "O Grito do Ipiranga", que personifica o acontecimento na figura de D. Pedro.
Em segundo lugar, perceber que a independência do Brasil, restringiu-se à esfera política, nã
o alterando em nada a realidade sócio-econômica, que se manteve com as mesmas características do período colonial.
Valorizando essas duas questões, faremos uma breve avaliação histórica do processo de independência do Brasil.
Desde as últimas décadas do século XVIII assinala-se na América Latina a crise do Antigo Sistema Colonial. No Brasil, essa crise foi marcada pelas rebeliões de emancipação, destacando-se a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana. Foram os primeiros movimentos sociais da história do Brasil a questionar o pacto colonial e assumir um caráter republicano. Era apenas o início do processo de independência política do Brasil, que se estende até 1822 com o "sete de setembro". Esta situação de crise do antigo sistema colonial, era na verdade, parte integrante da decadência do Antigo Regime europeu, debilitado pela Revolução Industrial na Inglaterra e principalmente pela difusão do liberalismo econômico e dos princípios iluministas, que juntos formarão a base ideológica para a Independência dos Estados Unidos (1776) e para a Revolução Francesa (1789). Trata-se de um dos mais importantes movimentos de transição na História, assinalado pela passagem da idade moderna para a contemporânea, representada pela transição do capitalismo comercial para o industrial.
Os Movimentos de Emancipação
A Inconfidência Mineira destacou-se por ter sido o primeiro movimento social republicano-emancipacionista de nossa história. Eis aí sua importância maior, já que em outros aspectos ficou muito a desejar. Sua composição social por exemplo, marginalizava as camadas mais populares, configurando-se num movimento elitista estendendo-se no máximo às camadas médias da sociedade, como intelectuais, militares, e religiosos. Outros pontos que contribuíram para debilitar o movimento foram a precária articulação militar e a postura regionalista, ou seja, reivindicavam a emancipação e a república para o Brasil e na prática preocupavam-se com problemas locais de Minas Gerais. O mais grave contudo foi a ausência de uma postura clara que defendesse a abolição da escravatura. O desfecho do movimento foi assinalado quando o governador Visconde de Barbacena suspendeu a derrama -- seria o pretexto para deflagar a revolta - e esvaziou a conspiração, iniciando prisões acompanhadas de uma verdadeira devassa.
Os líderes do movimento foram presos e enviados para o Rio de Janeiro responderam pelo crime de inconfidência (falta de fidelidade ao rei), pelo qual foram condenados. Todos negaram sua participação no movimento, menos Joaquim José da Silva Xavier, o alferes conhecido como Tiradentes, que assumiu a responsabilidade de liderar o movimento. Após decreto de D. Maria I é revogada a pena de morte dos inconfidentes, exceto a de Tiradentes. Alguns tem a pena transformada em prisão temporária, outros em prisão perpétua. Cláudio Manuel da Costa morreu na prisão, onde provavelmente foi assassinado.
Tiradentes, o de mais baixa condição social, foi o único condenado à morte por enforcamento. Sua cabeça foi cortada e levada para Vila Rica. O corpo foi esquartejado e espalhado pelos caminhos de Minas Gerais (21 de abril de 1789). Era o cruel exemplo que ficava para qualquer outra tentativa de questionar o poder da metrópole.
O exemplo parece que não assustou a todos, já que nove anos mais tarde iniciava-se na Bahia a Revolta dos Alfaiates, também chamada de Conjuração Baiana. A influência da loja maçônica Cavaleiros da Luz deu um sentido mais intelectual ao movimento que contou também com uma ativa participação de camadas populares como os alfaiates João de Deus e Manuel dos Santos Lira.Eram pretos, mestiços, índios, pobres em geral, além de soldados e religiosos. Justamente por possuír uma composição social mais abrangente com participação popular, a revolta pretendia uma república acompanhada da abolição da escravatura. Controlado pelo governo, as lideranças populares do movimento foram executadas por enforcamento, enquanto que os intelectuais foram absolvidos.
Outros movimentos de emancipação também foram controlados, como a Conjuração do Rio de Janeiro em 1794, a Conspiração dos Suaçunas em Pernambuco (1801) e a Revolução Pernambucana de 1817. Esta última, já na época que D. João VI havia se estabelecido no Brasil. Apesar de contidas todas essas rebeliões foram determinantes para o agravamento da crise do colonialismo no Brasil, já que trouxeram pela primeira vez os ideais iluministas e os objetivos republicanos.
A Família Real no Brasil e a Preponderância Inglesa
Se o que define a condição de colônia é o monopólio imposto pela metrópole, em 1808 com a abertura dos portos, o Brasil deixava de ser colônia. O monopólio não mais existia. Rompia-se o pacto colonial e atendia-se assim, os interesses da elite agrária brasileira, acentuando as relações com a Inglaterra, em detrimento das tradicionais relações com Portugal.
Esse episódio, que inaugura a política de D. João VI no Brasil, é considerado a primeira medida formal em direção ao "sete de setembro".
Há muito Portugal dependia economicamente da Inglaterra. Essa dependência acentua-se com a vinda de D. João VI ao Brasil, que gradualmente deixava de ser colônia de Portugal, para entrar na esfera do domínio britânico. Para Inglaterra industrializada, a independência da América Latina era uma promissora oportunidade de mercados, tanto fornecedores, como consumidores.
Com a assinatura dos Tratados de 1810 (Comércio e Navegação e Aliança e Amizade), Portugal perdeu definitivamente o monopólio do comércio brasileiro e o Brasil caiu diretamente na dependência do capitalismo inglês.
Em 1820, a burguesia mercantil portuguesa colocou fim ao absolutismo em Portugal com a Revolução do Porto. Implantou-se uma monarquia constitucional, o que deu um caráter liberal ao movimento. Mas, ao mesmo tempo, por tratar-se de uma burguesia mercantil que tomava o poder, essa revolução assume uma postura recolonizadora sobre o Brasil. D. João VI retorna para Portugal e seu filho aproxima-se ainda mais da aristocracia rural brasileira, que sentia-se duplamente ameaçada em seus interesses: a intenção recolonizadora de Portugal e as guerras de independência na América Espanhola, responsáveis pela divisão da região em repúblicas.
O Significado Histórico da Independência
A aristocracia rural brasileira encaminhou a independência do Brasil com o cuidado de não afetar seus privilégios, representados pelo latifúndio e escravismo. Dessa forma, a independência foi imposta verticalmente, com a preocupação em manter a unidade nacional e conciliar as divergências existentes dentro da própria elite rural, afastando os setores mais baixos da sociedade representados por escravos e trabalhadores pobres em geral.
Com a volta de D. João VI para Portugal e as exigências para que também o príncipe regente voltasse, a aristocracia rural passa a viver sob um difícil dilema: conter a recolonização e ao mesmo tempo evitar que a ruptura com Portugal assumisse o caráter revolucionário-republicano que marcava a independência da América Espanhola, o que evidentemente ameaçaria seus privilégios.
A maçonaria (reaberta no Rio de Janeiro com a loja maçônica Comércio e Artes) e a imprensa uniram suas forças contra a postura recolonizadora das Cortes.
D. Pedro é sondado para ficar no Brasil, pois sua partida poderia representar o esfacelamento do país. Era preciso ganhar o apoio de D. Pedro, em torno do qual se concretizariam os interesses da aristocracia rural brasileira. Um abaixo assinado de oito mil assinaturas foi levado por José Clemente Pereira (presidente do Senado) a D. Pedro em 9 de janeiro de 1822, solicitando sua permanência no Brasil. Cedendo às pressões, D. Pedro decidiu-se: "Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto. Diga ao povo que fico".
É claro que D. Pedro decidiu ficar bem menos pelo povo e bem mais pela aristocracia, que o apoiaria como imperador em troca da futura independência não alterar a realidade sócio-econômica colonial. Contudo, o Dia do fico era mais um passo para o rompimento definitivo com Portugal. Graças a homens como José Bonifácio de Andrada e Silva (patriarca da independência), Gonçalves Ledo, José Clemente Pereira e outros, o movimento de independência adquiriu um ritmo surpreendente com o cumpra-se, onde as leis portuguesas seriam obedecidas somente com o aval de D. Pedro, que acabou aceitando o título de Defensor Perpétuo do Brasil (13 de maio de 1822), oferecido pela maçonaria e pelo Senado. Em 3 de junho foi convocada uma Assembléia Geral Constituinte e Legislativa e em primeiro de agosto considerou-se inimigas as tropas portuguesas que tentassem desembarcar no Brasil.
São Paulo vivia um clima de instabilidade para os irmãos Andradas, pois Martim Francisco (vice-presidente da Junta Governativa de São Paulo) foi forçado a demitir-se, sendo expulso da província. Em Portugal, a reação tornava-se radical, com ameaça de envio de tropas, caso o príncipe não retornasse imediatamente.
José Bonifácio, transmitiu a decisão portuguesa ao príncipe, juntamente com carta sua e de D. Maria Leopoldina, que ficara no Rio de Janeiro como regente. No dia sete de setembro de 1822 D. Pedro que se encontrava às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, após a leitura das cartas que chegaram em suas mãos, bradou: "É tempo... Independência ou morte... Estamos separados de Portugal".Chegando no Rio de Janeiro (14 de setembro de 1822), D. Pedro foi aclamado Imperador Constitucional do Brasil. Era o início do Império, embora a coroação apenas se realizasse em primeiro de dezembro de 1822.
A independência não marcou nenhuma ruptura com o processo de nossa história colonial. As bases sócio-econômicas (trabalho escravo, monocultura e latifúndio), que representavam a manutenção dos privilégios aristocráticos, permaneceram inalteradas. O "sete de setembro" foi apenas a consolidação de uma ruptura política, que já começara 14 anos atrás, com a abertura dos portos.
Referências:
RECCO, Claudio Barbosa (Coord. Profº); CATARIN, Cristiano Rodrigo & BANDOUK, Gabriel Luiz (Colaboradores) . O processo de independência do Brasil. Brasil Império. [Artigo]. Portal História Net. Brasil: HistoriaNet, 2013. Disponível em: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=3 Acesso em: 07 de set. 2013.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Método Paulo Freire: Trabalhando com a educação de jovens e adultos
RELAÇÃO PROFESSOR ALUNO (Paulo Freire).
Método Paulo Freire: alfabetização pela conscientização
O Método Paulo Freire consiste numa proposta para a alfabetização de adultos desenvolvida pelo educador, o método nasceu em 1962 quando Freire era diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife onde formou um grupo para testar o método na cidade de Angicos, RN onde alfabetizou 300 cortadores de cana em apenas 45 dias, Freire criticava o sistema tradicional, o qual utilizava a cartilha como ferramenta central da didática para o ensino da leitura e da escrita. As cartilhas ensinavam pelo método da repetição de palavras soltas ou de frases criadas de forma forçosa, que comumente se denomina como linguagem de cartilha, por exemplo “Eva viu a uva”, “o boi baba”, “a ave voa”, dentre outros.
“Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”(Paulo freire)
O método propõe a identificação das palavras-chave do vocabulário dos alunos - as chamadas palavras geradoras. Elas devem sugerir situações de vida comuns e significativas para os integrantes da comunidade em que se atua, como por exemplo, "tijolo" para os operários da construção civil. Diante dos alunos, o professor mostrará lado a lado a palavra e a representação visual do objeto que ela designa. Os mecanismos de linguagem serão estudados depois do desdobramento em sílabas das palavras geradoras. O conjunto das palavras geradoras deve conter as diferentes possibilidades silábicas e permitir o estudo de todas as situações que possam ocorrer durante a leitura e a escrita.
"Em sala de aula, os dois lados aprenderão junto, um com o outro - e para isso é necessário que as relações sejam afetivas e democráticas, garantindo a todos a possibilidade de se expressar. Uma das grandes inovações da pedagogia freireana é considerar que o sujeito da criação cultural não é individual, mas coletivo".(ROMÃO, José Eustáquio, Revista Nova Escola p.2)
A valorização da cultura do aluno é a chave para o processo de conscientização preconizado por Paulo Freire, ele propôs o que chamou de Temas Geradores, onde o educador e educando em sala de aula aprendem juntos, a diversidade pode contribuir para o dinamismo da aula, para o despertar do interesse, da atenção e do envolvimento, garantindo a todos a possibilidade de se expressar sobre aspectos da realidade, mantendo uma ligação com o universo conhecido deles, impulsionando-os para novas descobertas, pois aprendemos melhor aquilo que temos interesse em aprender. Os Temas Geradores ajuda a organizar o trabalho de sala de aula porque possibilita uma aprendizagem significativa.
“Os conteúdos de ensino são resultados de uma metodologia dialógica. Cada pessoa, cada grupo envolvido na ação pedagógica dispõe em si próprio, ainda que de forma rudimentar, dos conteúdos necessários dos quais se parte. O importante não é transmitir conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma de relação com a experiência vivida. A transmissão de conteúdos estruturados fora do contexto social do educando é considerada “invasão cultural” ou “depósito de informações” porque não emerge do saber popular".
(http://cantinhodesugestoesparaeja.blogspot.com.br/2010/03/metodo-paulo-freire.html )
A proposta de Freire parte do estudo da realidade que é a fala do educando, e a organização do dado que é a fala do educador, surgindo os Temas Geradores da problematização da prática de vida dos educandos e os conteúdos de ensino que são resultados de uma metodologia dialógica.
"Uma das grandes inovações da pedagogia freireana é considerar que o sujeito da criação cultural não é individual, mas coletivo". (ROMÃO, José Eustáquio, Revista Nova Escola p.2)
Etapas do método
Etapa de Investigação: busca conjunta entre professor e aluno das palavras e temas mais significativos da vida do aluno, dentro de seu universo vocabular e da comunidade onde ele vive.
Etapa de Tematização: momento da tomada de consciência do mundo, através da análise dos significados sociais dos temas e palavras.
Etapa de Problematização: etapa em que o professor desafia e inspira o aluno a superar a visão mágica e acrítica do mundo, para uma postura conscientizada.
As fases de aplicação do método
Freire propõe a aplicação de seu método nas cinco fases seguintes:
1ª fase: Levantamento do universo vocabular do grupo. Nessa fase ocorrem as interações de aproximação e conhecimento mútuo, bem como a anotação das palavras da linguagem dos membros do grupo, respeitando seu linguajar típico.
2ª fase: Escolha das palavras selecionadas, seguindo os critérios de riqueza fonética, dificuldades fonéticas - numa seqüência gradativa das mais simples para as mais complexas, do comprometimento pragmático da palavra na realidade social, cultural, política do grupo e/ou sua comunidade.
3ª fase: Criação de situações existenciais características do grupo. Trata-se de situações inseridas na realidade local, que devem ser discutidas com o intuito de abrir perspectivas para a análise crítica consciente de problemas locais, regionais e nacionais.
4ª fase: Criação das fichas-roteiro que funcionam como roteiro para os debates, as quais deverão servir como subsídios, sem no entanto seguir uma prescrição rígida.
5ª fase: Criação de fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes às palavras geradoras.
O trabalho com o tema gerador na EJA fase I, possibilita a interdisciplinaridade integrando as disciplinas Língua Portuguesa, Matemática, e Estudo da Sociedade e Natureza, desenvolvendo temas que estejam relacionados com o dia-a-dia dos educandos, partindo de sua realidade e valorizando a sua vivência, através de músicas, poemas, textos informativos e reflexivos, além de facilitar a assimilação dos conteúdos, favorece a integração do grupo.
COLOCANDO EM PRÁTICA
Trabalhando com tema gerador em sala multisseriada- 1ª a 4ª etapa:
Exemplos:
Sugestão de Atividades: Tema Gerador FAMÍLIA (minha realidade)
Marcadores: oficina de capacitação EJA 2012
Disponível em: http://ensinareaprender-crisreis.blogspot.com.br/2012/06/tema-gerador-eja-fase-i.html
Sugestão de Atividades: Palavra Geradora VIDA ( Valéria Souto)
Disponível em:http://cantinhodesugestoesparaeja.blogspot.com.br/2010/03/metodo-paulo-freire.html
Livros de Paulo Freire em PDF
Disponível em:http://www.elivros-gratis.net/livros-gratis-paulo-freire.asp#.UHDZJU4cXa0.blogger
Ver também fontes pesquisadas:
BRASIL ALFABETIZADO: experiências de avaliação dos parceiros, disponível em: http://pt.pdfsb.com/readonline/596c684865517830566e4a344458316855513d3d-1286946. Acessado em 13/11/2012
MÉTODO PAULO FREIRE, disponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9todo_Paulo_Freire#Etapas_do_m.C3.A9todo. Acessado em 13/11/2012
MÉTODO PAULO FREIRE, disponível em: http://cantinhodesugestoesparaeja.blogspot.com.br/2010/03/metodo-paulo-freire.html. Acessado em 13/11/2012
Paulo Freire, o mentor da educação para a consciência, disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/mentor-educacao-consciencia-423220.shtml?page=1. Acessado em 13/11/2012
Paulo Freire, Vida e obra. Disponível em: http://www.educacaonaescola.com.br/paulo-freire/. Acessado em 10/10/2012
Paulo Freire, Relação Professor Aluno, vídeo disponível em:
http://youtu.be/-NQzQlPrQwQ. Acessado em 10/10/2012
Referências:
REIS, Cristiane. Método Paulo Freire. Educação de Jovens e Adultos. [Artigo]. Blog. Apucarana, Paraná: Blog Ensinar é aprender, 2012. Disponível em: http://ensinareaprender-crisreis.blogspot.com.br/2012/11/metodo-paulo-freire.html Acesso em: 07/08/2013.
Método Paulo Freire de alfabetização: as lembranças emocionadas da 1ª turma
Método Paulo Freire de alfabetização completa 50 anos neste mês. Primeira turma teve 380 alunos de Angicos, dos quais 300 se formaram
Paulo Alves de Souza, 70 anos, Maria Eneide de Araujo Melo, 56, e Idália Marrocos da Silva, 83. Três personagens de uma história que teve como cenário a pequena cidade de Angicos, localizada na região central do Rio Grande do Norte, a 170 km de Natal, e que completa 50 anos neste mês de abril. Os três fizeram parte da experiência de alfabetização de adultos, conhecida como as 40 Horas de Angicos, na qual foram alfabetizados cerca de 300 angicanos, em 1963, sob a supervisão do educador Paulo Freire.
A experiência, inédita no Brasil, tinha uma meta ousada: alfabetizar adultos em 40 horas. Mas não era só isso. De acordo com o professor doutor Éder Jofre, Paulo Freire pretendia despertar o ser político que deve ser sujeito de direito. “A palavra ‘tijolo’ fez parte do universo vocabular trabalhado em Angicos. Era uma palavra que fazia parte do cotidiano dessas pessoas. Mas não era só ensinar a escrever tijolo, tinha também a questão social e política. Era questionado: você trabalha na construção de casas, mas você tem uma casa própria? Por que não tem? Levava o cidadão a pensar nessas questões”, explica Éder Jofre, que é doutor no método Paulo Freire.
método paulo freire alfabetização
Paulo Souza, aluno da primeira turma do método Paulo Freire, se emociona ao lembrar das aulas (Foto: Fernanda Zauli/G1 RN)
Paulo Souza lembra que naquela época, quando tinha 20 anos, já não tinha esperanças de aprender a ler, até que chegou na cidade a notícia do curso de alfabetização de adultos. “Eu não pensei duas vezes. Fui na hora.” Ele conta que trabalhava o dia todo e seguia para as aulas que aconteciam em uma casa no centro da cidade. “Naquela época aqui era só mato. Depois do trabalho a gente seguia para a aula com o caderninho debaixo do braço. Aquilo mudou a minha vida, porque quando a gente não sabe ler a gente não participa de nada, a gente não é ninguém”, diz, emocionado.
Maria Eneide também participou das aulas de alfabetização. Com 6 anos de idade, ela não era o público alvo do curso, mas acompanhava os pais porque não tinha com quem ficar em casa. “Meu pai e minha mãe estavam no curso, então eu ia com eles. Eu aprendi a ler no colo do meu pai e quando ele não podia ir eu acompanhava minha mãe e depois ensinava meu pai”, lembra. A experiência foi determinante na vida de Eneide. “A partir dali eu tive certeza de que seria professora e hoje dou aula para alunos da educação infantil”, diz.
Leia também
“O Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas o racismo é velado”
Filme argentino incentiva debate sobre novas formas de educação
Monteiro Lobato: racismo, literatura e liberdade de opinião
Aos 83 anos de idade, Idália Marrocos da Silva diz que se lembra ‘como se fosse hoje’ das aulas. “Nós íamos para uma casa e tínhamos aula na sala. Naquela época essas aulas aconteciam em todo lugar: na igreja, na delegacia, nas casas das pessoas. Muita gente aprendeu a ler com essas aulas”, lembra. De sorriso fácil e boa memória. Dona Idália lembra que muita gente tinha medo de ir às aulas porque na época diziam que Paulo Freire era comunista e que os alunos do curso seriam perseguidos. “Muita gente tinha medo. Minha mãe não queria que eu fosse, mas essas aulas mobilizaram a cidade inteira. Foi quase uma revolução e eu queria fazer parte”, conta, na cadeira de balanço, em uma casa simples onde mora sozinha.
Entenda o método Paulo Freire
Paulo Freire desenvolveu um método de alfabetização baseado nas experiências de vida das pessoas. Em vez de buscar a alfabetização por meio de cartilhas e ensinar, por exemplo, “o boi baba” e “vovó viu a uva”, ele trabalhava as chamadas “palavras geradoras” a partir da realidade do cidadão. Por exemplo, um trabalhador de fábrica podia aprender “tijolo”, “cimento”, um agricultor aprenderia “cana”, “enxada”, “terra”, “colheita” etc. A partir da decodificação fonética dessas palavras, ia se construindo novas palavras e ampliando o repertório.
O método Paulo Freire estimula a alfabetização dos adultos mediante a discussão de suas experiências de vida entre si, através de palavras presentes na realidade dos alunos, que são decodificadas para a aquisição da palavra escrita e da compreensão do mundo.
Paulo Freire
Paulo Freire ganhou 41 títulos de doutor honoris causa de universidades como Harvard, Cambridge e Oxford.
“A concepção freiriana procura explicitar que não há conhecimento pronto e acabado. Ele está sempre em construção”, explica Sonia Couto Souza Feitosa, coordenadora do Centro de Referência Paulo Freire (CRPF), entidade mantida pelo Instituto Paulo Freire. “Aprendemos ao longo da vida e a partir das experiências anteriores, o que faz cair por terra a tese de que alguém está totalmente pronto para ensinar e alguém está “totalmente” pronto para receber esse conhecimento, como uma transferência bancária. Esse caráter político, libertador, conscientizador é o diferencial da metodologia de Paulo Freire dos demais métodos de alfabetização.”
O método Paulo Freire foi desenvolvido no início dos anos 1960 no Nordeste, onde havia um grande número de trabalhadores rurais analfabetos e sem acesso à escola, formando um grande contingente de excluídos da participação social. Com o golpe militar de 1964, Paulo Freire foi preso e exilado, e seu trabalho interrompido.
“Já naquela época Paulo Freire defendia um conceito de alfabetização para além da decodificação dos códigos linguísticos, ou seja, não basta apenas saber ler e escrever, mas fazer uso social e político desse conhecimento na vida cotidiana”, explica Sonia, que é licenciada em Letras e Pedagogia, com mestrado e doutorado pela Faculdade de Educação da USP.
Desde seus primeiros escritos, Paulo Freire considerou a escola muito mais do que as quatro paredes da sala de aula. Apesar de aplicado entre jovens e adultos, o método também pode ajudar na alfabetização e letramento de crianças.
O método Paulo Freire é dividido em três etapas. Na etapa de Investigação, aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive, as palavras e temas centrais de sua biografia. Na segunda etapa, a de tematização, eles codificam e decodificam esses temas, buscando o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido. E no final, a etapa de problematização, aluno e professor buscam superar uma primeira visão mágica por uma visão crítica do mundo, partindo para a transformação do contexto vivido.
Nascido no Recife, Freire ganhou 41 títulos de doutor honoris causa de universidades como Harvard, Cambridge e Oxford. Ele morreu em maio de 1997, e no ano passado foi declarado patrono da educação brasileira. “O legado que ele nos deixa, entre tantas contribuições, é de esperança”, destaca a coordenadora. “Um legado de entender a educação como espaço de transformação social, que nos ajuda não só a ler a história, mas sermos também escritores da história.”
Referências:
ZAULI, Fernanda. Método Paulo Freire de alfabetização: as lembranças emocionadas da 1ª turma. [Artigo informativo]. In: Portal G1 RN. Natal, Rio Grande do Norte: Pragmatismo Político, 2013.
Por Fernanda ZauliG1 RN
Assinar:
Postagens (Atom)












