quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poesia: Soneto Gerúndico

Soneto Gerúndico

Em casa,
Pensando,
Observando,
Refletindo.

Desejando,
Comentando.
Verificando,
Analisando.

Descobrindo,
Testando,
Comprovando.

Amenizando,
Olhando,
E por fim, sonhando.

Escrito por: Alessandro De Oliveira Arantes

terça-feira, 27 de março de 2012

ANÁLISE DO CONTO ”O MOÇO DO SAXOFONE”

O conto “O moço do saxofone”, da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, foi escrito por volta da década de 60. No mesmo ano da escritura do conto, logo ele foi publicado no Rio de Janeiro, fazendo parte da obra Antes do Baile Verde , lançada em 1970.
Lygia escreveu o seu conto numa noite do ano de 1966, quando estava num quarto de hotel em Águas de São Pedro (SP), onde se hospedava com o segundo marido, Paulo Emílio. A escritora nomeou o conto como “O moço do saxofone”, que conta a história simples de um caminhoneiro que se hospeda numa pensão.
Mas o conto não demoraria tanto a ficar conhecido do público. No mesmo ano em que foi escrito, no dia 18 de junho foi publicado com destaque no Suplemento Literário que circulou de 1956 a 1974, e se tornou referência entre os cadernos do gênero no País ; Mais tarde o texto veio a ser publicado na década de 70.
Nascida em 19 de abril de 1923, Lygia Fagundes Telles é imortal da Academia Brasileira de Letras desde 1985. Embora tenha começado a escrever e a publicar ficção muito cedo, quando ainda cursava Direito na USP, ela prefere considerar Ciranda de Pedra , de 1954, seu primeiro romance, o ponto de partida de sua obra adulta.

3.1 Aspectos dialógicos e análise do conto
O conto lygiano, de modo geral, entre as décadas de 60 e 70 estava começando a se tornar conhecido do público. Muitos deles foram publicados posteriormente na década de 80. Um desses contos é “O moço do saxofone”, escrito no ano de 1966, numa cidade do interior paulista, como já afirmamos. Esse conto é marcado pela linguagem simples e estilo introspectivo; também, a manifestação de vozes se faz presente, mas sem comprometer o foco no narrador. A voz que prevalece na narrativa é a do chofer, dando a impressão, para o leitor, de um diálogo travado entre diferentes pensamentos do narrador.
Um dos aspectos dialógicos presentes no texto, é sem dúvida, a polifonia ou plurivoricidade, desenvolvida e denominada por Bakhtin (1929) de fenômeno de vozes constituintes de um texto, e que também se trata da interação verbal entre o locutor e o alocutário, e ainda um jogo de vozes que ocorre no interior do discurso presente no texto, seja ele literário ou não (ZONIN, 2006).

3.1.1 Enredo do conto

O enredo do conto, como já dissemos, é simples. A história se passa numa pensão, em que o protagonista de “O moço do saxofone” é um caminhoneiro que "ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando" (TELLES, 1966) e que, em determinado momento da vida, vai parar numa pensão do tipo frege-moscas - lugar inspirado, segundo Lygia, numa pensão em que ela mesma viveu durante a juventude.
No local, chamam à atenção do motorista a comida ruim, uns anões que se hospedam por lá e uma insistente música de saxofone, triste como o diabo. O homem logo fica sabendo que o saxofonista é um pobre coitado que passa o dia enfurnado num quarto, ensaiando, enquanto a mulher o engana até com o periquito.

3.1.2 Análise e presença de vozes no conto

O conto “O moço do saxofone”, escrito em 1966 e considerado um marco da literatura introspectiva, conta com a participação direta de seis personagens, sendo que o protagonista é um chofer de caminhão. Também nota-se no texto que o narrador é onipresente, o que nos passa a impressão de que o pensamento dele se manifesta com diversas nuanças. Esse pensamento é o do locutor, numa fala bastante introspectiva. Este(s) pensamento(s) do narrador nos conta(m) a história. Vejamos um excerto do conto:

Presença do Narrador:
“Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando ”.
“Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca”

Presença do Locutor #1:
“Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá”.

Nesse primeiro excerto notamos uma voz que conta a história; ela preenche a maior parte do texto, por isso a classificaremos como narrador principal, identificando o personagem protagonista. A seguir, a segunda voz identificada no início do conto como o Locutor #1 , que complementa a primeira voz constituinte, nos passa a impressão de uma outra voz do pensamento do locutor, em que vemos um diálogo entre vozes no pensamento do locutor. O efeito de polifonia torna-se evidente nos primeiros parágrafos do texto.

Diálogo do pensamento do Locutor #1:
“Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando”.

“Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone”.

O locutor começa a mostrar as diferentes faces de seu pensamento, também se notam mudanças de temperamento durante as colocações de cada pensamento seu. No primeiro excerto, notamos que o locutor começa a narrar um pouco da rotina da pensão onde residia temporariamente, durante sua jornada como chofer. Ele inicia apresentando os tipos de pessoas que, como ele, estavam de passagem.
Após o seu primeiro discurso acerca do comportamento de que ele não gostava nos clientes da pensão, como por exemplo palitar os dentes. Isto o incomodava. Narra o fato de, após o primeiro encontro dele com uma dona, ele logo a mandara andar, depois de juntos comerem um sanduíche. Tudo por causa da palitada nos dentes. Mas há um detalhe: a última vez parece ter sido pior do que as anteriores, por que junto com as palitadas, ele se assustara com a boca arreganhada dela, e via o que o palito tirava dos dentesda mulher. Com nojo, ele a mandara embora (TELLES, 1979).
No segundo excerto, ele inicia seu diálogo falando de sua situação no estabelecimento, na pensão, e em “seus pensamentos” dizia que ali era uma espécie de “mosqueiro” . Ele não gostava de se alimentar todos os dias naquele local, também reclamava do comportamento dos anões que ali residiam, que ficavam a todo o momento subindo e descendo as escadas, passando por entre as pernas dos clientes e por debaixo das mesas, tocando e agarrando as pernas das pessoas que ali residiam. A cada vez que os anões desciam logo se ouvia um som vindo do andar superior. Logo ele notou que era de um saxofone.

Diálogo entre pensamentos do Locutor #1 (o que explica um determinado acontecimento) e do Locutor #2 (pensamento direto do chofer):
Locutor#2
“Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado”.

Locutor#1
“Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava”.

Nesta nossa análise preliminar, no excerto acima vemos que na primeira estrofe, surge uma nova voz, que chamaremos de Locutor #2, que é uma segunda voz do Locutor principal, como se fosse um pensamento indireto, que explica o seu gosto para com o que ele estava vivenciando, o tocar de um saxofone; e também marca e explica o porquê dele não gostar da sonoridade em que estava sendo tocada a música que vinha do quarto. Na segunda estrofe, vemos que a voz principal retorna e desperta o Locutor que logo reclama e explica que o toque era realmente desagradável aos seus ouvidos; ele logo diz que não é sobre o tocar do saxofone, mas sim do tema, que para ele era um tanto triste e melancólico, como se estivesse encobrindo algo que ele não aceitava.
No primeiro momento, antes do diálogo, o chofer começa a observar ao seu redor, e ele notou que sempre que alguém subia para o andar superior, logo começava a surgir uma triste e melancólica música de um saxofone. E assim o conto prossegue, recheado de vozes. Evidentemente, essas tantas vozes dizem ao leitor sempre algo. Vejamos outros exemplos.
.
Diálogo entre as vozes constituintes principais

Voz do Chofer Locutor#2
— Sim senhor. Eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.

Voz do James
— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!

Locutor#1
Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.

Voz do chofer
— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?

Locutor#1
James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

Voz do James
— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente.

Locutor#1
Resmungou ele, tirando um palito.

Voz do James
— Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta.
— Um outro já tinha acabado com a vida dela!


Até o momento a chateação do protagonista e de seu companheiro de mesa só aumentava, com o que estava acontecendo naquele lugar. Principalmente com o que ocorria com o moço do saxofone, que permanecia a tocar tranquilamente aquela mesma música triste. A música melancólica, a sua execução insistente e solitária, a despeito de todas as imbricações com o pessoal e contexto daquela pensão, é certamente a principal temática do conto lygiano. E aí está, sutilmente deflagrada, uma multiplicação de vozes. As vozes de um texto, literário ou não, se fazem perceber por diversos aspectos, como subtendidos, interrupções, intertextualidade, discursos indireto ou indireto-livre, pressupostos e vários outros, nem todos esses recursos alcançados na brevidade desta monografia. Vejamos mais um pouco.

Diálogo entre o chofer e o moço do saxofone
Locutor#2
Fui recuando de costas. E de repente não agüentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.

Voz do chofer
— E você aceita tudo isso assim quieto?
— Não reage?
— Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua?
— Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio!
— Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?

Voz do moço do saxofone
— Eu toco saxofone.

Aqui a expressão definidora, no nosso entender, de todo o conto: “eu toco saxofone”. Aqui, a voz que justifica e explica a atitude, talvez passiva para alguns, do moço que toca o seu saxofone incessantemente. Vemos, então, que esta voz se superpõe às outras daquele ambiente. Parece não interessar ao moço a possível traição da sua companheira e nem a reação adversa dos outros. Interessa-lhe somente tocar. Ou, numa outra direção, tocar apesar de qualquer coisa. A música triste e insistente do saxofone, numa voz aparentemente intraduzível, talvez diga tudo, seja o suficiente para aquele ambiente.

3.2 Elementos dialógicos do conto e as sua relação com a realidade

No conto, encontramos muitos elementos constituintes que estão interligados entre si. O que os diferenciam são as relações dialógicas que eles estabelecem. Na maior parte do conto, notamos que o texto é repleto de vozes, que são os múltiplos discursos de uma única voz – a princípio da autora ou do narrador, se assim considerarmos. Evidentemente, sabemos que essa voz a que chamanos de única, na verdade está transpassada por várias outras, como já demonstrado. Ela reflete várias outras: da cultura, da história, da tradição literária, da tradição teórica, da geração de escritores do convívio da autora, entre tantas outras. Esses efeitos causados por essas interferências no texto é o que nos permite dizer que o texto é polifônico, pois nele soam muitas vozes ocultas, num pensamento ou discurso do personagem.
O próprio enredo permite que a autora use de temas do cotidiano para inter-relacionar esses diferentes pensamentos que habitam o texto. À primeira vista, quando se lê superficialmente o conto, tem-se a impressão de um texto onde existe somente um Locutor, o personagem central da história, que conduz a ação. Esse efeito é causado pela ocultação de algumas vozes, e também por alguma voz que se sobressai às demais, mas não escondemos, de fato, outros dizeres.

3.2.1 Marcas de polifonia e relação com a realidade

Como podemos observar no conto, no início do mesmo temos a impressão de um narrador onisciente, ou seja, que sabe o que acontecera na história antes mesmo de qualquer outro personagem. Esse efeito de sentido, como veremos, é criado já nas primeiras frases da narrativa. Também notamos que esse mesmo exemplo nos diz que existe uma relação dialógica atemporal, pois nos sugere que o narrador já vivenciara a história, ou parte dela, em algum tempo anterior ao narrado.

“Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame”
“Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá”. (TELLES, 1979) (grifos meus),

Colocamos neste exemplo essas marcações em negrito para mostrar como essas relações dialógicas se fazem presentes, os verbos no pretérito do indicativo, marcados em negrito, e outras expressões nos mostram uma relação atemporal entre as vozes do texto. Os verbos em negrito nos passam a impressão de que o caminhoneiro foi literalmente jogado na pensão, sem que ele soubesse, e só descobrira aquilou depois de estar lá, após o seu pensamento se manifestar na voz do narrador.
Essas relações entre os diálogos no conto é que nos permitem entender como a autora “brinca” com a realidade de muitos caminhoneiros, simulando as suas muitas caminhadas, idas e vindas, as suas estadas fora de casa em ambientes que, na maioria das vezes, não lhes parecem pessoais. Numa outra relação dialógica, prevalece o sentimento de estar com pessoas estranhas, que querem se aproveitar deles ou, em outro sentido, pessoas que lhes serviriam em algum momento.

3.2.2 As vozes constituintes do conto e suas características particulares

Em “O moço do saxofone” verificamos a presença de diferentes vozes, e cada uma com sua características únicas, o que mostra um texto heterogêneo, mesmo com poucos personagens diretos e outros coadjuvantes na história. A autora conseguiu também interligar os pensamentos de um mesmo personagem, no caso o chofer de caminhão, o narrador, como se fosse ou fossem diversos personagens.
A primeira voz a ser encontrada é a do narrador, que se faz presente diretamente no início do conto. Mas como ele é onisciente e onipresente, está em toda parte, sem que se defina exatamente a sua presença real. Diversas outras vozes estão dentro dessa mesma voz, por isso a impressão de uma voz que se sobrepõe às outras.
Essa mesma voz subdivide-se em outras vozes, que na verdade são pensamentos distintos dele, ou seja, são os interlocutores do personagem, que falam em alguns momentos por ele, explicando, desejando algo, relacionando com elementos distantes e até mesmo se intrometendo na história indiretamente, fazendo com que o leitor ache que o personagem central está dialogando com outro personagem na mesma fala dele.
A primeira voz do pensamento do personagem foi classificada como Locutor #1, pois nela verificamos que essa mesma tem como aspecto explicar alguma situação, fato ou acontecimento que esteja ocorrendo no momento que o personagem está inserido. É a voz mais direta e ativa de todas, pois ela está a todo o momento aparecendo no texto; essa voz causa um efeito de sentido que faz com que ela se comporte como se fosse um personagem real, exteriorizando traços de seu pensamento.
A segunda voz do pensamento dele foi classificada como Locutor #2, por ela refletir o seu temperamento durante uma explicação, demonstração de seus motivos. Essa voz conhece parte da história, e ela é mais passiva e indireta que a primeira, pois ela demonstra o que o personagem está sentindo em seu interior, sem exteriorizar o que pensa.
A próxima voz encontrada e classificada é a do Locutor #3, que aparece de repente na história, como uma voz referencial. Ou seja, ela surge como uma voz de pensamento externo e atemporal, pois narra um acontecimento anterior ao que ele está inserido no momento; também essa mesma faz relações com fatos que explicam atitudes, temores e comportamentos do personagem. É a mais passiva e distante de todas.
Outra voz constituinte do texto é a do personagem #2, o James, que a todo tempo aparece dialogando com o personagem central da história. Essa voz é mais passiva, ficando apenas como personagem coadjuvante nas cenas, acompanhando o chofer na mesa, e em algumas estrofes do texto ela se torna ativa, passando a tomar voz em alguns momentos do texto, participando das loucuras do personagem central.
A próxima voz a se manifestar é a do personagem #3, que é a madame, que é dona da pensão onde ocorre a história, é uma voz passiva que aparece somente em alguns momentos, após interferências do personagem principal, que a faz se tornar ativa por alguns momentos, principalmente quando ocorre o diálogo entre eles, e também quando ocorre algum fato na pensão, como explicações sobre algo.
Outra voz importantíssima é a do personagem #5, que é a do moço do saxofone. Essa voz é dividida em duas, a voz direta do moço que aparece apenas quando o personagem principal pergunta algo, é mais passiva, que apenas responde aos questionamentos. A outra voz a aparecer é a do seu instrumento, o saxofone. Essa voz não é considerada como constituinte, mas sim como voz coadjuvante, por ela fazer parte de quase toda a história, mas não ser literalmente uma voz verbal, mas uma voz sonora, que indiretamente reflete os sentimentos do moço.
Essas vozes são interligadas entre si, mas cada uma com sua autonomia e particularidades. Elas fazem parte de uma única voz onipresente, a do narrador, que conta a história por meio das vozes dos personagens, pensamentos diretos e indiretos, que provocam efeitos de sentido, e fazem com que o leitor tenha a impressão de que o personagem está servindo de arcabouço para o narrador passar uma lição maior por trás da mesma, a da relação com a realidade de muitos caminhoneiros - de uma forma suave, cômica e agradável.

Referências:

5 REFERÊNCIAS

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_____. Tema e significão na língua. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira, 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1981. (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p. 91-103.

_____. O Discurso de Outrem. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira, 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1981. (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p.108 - 116.

_____. Problemas da poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra, 2ª. Ed. ver. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

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ZANI, Ricardo. Intertextualidade: considerações em torno do dialogismo. Em Questão, Porto Alegre, v. 9, n. 1, p. 121-132, jan./jun. 2003.

ZONIN, Carina Dartora. Polifonia e discurso literário: outras vozes que habitam a voz do narrador na obra Ensaio sobre a Lucidez de José Saramago. Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas. Dossiê: Saramago, PPG-LET-UFRGS, Porto Alegre. Vol. 02 N. 02, jul/dez 2006. 


Fonte bibliográfica:

ARANTES, A. O. Aspectos dialógicos em O moço do saxofone. cap. 3. Monografia. UERN, 2011. p. 36-58

sábado, 17 de março de 2012

Momento Poético: Lembranças

Lembranças

Que falta me faz os amigos,
nessas noites frias,
eu andando,
sozinho,
e ao beirar da meia-noite,
tendo que se contentar,
em contemplar a lua.

A lua que nos acompanha,
que de dia e de noite,
nunca descansa,
no céu pálida,
esburacada e iluminada,
nos dando o privilégio,
de uma noite por si iluminada.

Nessas noites frias,
recordo-me dos tempos passados,
das amizades que passaras,
daquelas que esfriam com o tempo,
daquelas que pegam fogo,
daquelas que ainda hão de vir,
daquelas que ainda não apareceram,
enfim de todas.

Vejo e contemplo o luar,
sentindo e imaginando,
o porque de as pessoas,
que gostam ou não,
da presença de minha pessoa,
se sentirem indiferentes,
deixando de dar atenção,
em prol da sua satisfação,
em agradar aqueles que o identifica.

Nessas noites frias,
vejo com calma e paciência,
a escuridão sublime,
decorada pelas luminescências,
das distantes estrelas,
que decoram o tapete estelar,
que nos faz pensar,
como a nossa vida é rara,
fugaz e passageira.

Com o olhar fixo,
vejo nos céus algo,
que nos faz lembrar,
com a memória que hoje falha,
das lembranças que em mim se guarda,
dos tempos que pensava em ser astronauta,
lembrando das travessuras,
que histórias não faltavam,
e das amizades que me acompanhava.

Nesses dias de glória,
com a fértil e serena memória,
imaginando e brincando,
com o ar das horas,
de castelo à rei,
de carro à bola,
de desenhar à escola,
de montar e desmontar à história,
quão bons os tempos de escola.

Ah! que bons tempos que não voltam mais,
que bom seria reencontrar,
aqueles que fizeram parte,
da minha breve e singela metade,
que me fez ser quem sou hoje,
ainda carrego em minha mente,
as lembranças e imagens,
dos quadros com saudades,
das minhas queridas amizades,
dos tempos que foram,
dos tempos que hoje estão,
dos tempos que hão de chegar,
esperando algo de bom que tanto vi esperar.

Nessas noites amenas,
guardo na memória,
os ensinamentos dos tempos de escola,
que hoje repasso àqueles que no futuro verei,
vencer, mudar a história,
de nossa difícil e perigosa trajetória,
nessa vida cheia de glórias.

Com essa singela e breve escritura,
encerro as minhas simples palavras,
de pensamentos à histórias,
que por uns instantes,
me inspirou a escrever,
me dando a paz,
que em alguns momentos me falta,
por sentir falta,
daqueles que me acompanham,
com amizades e ideias que não faltam,
e que me faz fluir as boas energias,
que às vezes ficam sobrecarregadas,
precisando de alguém para compartilhar-las.

Finalizo fechando o meu pensamento,
que quase não acaba,
por meu cérebro processar muitas palavras,
ideias que quase me atrapalham,
que me faz ser o que sou hoje,
peço a benção de Deus,
para mais uma noite aguardada,
para dormir com calma,
e acordar com a paz e a tranquilidade,
abençoada pela luz maior,
pelo brilho de sua luz,
através do nosso e querido sol.


Alessandro De Oliveira Arantes
Escrita em: 17-03-2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Samba do Arnesto

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever"

Arnesto

BARBOSA, Adoniran. Samba do Arnesto. Samba do Arnesto/Conselho de mulher. 1952.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

A luz da natureza vindoura

Guamaré, Guamaré, onde ás árvores não ficam mais em pé, onde o homem pisa com fé, não olhando ao seu redor, o que ocorre próximo de seus pés.

Às pessoas desavisadas, que ficam atacando as matas, descuidando das águas, pensando que sua vida está calma, e tranquila como às águas.

Àqueles que vivem sonhando com a vida almejada, se esquecendo da montidão de água, que nos circundam junto com às matas, e nos dá a tão sonhada calma.

Calma essa temporária, quando não há ondas e chuvaradas, que atrapalham e ensaiam, uma nova esperança, de uma nova vida nas matas.

Em nossas ruas, becos e calçadas, nos deparamos com a difícil jornada, semanal e diária, de melhorarmos a cidade, sem afetar a mata e às águas, e trazendo uma nova e pensada, idéia de mudança aguardada.

O sol que todos os dias nos abençoa, e nos trás a vida e nos doa, a sua energia vital e duradoura, a força necessária para caminharmos em direção a uma outra e merecedora, idéia de um mundo melhor e em paz e equilíbrio com a natureza vindoura.

Alessandro de Oliveira Arantes

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Leituras Críticas - Artigo: Discurso Literário de Dominique Maingueneau

DISCURSO LITERÁRIO DE DOMINIQUE MAINGUENEAU

Prof. Dr. Luciano Barbosa Justino

(MLI/UEPB)

MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. São Paulo: Contexto, 2006, 325 p.

Publicação mais recente do autor, Discurso literário tem muito a dizer a respeito do diálogo intercultural, tema norteador deste número de Sociopoética, pois propõe uma metodologia de abordagem da literatura que visa expandir suas fronteiras analíticas na medida em que supõe uma visão interdiscursiva e interdisciplinar do texto literário com o intuito de apreender “os enunciados por meio da atividade social que os sustenta, remetendo as palavras a lugares, distribuindo o discurso numa multiplicidade de gêneros cujas condições de

possibilidade, rituais e efeitos têm de ser analisados” (p. 37). A própria noção de paratopia implica um interrupto diálogo que supõe a cooperação entre diferentes metodologias e o cruzamento de diversos campos do saber. A crítica tanto às análises textualistas quanto sociologistas da literatura é para Maingueneau um convite à filosofia, à midiologia, à lingüística, à ciência política, aos estudos culturais, sem abdicar das conquistas da sociocrítica e da poética. Intenta compreender a literatura não apenas em seus aspectos extraliterários, mas articulados a uma abordagem que toma o texto literário como um discurso: Em vez de relacionar as obras com instâncias bastante afastadas da literatura (classes sociais, mentalidades, eventos históricos, psicologia individual etc.), refletir em termos de discurso nos obriga a considerar o ambiente imediato do texto (seus ritos de escrita, seus suportes materiais, sua cena de enunciação...) (p. 44).

Nota-se a amplitude da noção de discurso do autor a partir da noção de “ambiente imediato do texto” e a articulação de diversas instâncias que rompem com a visão romântica e modernista da literatura. Não obstante as inegáveis conquistas de uma “ciência da literatura” advinda da pesquisa formal, a modernidade literária parece esgotar seus potenciais críticos em virtude do fechamento a que submete a “obra-prima”, que acaba por exaltar a singularidade do criador e minimiza o papel dos destinatários e do caráter institucional da literatura (p. 89). As aberturas que permitem ao autor sua instigante e porosa, podemos dizer, metodologia múltipla e multiplicadora são colhidas no dialogismo de Mikhail Bakhtin, na Estética da Recepção, na midiologia de Régis Debray, nos estudos sobre história da escrita de Roger Chartier, na “arqueologia” de Michel Foucault, na teoria do “campo” e do habitus de Pierre Bourdieu.

Para evitar uma improdutiva dispersão, a análise do discurso sustém e faz convergirem as diversas contribuições. Maingueneau lança as bases de uma visão da literatura como interação entre diversas instâncias extradiscursivas, como o fez Pierre Bourdieu e Pascale Casanova, mas vai além na medida em que a análise do discurso lhe permite não esquecer da dimensão propriamente semiótica da literatura. A análise do discurso possibilita observar o quanto as instâncias extradiscursivas estão inscritas no enunciado literário, sobretudo sob a forma daquilo que o autor chama de “cenografia” e “ethos”, como se verá mais adiante.

Estas questões de método e de revisão crítica são objetos do primeiro capítulo “As condições de uma análise do discurso literário”. Mais cinco capítulos compõem o livro: 2) Discursos constituintes; 3) Paratopia; 4) O posicionamento; 5) Mídium e gêneros do discurso; 6) A cena de enunciação.

A noção de literatura como discurso constituinte, objeto do segundo capítulo, além de fundamentar a ruptura com as noções românticas e modernistas do texto literário para fins de abertura, propõe a literatura como discurso auto-legitimador, ligado a uma rede complexa de textos, de agentes e de modos de circulação. Discurso constituinte “designa fundamentalmente os discursos que se propõem como discursos de Origem, validados por uma cena de enunciação que autoriza a si mesma” (p. 60). Assim, todo discurso constituinte só existe e só exerce seu poder e sua efetiva circulação na sociedade se for constituído por uma “Instituição discursiva”. Assim o autor define a instituição literária:

A noção de instituição literária designa a vida literária (os artistas, os editores, os prêmios etc.). Podemos ampliar seu domínio de validade, como o fazem muitos sociólogos, levando em conta o conjunto de quadros sociais da atividade dita literária, tanto as representações coletivas que se tem dos escritores, como a legislação (por exemplo, sobre os direitos autorais), as instâncias de legitimação e de regulação da produção, as práticas (concursos e prêmios literários), os usos (envio de um original a um editor...), os habitus, as carreiras previsíveis e assim por diante. Essa ampliação do campo de visão promoveu uma profunda renovação da concepção que se pode ter do discurso literário (p. 53).

A instituição literária, portanto, é bem mais do que os estudos de poética têm observado. Fica clara a necessidade de pesquisas que integrem diversos métodos e diversas disciplinas. Se os estudos literários “puros”, como chama o autor aos estudos ligados ao formalismo, à nova crítica e ao estruturalismo, já não conseguem dar conta da pluralidade de usos da literatura, o método proposto pelo autor só pode alcançar a obra na confluência e na contribuição, inclusive dos estudos de poética. Para as ciências do homem tornou-se urgente “compreender o compreender”, sugestiva formulação de Pierre Bourdieu, e para a literatura e os estudos literários implica situar o texto no mundo, “encarná-lo” (a expressão é de Maingueneau), observar os próprios critérios de observação, os posicionamentos, a rede de aparelhos mnemotécnicos que suportam e fazem transitar os textos, a relação entre a memória e os discursos de legitimação e práticas de esquecimento. As obras literárias, os arquivos e as livrarias só podem funcionar neste contexto, do qual não é possível sair: Ainda que a obra tenha a pretensão de ser universal, sua emergência é um fenômeno fundamentalmente local, e ela só se constitui por meio das normas e relações de força dos lugares em que surge. É nesses lugares que ocorrem verdadeiramente as relações entre o escritor e a sociedade, o escritor e sua obra, a obra e a sociedade (p. 94).

É no conceito de paratopia que Maingueneau situar as relações entre o escritor e a sociedade, o escritor e sua obra, a obra e a sociedade. São três as formas de paratopia: 1) espacial, que implica na relação do escritor com o campo literário; 2) temporal, a posição do escritor em relação aos seus contemporâneos; 3) linguística, o modo como a obra aciona e negocia com o arquivo.

Nem suporte nem quadro, a paratopia envolve o processo criador, que também a envolve: fazer uma obra é, num só movimento, produzi-la e construir por esse mesmo ato as condições que permitem produzir essa obra. Logo, não há “situação” paratópica exterior ao processo de criação: dada e elaborada, estruturante e estruturada, a paratopia é simultaneamente aquilo de que se precisa ficar livre por meio da criação e aquilo que a criação aprofunda; é a um só tempo aquilo que cria a possibilidade de acesso a um lugar e aquilo que proíbe todo pertencimento. Intensamente presente e intensamente ausente deste mundo, vítima e agente de sua própria paratopia, o escritor não tem outra saída que a fuga para a frente, movimento de elaboração da obra (p. 109).

Em O contexto da obra literária, o autor assim se refere à paratopia:

A pertinência ao campo literário não é, portanto, a ausência de qualquer lugar, mas antes uma negociação difícil entre o lugar e o não-lugar, uma localização parasitária que vive da própria impossibilidade de se estabilizar. Essa localidade paradoxal, vamos chamá-la paratopia (p. 28). A situação paratópica do escritor leva-o a identificar-se com todos aqueles que parecem escapar às linhas de divisão da sociedade: boêmios, mas também judeus, mulheres, palhaços, aventureiros, índios da América..., de acordo com as circunstâncias. Basta que na sociedade se crie uma

estrutura paratópica para que a criação literária seja atraída para sua órbita. M. Bakhtin mostrou desse modo o importante papel que a contracultura “carnavalesca”, que pela irrisão visava subverter a cultura oficial, desempenhou para a criação literária. Os extravasamentos pontuais da festa dos loucos, assim como a literatura que nela se apóia, não têm realmente um lugar designado na sociedade, tiram sua força de sua marginalidade (p. 36).

É a paratopia que une o escritor, a obra, o campo literário, os destinatários, pois é a condição de enunciação e seu produto.. É ela mesma que faz a ponte entre a obra e a existência, “a obra só pode surgir se, de uma ou de outra maneira, conseguir tomar forma numa existência que é ela mesma moldada para que essa obra nela advenha” (p 117). Embora o conceito de paratopia tenha um forte traço modernista, na medida em que significa um pertencimento sempre instável, movente, que reforça a idéia do escritor maldito advindo de Baudelaire, na argumentação de Maingueneau há uma mudança importante no aspecto paratópico da literatura em relação àquilo que escreveu nO contexto da obra literária. O caráter paradoxal do discurso paratópico, e em última análise de todo discurso constituinte, não é mais atribuído, como no livro anterior, à literatura em sua totalidade, mas só a certos escritores, a certas obras e a certos contextos particulares. Melhor dizendo, determinados momentos históricos são radicalmente paratópicos, como os finais do século XIX e inícios século XX, mas a literatura como um todo é um campo relativamente estável, sem grandes sustos ou sobressaltos. Maingueneau não propõe um retorno ao biografismo, mas não afasta por completo, como se viu, a obra das posições que o escritor tem que assumir no campo literário e na sociedade, e este é um dos aspectos mais instigantes do livro de Maingueneau, pois permite ultrapassar as visões ainda dominantes da literatura como “obra-prima”, além e acima da contingência histórica que lhe deu vida e que é em última análise seu substrato.

Outro ponto importante de Discurso literário é a mídia, que o autor prefere chamar de “mídium”. A mídia, numa acepção ampliada, implicando meios de comunicação, mas sobretudo em sentido estrito remetendo ao suporte e ao circuito do signo, foi sempre negligenciada pela literatura. Prova disso é que o debate sobre o oral e o escrito, crucial para qualquer discussão em profundidade da literatura, raramente foi tratada levando a sério as propriedades mnemotécnicas sem as quais não há linguagem alguma. O mídium não é supérfluo para a literatura, como provam a midiologia de Régis Debray e Daniel Bougnoux, as pesquisas sobre a poesia grega anterior ao alfabeto fonético de Eric Havelock, os estudos de Walter Ong sobre as diferenças antropológicas entre oralidade e escrita, a performatividade da voz estudadas por Paul Zumthor, as recentes descobertas da história da escrita. Sobre isso afirma Maingueneau:

O interesse pelos suportes materiais da enunciação é recente. Sem dúvida não faltaram eruditos para estudar as técnicas de imprensa, mas os literatos “puros”, aqueles que se encarregam da interpretação das obras, consideravam mais as narrativas do que as técnicas tipográficas, mais os romances por carta do que os sinetes de cera ou os modos de envio pelo correio. Não obstante, para tornar pensável o surgimento de uma obra, sua relação com o mundo no qual surge, não podemos separá-la de seus modos de transmissão e de suas redes de comunicação (p. 212).

Por fim, o mídium pode sugerir uma quarta dimensão da paratopia, embora o autor não faça tal sugestão, senão, sendo possível pensar a mídia na dupla acepção de meio ambiente e meio de transporte, o espaço para onde confluem todas as demais paratopias, aquilo que contém o que o Maingueneau chama de ethos e que está na culminância das demais questões abordadas no livro:

A noção de ethos permite ainda refletir sobre o processo mais geral de adesão dos sujeitos ao ponto de vista defendido por um discurso, processo particularmente evidente no caso de discursos como a publicidade, a filosofia, a literatura, a política etc., que – diferentemente dos que são parte de gêneros “funcionais” como os formulários administrativos ou os manuais de instruções – devem conquistar um público que tem o direito de ignorá-los ou recusá-los. Todo texto escrito, ainda que a negue, possui uma vocalidade específica que permite remete-lo a uma caracterização do corpo do enunciador (e não, está claro, do corpo do locutor extradiscursivo), a um fiador que, por meio de seu tom, atesta o que é dito; o termo tom” tem a vantagem de valer tanto para o escrito como para o oral. Isso significa que optamos por uma concepção primordialmente “encarnada” do ethos, que, dessa perspectiva, abrange não apenas a dimensão verbal, mas igualmente o conjunto de determinações físicas e psíquicas vinculadas “ao fiador” pelas representações coletivas (p. 271).

e

O ethos constitui, assim, um articulador de grande polivalência. Recusa toda separação entre o texto e o corpo, mas também entre o mundo representado e a enunciação que o traz: a qualidade do ethos remete a um fiador que, através de ethos, proporciona a si mesmo uma identidade em correlação direta com o mundo que lhe cabe fazer surgir. Encontramos aqui o paradoxo de toda cenografia: o fiador que sustenta a enunciação deve a legitimar por meio de seu próprio enunciado. Supõe-se que a enunciação da obra representa um mundo de que essa enunciação é na verdade parte: as propriedades “carnais” da enunciação são tomadas da mesma matéria que o mundo por ela representado (p. 278).

Talvez seja esta “encarnação”, que é também uma ética em profundidade da escrita, que toda grande abordagem da literatura deve buscar. Para tanto, o livro de Maingueneau serve de, no mínimo, um fecundo impulsionador. No que diz respeito ao diálogo intercultural, Discurso literário vem cobrir uma lacuna de metodologias eficazes para dar conta da abertura que a abordagem contemporânea do texto literário exige. Permite evitar o risco de sobrevoos generalizantes e afastados das propriedades semióticas da literatura, comum entre os culturalistas e os sociologistas, ainda dominantes no estabelecimento das relações entre os estudos literários e outras disciplinas.

Discurso literário supõe uma visão interdisciplinar, em rede para se falar nos termos de hoje, mas sem abdicar de uma profunda disciplinaridade, de uma aguda consciência da especificidade da literatura. Assim, a abertura para o Outro, um imperativo ético da teoria literária em tempos pós-modernos, tem que estar inserida na autocrítica do Um. À “instituição literária” não basta ir buscar novos convivas lá fora, tem que também compreender os pressupostos que a faz por dentro. O campo literário não resolve seu impasse contemporâneo esquecendo de si mesmo e de seus vícios, mas os verticalizando num diálogo que deve ser sobretudo inter, capaz de ver a si em interação complexa com os outros: discursos, suportes, circuitos, agentes. O livro de Maingueneau diz muito sobre isso.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nelson Rodrigues


Nelson Rodrigues


"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."

Nelson Rodrigues nasceu da cidade do Recife - PE, em 23 de agosto de 1912, quinto filho dos catorze que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues puseram no mundo. Os nascidos no Recife, além do biografado, foram Milton, Roberto, Mário Filho, Stella e Joffre. No Rio de Janeiro nasceram os outros oito: Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulo, Helena, Dorinha, Elsinha e Dulcinha.

Seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, por problemas políticos resolve se mudar para o Rio de Janeiro, onde vem trabalhar como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Em julho de 1916, d. Maria Esther e filhos chegam ao Rio de Janeiro num vapor do Lloyd.

Haviam vendido tudo no Recife para cobrir as despesas de viagem, e tiveram que ficar hospedados na casa de Olegário Mariano por algum tempo. Em agosto de 1916 alugaram uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, na rua Alegre, 135, onde a família Rodrigues teve seu primeiro teto na cidade.

Nelson ia sendo criado dentro do clima da época: as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e eram feitos em casa. Os velórios também eram feitos em casa, usava-se escarradeira e o banho era de bacia. Nelson registrava em sua memória esse cenário. Daí sairiam os personagens de sua obra literária.

Com o autor vivendo seu quarto ano de vida, um fato pitoresco: uma vizinha, d. Caridade, invade a sua casa e diz para sua mãe: "Todos os seus filhos podem freqüentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson." Como ninguém entendesse a razão de tal proibição, ela afirmou: vira Nelson aos beijos com sua filha Odélia, de três anos, com ele sobre ela, numa atitude assim, assim. Tarado!

Aos sete anos, em 1919, pediu a sua mãe para ir à escola. Foi matriculado na escola pública Prudente de Morais, a dois quarteirões de sua casa. Aprendeu a ler rapidamente e era por isso elogiado por sua professora, d. Amália Cristófaro. Infelizmente não era muito asseado e vivia sendo repreendido por ela. O que, no entanto, causava espécie, era sua cabeça — desproporcional em relação ao tronco — e suas pernas cabeludas.

Em 1920 ocorreu um fato que, depois, se transformou num dos favoritos do escritor: o do concurso de redação na classe. D. Amália passou a lição: cada aluno deveria escrever sobre um tema livre. A melhor redação seria lida em voz alta na classe. Finda a aula, as composições foram entregues. A professora quase foi ao chão com o trabalho de Nelson: era uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se e pede perdão. A redação, apesar do espanto que causou em todo o corpo docente, não tinha como não ser premiada, muito embora não pudesse ser lida na classe. A professora inventou um empate e leu a outra composição.

Nesse período, Nelson presenciou grandes discussões entre seus pais, causadas por ciúmes que seu genitor tinha de sua mãe. Influenciado por seus irmão mais velhos, passou a ter a leitura como passatempo, saindo rapidamente do Tico Tico para romances mais "pesados" como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia do Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte Cristo e as Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, os fascículos de Elzira, a Morta-Virgem, de Hugo de América, e outros mais. Mudavam os autores, mas no fundo era uma coisa só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte.

Foi em 1919 que o autor descobriu o Fluminense. Foi o primeiro ano do tricampeonato do tricolor, muito embora nem ele nem seu irmão Mário Filho, posteriormente famoso como jornalista esportivo e que teve seu nome escolhido para ser o nome oficial do estádio do Maracanã, tivessem dinheiro para sair da rua Alegria e se deslocarem até Laranjeiras para ver o seu time jogar.

Consolidado seu prestígio junto a Edmundo Bittencourt, do Correio da Manhã, Mário Rodrigues junta sua família e muda-se para a Tijuca, fato que, na época, era mostra de nítida melhora de padrão de vida. Estávamos em 1922.

O autor seguia sua vida, sentindo a ausência do pai, sempre envolvido com a política e o jornalismo. No ano de 1926 foi expulso do Colégio Batista, na Tijuca, na segunda série do ginásio, por rebeldia. Nelson vivia contestando seus professores, em especial dos de Português e História. Foi, então, matriculado no Curso Normal de Preparatórios, na rua do Ouvidor, pois seu pai esperava que ele futuramente prestasse exames no famoso Colégio Pedro II.

Para compensar a falta de contato com os filhos, Mário Rodrigues permitia sua ida ao Correio da Manhã para visitá-lo. Dizem que jamais sonhou em ter seus filhos jornalistas: as meninas seriam médicas, os meninos advogados. Afinal, a vida que levava não era nada fácil: nomeado diretor do jornal, meteu-se numa batalha entre Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o que lhe custou um ano de cadeia, em 1924. O motivo: denunciou que usineiros pernambucanos (eles já existiam!) haviam dado um colar no valor de 120 contos de réis à esposa do então presidente Epitácio Pessoa, d. Mary. Negando-se a fugir do país, ficou preso no Quartel dos Barbonos, na rua Evaristo da Veiga, no Rio de Janeiro. A partir da data de sua prisão o jornal que dirigia — Correio da Manhã — foi silenciado pelo governo por oito meses.

Antes de seu pai ser preso, Nelson e família haviam mudado para uma casa na rua Inhangá e eram vizinhos do hotel Copacabana Palace. Ali, aos doze anos, o autor aprendeu a nadar. Mas, aos poucos, à medida em que entrava na adolescência, foi sendo possuído por uma indolência melancólica, ficando depressivo, suspirando pelos cantos e dizendo: "Eu sou um triste!".

Durante o tempo em que esteve preso, Edmundo Bittencourt cortou o salário de Mário Rodrigues, dando à mãe de Nelson apenas o suficiente para pagar o aluguel da casa. Mário foi ajudado financeiramente, nessa época, por Geraldo Rocha (proprietário do jornal A Noite, concorrente do Correio da Manhã), sem o que sua esposa e a penca de filhos por certo teriam passado fome. Ao ser libertado, volta ao jornal e é surpreendido com a notícia de que não haveria mais um diretor permanente, cargo esse que detinha. Seria feito um rodízio de diretores. Mas pior do que isso foi o fato de tomar conhecimento de que Edmundo estava tentando se aproximar de seu desafeto Epitácio Pessoa. Mário, em carta desaforada, pediu demissão a Edmundo, dizendo que em breve voltaria para esmagá-lo. Daí surgiu seu próprio jornal, A Manhã.

Nelson inicia sua carreira jornalística em 29 de dezembro de 1925, como repórter de polícia, ganhando trinta mil réis por mês. Tinha treze anos e meio, era alto, magro e seus cabelos eram indomáveis. Embora fosse filho do patrão, teve que comprar calças compridas para impor respeito aos colegas de redação.

Ali reuniam-se colaboradores ilustres: Antônio Torres, Medeiros e Albuquerque, Agripino Grieco, Ronald de Carvalho e Maurício de Lacerda. Além desses, havia a turma da casa: Danton Jobim, Orestes Barbosa, Renato Viana, Joracy Camargo, Odilon Azevedo e Henrique Pongetti. Outra figura de A Manhã era Apparício Torelly — Apporely — que mais tarde se autodenominaria "Barão de Itararé" e fundaria seu próprio jornal, A Manha.

O autor impressiona os colegas com sua capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. Especializou-se em descrever pactos de morte entre jovens namorados, tão constantes naquela época.

Na zona preta do Mangue, na rua Pinto de Azevedo, estavam concentradas as prostitutas mais pobre e esculhambadas, negras na maioria, a dois mil réis por alguns minutos. Mas o autor preferiu as da rua Benedito Hipólito, mais asseadas e que ficavam em ambientes melhores, embora o preço subisse para cinco mil réis. Ali, aos catorze anos, Nelson foi pela primeira vez com uma mulher para dentro de um quarto. Ficou freguês.

O indomável escritor cria um tablóide de quatro páginas intitulado Alma Infantil,nascido da troca de cartas com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que não conhecia pessoalmente e que morava no Recife. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal. Depois de cinco números e muitos ataques a políticos pernambucanos e a cariocas, Nelson desiste do tablóide.

A irmã Dorinha morre em setembro de 1927, aos nove meses, de gastrenterite. Em 1928 a família se transfere para uma nova e luxuosa casa na rua Joaquim Nabuco, 62, em Copacabana. Viviam um momento de muito dinheiro e muita fartura.

Nessa época, o autor e seus irmãos mais velhos trabalhavam no jornal A Manhã: Milton era o secretário, Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário Filho começou como gerente, indo depois para a página literária e depois a de esportes. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola, apesar do esforço desenvolvido por seu pai.

Tendo garantido uma coluna assinada na página três do jornal — a página principal — o escritor publica seu primeiro artigo, em 07 de fevereiro de 1928. Tinha o título de "A tragédia de pedra...", com as solenes reticências. Depois vieram "Gritos Bárbaros", "O elogio do silêncio", "A felicidade", e "Palavras ao mar", todos de grande sensibilidade poética. Seu lado monstro só apareceu na crônica de 16 de março, "O rato..." (com as famosas reticências), em que ele conta como viu um rato morto, achatado por um carro, defronte à Biblioteca Nacional. Para desespero de seu pai, começa a "bater" em Ruy Barbosa. No segundo artigo em que esculhambava o "Águia de Haia", antevendo o que aconteceria, Nelson achou que se safaria de seu pai se saísse bem cedo de casa, antes que o "velho" lesse o jornal. Enganou-se. O castigo foi mais duro do que ele imaginava: foi rebaixado, saindo da página três e retornando à seção de polícia, onde trabalhou nos cinco meses seguintes.

Mal teve tempo de voltar à terceira página e o pior acontece. O jornal, mal administrado, está cheio de dívidas. O sócio de seu pai, Antônio Faustino Porto, que há tempos vinha arcando com os pagamentos urgentes, torna-se sócio majoritário e oferece o emprego de diretor a Mário. Este aceita, mas fica só um dia. A intervenção do novo dono em seus artigos faz com que ele e a família deixem o jornal.

Amigo de Melo Viana, vice-presidente da República, no dia em completava 43 anos, 21 de novembro de 1928, e apenas 49 dias depois de perder A Manhã, Mário Rodrigues lançou seu novo jornal de grande sucesso: Crítica, que chegou a ter uma circulação de 130.000 exemplares.

O tenente-coronel Carlos Reis manda a polícia prender todos os Rodrigues que encontrasse, sob a alegação de que um deles era o mandante do assassinato do argentino Carlos Pinto, repórter de A Democracia. Foram, pai e irmãos, todos presos. Nelson escapou por não se encontrar no Rio, em viagem para o Recife, única forma encontrada pela família para tentar livrá-lo da depressão em que se encontrava. Cheio de paixões, ora por Lilia, ora por Carolina e ora por Marisa Torá, estrela da companhia teatral de Alda Garrido.

Ao lado dos primos Augusto e Netinha (com quem mantinha há algum tempo namoro epistolar), conheceu Recife e Olinda, a praia da Boa Viagem e, com Augusto, a zona de mulheres do Cais do Porto, considerada a maior da América do Sul. Sua prima, não se sabe como, tirou-o da depressão, fazendo-o voltar a todo vapor para a redação da Crítica.

Em 26 de dezembro de 1929 o jornal estampa matéria, na primeira página, sobre o desquite de Sylvia e José Thibau Jr. Foi a fórmula encontrada para o diário não sair sem assunto, já que era o primeiro dia após o natal. No dia 27, pela manhã, Sylvia entra na redação da Crítica procurando por Mário Rodrigues. Não o encontrando, pede para falar com seu filho Roberto e dá-lhe um tiro no estômago. Nelson viu e ouviu aquilo tudo. Com dezessete anos e quatro meses, era a primeira cena de violência brutal que presenciava. Seu irmão faleceu no dia 29.

Ninguém conseguirá penetrar no teatro de Nelson Rodrigues sem entender a tragédia provocada pela morte de Roberto. No mesmo dia do enterro, toda a família pôs luto. Os homens ainda podiam sair à rua de terno escuro ou com o fumo na lapela, mas suas irmãs se cobriram de preto da cabeça aos pés. Milton, o irmão mais velho, ia para o porão do palacete, antigo território de Roberto, apagava as luzes e ficava horas no escuro — à espera de um milagre que o fizesse vê-lo e ouvi-lo. Nelson apenas chorava. Joffre, de catorze anos, ganhou um revólver de Mário Rodrigues e passou a andar armado pela cidade à noite. Sabia que Sylvia tivera sua prisão relaxada. Se a encontrasse, a mataria.

Apenas 67 dias após a morte do filho, Mário Rodrigues sofre, aos 44 anos, uma trombose cerebral. Faleceu dias depois de encefalite aguda e hemorragia. Diante de tão sentidas perdas a família não encontra mais condições de morar na mesma casa. Mudam-se para outra casa na rua Sousa Lima, também em Copacabana. Um bafo de sorte surge: Júlio Prestes, que fora elogiado e defendido pela Crítica, vence Getúlio Vargas nas eleições para a presidência da República. Mas o que eles queriam era destruir quem matara Roberto e, por conseqüência, Mário. Sylvia foi absolvida por 5 a 2. O julgamento foi encerrado no dia 23 de agosto, exatamente quando Nelson completava 18 anos.

Estoura a revolução, em 3 de outubro, no Rio Grande do Sul, Minas e quase todo o Nordeste. Crítica, num erro de avaliação, continua a atacar os rebeldes. Em 24 de outubro Washington Luís é deposto e a turba saiu cedo para acertar as contas com os jornais do velho regime. As redações e oficinas de diversos jornais são invadidas e empasteladas. Dentre elas, a do jornal dos Rodrigues. De todos eles só um não voltaria a circular: Crítica. Isso sem contar que Milton e Mário Filho foram novamente presos, porém logo libertados.

Os irmãos começam a procurar emprego, coisa que para eles não estava nada fácil. Foram meses batendo em portas fechadas. Começaram a vender tudo o que tinham para poder sobreviver e, devido ao aluguel sempre atrasado, eram obrigados a mudar de casa a cada três meses. Até que um dia uma porta se abriu para Mário Filho e os outros irmãos penetraram por ela.

Irineu Marinho havia fundado o jornal O Globo em 1925, mas, apenas 21 dias após o jornal circular pela primeira vez, morreu de enfarte. Roberto Marinho, filho de Irineu, era o sucessor natural mas achou-se muito inexperiente para comandar um jornal. Chamou um velho companheiro de seu pai, Euricles de Matos, para tocar o negócio. Mas, em maio de 1931 Euricles também faleceu e Roberto Marinho convida Mário Filho para assumir a página de esportes de O Globo. Mário aceitou, desde que pudesse levar seus irmãos Nelson e Joffre. Roberto Marinho deu seu "de acordo" com a condição de só pagar o ordenado a Mário Filho.

Nelson trabalhou alguns meses no jornal O Tempo. Joffre foi para A Nota, onde já trabalhava o outro irmão, Milton. O escritor era chamado de "filósofo" pelos colegas de O Globo, tinha um aspecto desleixado, um só terno e não vestia meias por não tê-las. Com a ajuda de Mário Martins e o beneplácito de Roberto Marinho, Mário Filho lança seu jornal, Mundo Esportivo, justo no fim do campeonato de futebol. Sem ter assunto, inventaram algo que seria uma mina de dinheiro anos depois: o concurso das escolas de samba.

Em 1932 o autor teve sua carteira assinada em O Globo, um ano após começar a trabalhar naquele diário, com um ordenado de quinhentos mil réis por mês. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de quatro carteiras por dia). Em compensação, economizava pois voltava de carona com o "Dr. Roberto" para casa. Para arranjar mais algum dinheiro, trabalhou como redator da firma Ponce & Irmão, distribuidora no Rio dos filmes da RKO Radio Pictures. Criava textos para os anúncios dos filmes nos jornais.

Nesse meio tempo, tinha suas paixões: por Loreto Carbonell, argentina de olhos azuis, bailarina do Municipal; por Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, também bailarina, linda e jovem morena. Dividia com seu irmão Joffre a paixão por ela. Depois vieram Clélia, uma estudante de Copacabana e Alice, professora de Ipanema.

A tosse seca e uma febre baixa, porém persistente, ao por do sol, foram os avisos dados a Nelson, além de sua magreza. Sua irmã Stella, já médica, arranjou uma consulta. O médico pediu que ele dissesse "33" e verificou sintomas de tuberculose pulmonar, o grande fantasma do ano de 1934. Por falta de um diagnóstico precoce, o autor já havia, com apenas 21 anos, arrancado todos os dentes e posto dentadura, numa tentativa de debelar a febre que insistia em não ir embora.

Vai, então, para Campos do Jordão - SP, local recomendado para tratamento, sozinho, sem saber se voltaria. Foi a primeira de uma série de seis internações. Roberto Marinho, sabendo das dificuldades da família, continuou pagando seu ordenado normalmente. Nelson passou 14 meses no Sanatórinho, de abril de 1934 a junho de 1935. Durante esse período só os irmãos Milton e Augustinho foram visitá-lo uma única vez. Compensava a ausência de parentes e amigos com cartas, muitas delas para Alice, a professorinha.

Contam que, em 1935, um doente propôs encenarem um teatrinho. O biografado foi encarregado de escrever a comédia, um "sketch" cômico sobre eles mesmos. Logo nas primeiras cenas a platéia começou a gargalhar e, com isso, surgiram os ataques de tosse que quase fizeram vítimas. Foi a primeira experiência "dramática" de Nelson.

O autor pede ao secretário do jornal O Globo que o transfira da página de esportes para a de cultura. Queria escrever sobre ópera. Com a ajuda de Roberto Marinho consegue a transferência e começa arrasando a "Esmeralda", ópera brasileira do compositor Carlos de Mesquita. Foi sua única incursão nessa área.

Em abril de 1936, a terrível doença atacou seu irmão Joffre, com 21 anos, que foi levado para o Sanatório em Correias - RJ. Nelson ficou a seu lado durante sete meses. No dia 16 de dezembro de 1936 Joffre faleceu.

Em 1937 a redação do jornal só tinha homens. Após muita conversa Roberto Marinho concordou em contratar Elza Bretanha, apadrinhada do diretor administrativo, como secretária de Henrique Tavares, gerente de O Globo Juvenil. Voltando de sua segunda estada em Campos de Jordão, Nelson foi informado da presença de Elza, "dezenove anos, moradora do Estácio e dura na queda." Ele, então, sentenciou: "Está no papo." Errou.

Nelson se aproxima de Elza, expõe sua situação de penúria de saúde e financeira, e fala em casamento. Consultada sua família, não encontrou objeção. Afinal, já tinha 25 anos. A mãe de Elza, d. Concetta, siciliana das boas, quase teve um ataque, tendo a honra de ter sido acompanhada nisso por Roberto Marinho. Ele disse a Elza: "Está sabendo que vai se casar com um rapaz muito inteligente e de grande talento, mas pobre, absolutamente preguiçoso e doente? Sua mãe está coberta de razão!" Mesmo assim marcaram para se casar no dia do aniversário de Elza: 08 de maio de 1939. Se fosse preciso, fugiriam. Porém, em 13 de maio, mandou para a noiva um recado que dizia: "Amor, estou com a alma cheia de pressentimentos tristes". Era a tuberculose que o atacava novamente.

Nos quatro meses em que ficou internado, Nelson mostrou seu lado ciumento. Vivia atormentado com isso e, na volta, acabou desfazendo o noivado. Mas o coração falou mais forte do que o infundado ciúme e marcaram novamente o casamento, contrariando a mãe da noiva e o patrão de ambos.

No dia 29 de abril de 1940, sem externar qualquer anormalidade, Elza saiu para trabalhar, foi para a casa de uma amiga onde trocou de roupa e casou-se no civil, diante do juiz. Depois, foram comemorar tomando uma média com torrada na leiteria "Palmira". Voltaram para O Globo Juvenil e trabalharam normalmente. Haviam acertado, por vontade de ambos, que a noite de núpcias só aconteceria após o casamento religioso.

Os irmãos de Elza ficaram sabendo e falaram até em matá-lo. Nelson, com a alma leve, alugou uma casinha no Engenho Novo. Era sua volta ao subúrbio. Compraram móveis de segunda mão e Mário, o irmão, lhe deu de presente a cama de casal e a penteadeira. Finalmente d. Concetta dá o "de acordo" e o casamento religioso se realiza, em 17 de maio, após o autor, com quase 28 anos, ter sido batizado, fazer a primeira comunhão e estudado o catecismo, como manda a santa madre Igreja.

Após seis meses de casamento, certa manhã Nelson acorda e comunica a Elza que estava cego. Não enxergava nada. Descobriu, indo ao médico, que se tratava de uma seqüela da tuberculose. Tomou muito antiinflamatório, melhorou, mas 30 por cento de sua visão estava perdida para sempre, nos dois olhos. Apesar do estado de penúria em que se encontravam, o focalizado pediu a Elza que deixasse o emprego quando se casassem. Logo que pode comprou um telefone e ligava para ela de hora em hora. Saudades ou ciúme? Nelson procurava uma saída para seu aperto financeiro. Elza estava grávida e seu salário estava estagnado nos 500 mil réis mensais. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila que se formava para assistir "A família Lerolero", de R. Magalhães Júnior. Alguém comentou: "Esta chanchada está rendendo os tubos!" Uma luz se acendeu na cabeça do autor: por que não escrever teatro?

No meio do ano de 1941 escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado. Nessa época as peças ficavam, no máximo, duas semanas em cartaz. Nelson oferece sua peça para dois grandes artistas de então: Dulcina e Jaime Costa, mas eles a recusam. O autor, necessitando de dinheiro, começou a se mexer: submeteu a peça a Henrique Pongetti, Carlos Drummond de Andrade e ao crítico Álvaro Lins. Mas não conseguiu encená-la.

Nasce Joffre, seu primeiro filho. O autor, por ordens médicas, não podia ficar perto do filho. Descobre que foi premiado com uma úlcera do duodeno. O médico lhe prescreve regime alimentar e manda que ele pare de tomar café e de fumar, coisa que nunca fez. Depois de muita luta, em 09 de dezembro de 1942, A mulher sem pecado foi levada à cena pela "Comédia Brasileira", com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastava ao autor.

Em janeiro de 1943 Nelson escreve sua segunda peça teatral: Vestido de Noiva. Elza, sua mulher, fez mais de vinte cópias datilografadas para serem entregues a jornalistas, críticos e amigos. O primeiro a receber foi Manuel Bandeira. Ele gostou. Como outros, escreveu sobre ela e elogiou. Os jornais e suplementos falavam sobre Vestido de Noiva mas o autor não conseguia encená-la. Todos diziam que era uma peça que exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Só Thomaz Santa Rosa, um pernambucano ex-funcionário do Banco do Brasil, cantor lírico, desenhista, músico e poeta, achou que era possível. Falou então com um polonês recém-chegado ao Brasil: Zbigniew Ziembinski.

O grande ator e diretor leu a peça e disse: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". O autor conhece o diretor e tem início a epopéia do grupo "Os Comediantes": oito meses de ensaios, oito horas por dia. Às 20h30 do dia 28 de dezembro de 1943, os portões foram abertos e 2.205 espectadores viram a peça. Duas horas depois a peça chegou ao fim. O silêncio foi total na platéia. Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões em polonês, manda subir o pano. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor. O diretor aparece e o teatro delira. Alguém grita na platéia: "O autor, o autor". Nelson estava escondido em um camarote, lutando contra a dor de sua úlcera, e não foi visto por ninguém. Disse, depois, que sofreu naquele momento, sentindo-se "um marginal da própria glória". Quando o autor, após as comemorações com a família na leiteria "Palmira", pegou o bonde de volta para casa já eram quase duas da manhã de 29 de dezembro de 1943. Naquele momento completavam-se catorze anos da morte de seu irmão Roberto.

Apesar da fama que a peça lhe deu — o ano de 1944 foi cheio de acontecimentos — ele continuava sendo mal pago pelo O Globo Juvenil. Em fevereiro de 1945 é convidado por David Nasser, de O Cruzeiro, para uma conversa com Freddy Chateaubriand. Foram almoçar, além do autor, Freddy Chateaubriand, Millôr Fernandes e David Nasser. A oferta era inacreditável: cinco contos de réis (já nessa época cinco mil cruzeiros) — mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho.

Para ele estava fechado, mas pediu para falar com o dr. Roberto, a quem devia favores. Esse não só não se opôs como desejou-lhe boa sorte e deu-lhe dez mil cruzeiros. Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas Detetive e de O Guri. Como a função lhe tomava pouco tempo, o autor ficava perambulando pela redação da revista O Cruzeiro, que era no mesmo andar. Sempre procurando fazer "bicos" que permitissem um ganho extra — continuava a ajudar sua mãe financeiramente — soube que Freddy Chateaubriand estava querendo comprar um folhetim francês ou americano para O Jornal, que estava com uma tiragem de apenas 3.000 exemplares por dia e sem anúncios. Nelson ofereceu-se para escrever o folhetim. Daí nasceu Suzana Flag e Meu destino é pecar.

Cada episódio tomava uma página inteira de O Jornal e tinha uma ilustração de Enrico Bianco. Foram 38 capítulos que elevaram a tiragem do jornal para quase trinta mil exemplares. Apesar de estar ganhando um extra por capítulo, o autor não gostava que soubessem que escrevia com pseudônimo feminino. Quando a história terminou, o sucesso foi tão grande que foi lançado um livro pelas Edições O Cruzeiro. Calcula-se que a venda tenha ultrapassado a trezentos mil livros. Isso provocou o começo de outro folhetim, Escravas do amor, cujo sucesso foi também retumbante.

Em março de 1945 é atacado, novamente, pela tuberculose. O ano anterior havia sido ótimo: além do lançamento em livro do Vestido de noiva, ele via seu filho crescer com saúde e Elza esperava um novo filho. Resolveram ir todos para Campos de Jordão, inclusive a sogra, d. Concetta. Depois de uma semana viram que aquilo não fazia sentido e a família retornou. Em junho teve alta e, face à proximidade do parto de sua mulher, voltou correndo para o Rio. Nasceu, então, Nelsinho. Vale dizer que os Associados arcaram com todas as despesas de seu empregado no Sanatórinho.

Nos dois últimos meses de 1945 e nos dois primeiros meses de 1946 o grupo "Os Comediantes" encenou Vestido de noiva e A mulher sem pecado no Teatro Phoenix, com lotação esgotada. Começa a escrever, então, Álbum de família. Em fevereiro de 1946 o texto é submetido à censura federal e os censores ficam de cabelos em pé. A peça foi proibida de ser encenada. As opiniões se dividiam entre os intelectuais, os críticos e os jornalistas da época, uns a favor da liberação outros contra. Venceram os contra, pois a peça só foi liberada em 1965 e levada pela primeira vez em julho de 1967.

Outro sucesso de 1946 foi a publicação de Minha Vida, uma "autobiografia" de Suzana Flag. Como das vezes anteriores, além de publicada em O Jornal, virou livro e vendeu horrores.

Anjo negro, estréia em abril de 1948. Como sempre, gerou comentários polêmicos. Os ganhos com a peça permitiram que o autor comprasse uma casa no Andaraí, que teve parte financiada no IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários). Nelson tinha 36 anos e ficara livre do aluguel. Senhora dos afogados é proibida em janeiro de 1948. Com duas peças interditadas, o autor luta como um mouro para tentar liberá-las. Não conseguindo, escreve Dorotéia, em 1949, que muitos consideram seu melhor trabalho teatral.

Ainda em 1948 é publicado mais um folhetim, Núpcias de fogo, ainda como Suzana Flag.

Uma mulher chama a atenção do autor nas coxias do Teatro Phoenix, quando da encenação de Anjo negro: era Eleonor Bruno, conhecida como Nonoca, linda "mingnonne", tímida, recatada e soprano lírico, que estava ali para tomar conta de sua filha de apenas 13 anos, Nicete, que estreava como atriz. Embora nunca reclamasse, seu casamento não ia bem, e ele foi aceito por Nonoca e por toda sua família. Alugou um apartamento pequeno em Copacabana, em sociedade com o amigo Pompeu de Souza, para servir-lhes de "garçonnière", até que num dia de 1950 sua esposa Elza bateu na porta, fez um escândalo e ele voltou com o rabo entre as pernas para casa. Seu romance com Nonoca terminou ali.

Em 1949 Freddy Chateaubriand vai comandar o jornal "Diário da Noite" e leva Nelson consigo. Para trás fica Suzana Flag, que o autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu Myrna, a nova máscara feminina do biografado. A diferença é que Myrna respondia a cartas de leitoras.

Nelson escreveu a comédia Dorotéia para Nonoca. Foram duas as estréias como atrizes: de Nonoca e da irmã do autor, Dulcinha, aos 21 anos, no papel de Das Dores. Com medo de que a censura o atingisse novamente, o autor submeteu-lhe o texto como sendo um "original de Walter Paíno" — cunhado de Nonoca. A peça foi aprovada e estreou no dia 07 de março de 1950. Ao fim da apresentação, metade da platéia (onde estavam os convidados) aplaudiu e a outra saiu calada. Ficou 13 dias em cartaz.

Em 1950 o autor dá adeus a Freddy Chateaubriand e aos "Diários Associados" e fica esperando convites de outros jornais. Ficou um ano esperando... Nesse período, salvam a família as economias de Elza e um "bico" no Jornal dos Sportes de seu irmão Mário Filho. No ano seguinte sai do buraco e vai para a Última Hora e "A vida como ela é...". Começou com um salário de dez mil cruzeiros, considerado não tão ruim, tendo em vista seu baixíssimo prestígio naquela época.

Em junho Nelson estréia uma nova peça, "Valsa nº. 6", um monólogo estrelado por sua irmã Dulcinha. Ficou quatro meses em cartaz e foi outra desilusão para seu autor.

Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora tinha algo em comum com o biografado: a tuberculose. Propõe ao autor que escreva, com pagamento extra, uma coluna diária sobre um fato real. Poderia se chamar "Atire a primeira pedra". Nelson sugeriu "A vida como ela é..." e, sugestão aceita, foi para a máquina escrever a primeira coluna. O sucesso foi estrondoso. Em 1951 relançou Suzana Flag em "O homem proibido".

Um dia, na rua Agostinho Menezes, onde então Nelson morava, um marido banana que era chutado como um cão pela esposa e ainda a bajulava, cansou-se do tratamento que vinha recebendo e, no meio da rua, deu uma sova de cinto na cara-metade. É claro que a vizinhança correu para ver o fato, sendo que as mulheres gritavam: "Bate mais, bate mais". O marido bateu até se cansar, parou, e então o inesperado aconteceu: a mulher atirou-se aos seus pés, aos beijos. E, desde aquele dia, passou a desfilar com o ex-banana, de braço dado e nariz empinado, toda orgulhosa. Ao ouvir os comentários das vizinhas que tinham apoiado maciçamente a surra, Nelson concluiu: "Toda mulher gosta de apanhar".

Em 08 de junho de 1953 estréia no Teatro Municipal do Rio a peça "A falecida". Chamada de "tragédia carioca" era, na verdade, uma comédia. Foi escrita em 26 dias. Nessa época Nelson mantinha um romance com Yolanda, secretária de um radialista da rádio Mayrink Veiga. Esse caso durou cinco anos e rendeu três filhos: Maria Lúcia, Sônia e Paulo César, que ele não reconheceu como seus. Com tudo isso acontecendo, o autor produziu o último folhetim de "Suzana Flag", que chamou-se "A mentira" e foi publicado no semanário "Flan", lançado por S. Wainer.

Carlos Lacerda queria derrubar o presidente Getúlio e, para tanto, batia firme em Samuel Wainer e no jornal Última Hora. Nelson não escapava da pancadaria e era chamado de "tarado" por ele. Outro que também o atacava era o católico Gustavo Corção, da Tribuna da Imprensa.

"Senhora dos Afogados" é encenada no Rio, em 1954, com direção de Bibi Ferreira. A platéia, ao final, dividiu-se e uma parte gritava "GÊNIO" e a outra "TARADO". O autor não agüentou e reagiu à platéia, gritando do palco: "BURROS! BURROS!".

Em março de 1955 a família Rodrigues ganha uma ação contra o governo de indenização pela destruição do jornal "Crítica". Em 1956 recebem o equivalente a US$1.800.000,00. A parte que coube ao autor foi utilizada na compra de um apartamento em Teresópolis em nome dos filhos e de um carro para Elza. O que sobrou, investiu no teatro.

"Perdoa-me por me traíres" teve, também, problemas de liberação com a censura, em 1957 — sofreu cortes. Outra surpresa ocorreu na estréia: Nelson interpretava o personagem Raul. Mais uma vez as vaias e os que aplaudiam pediam para o autor falar. Ele não se fez de rogado: "BURROS! ZEBUS!". Ninguém esperava, mas aconteceu: um tiro! Na discussão entre prós e contras, o vereador Wilson Leite Passos sacou de seu revolver e deu um tiro para amedrontar alguém que o havia chamado de "palhaço". Tumulto geral. No dia seguinte a censura proibiria a peça.

"Viúva, porém honesta" estreou em 13 de setembro do mesmo ano. Dizem que nela o autor procurava atingir aos críticos que atacaram "Perdoa-me por me traíres". Um dos atores era Jece Valadão, cunhado do autor.

Dercy Gonçalves estréia "Dorotéia" em São Paulo. Ficou um mês em cartaz. Nelson não gostava dos "cacos" que a atriz introduzia no texto.

Em 1958 estréia "Os sete gatinhos", também com Jece Valadão no elenco. Apesar de malhar o presidente da República da época, Juscelino Kubitschek, Nelson vai até ele pedir um emprego. Consegue um cargo de tesoureiro em um instituto de aposentadoria e pensões (IAPETEC), mas é reprovado no exame de vista. Pede, então, a vaga para Elza. Juscelino queria agradar Mário Filho e a nomeia.

O autor teve sério problema de vesícula e, após a operação de alto risco, ficou três meses sem publicar sua coluna no jornal de Wainer. Sua coluna em "A Manchete Esportiva" deixa de ser publicada de novembro de 1958 a março de 1959.

De agosto de 1959 a fevereiro de 1960, centenas de milhares de leitores acompanharam a história de Engraçadinha e sua família em "Asfalto Selvagem". Foram publicados dois livros, intitulados "Engraçadinha — seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito" e "Engraçadinha — depois dos trinta".

O autor almoçava com sua mãe quase todo dia. Tomava o ônibus na Central do Brasil e ia até o Parque Guinle. Um dos motoristas gostava de exibir-se: tinha vinte e sete dentes na boca, mas eram todos de ouro. Nelson juntou esse fato ao bicheiro do submundo carioca, Arlindo Pimenta, e dai surgiu o "Boca de Ouro"

A peça, como todas as demais, teve problemas com a censura. Foi levada para estrear em São Paulo e foi um retumbante fracasso. Ziembinski insistiu em viver o papel principal e não deu certo. Em janeiro de 1961, com Milton Morais no papel do "Boca de Ouro", estréia no Rio com grande sucesso.

Ainda no final de 1960 o autor entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido Fernando Tôrres a peça "Beijo no asfalto". O espetáculo estava a um mês e meio em cartaz quando Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Ficou sete meses em cartaz, pelo Brasil. Ela provocou a saída de Nelson da "Ultima Hora", pois nela fazia referências pouco positivas à imagem do jornal. Voltou ao "Diário da Noite" com "A vida como ela é" e, após dez meses, em julho de 1962, foi para "O Globo", com a coluna de futebol, "À sombra das chuteiras imortais".

Apresentado por sua irmã Helena, Nelson conhece Lúcia Cruz Lima, que logo passa a ser sua namorada. Só que desta vez a coisa era séria. Casada e bem casada, mãe de três filhos, ela logo se apaixona, deixa o marido e volta a viver com os pais. Ele demora dois anos para se separar de Elza. Seus amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Cláudio Mello e Souza ficam chocados. Nos primeiros meses de 1963 nada impedia a separação do autor. Já havia alugado um pequeno apartamento e Lúcia estava grávida. Após um almoço de despedida, após o qual Elza tentou suicidar-se, ele partiu de malas e bagagens para o apartamento de sua mãe. Ia ficar lá uns tempos até acertar tudo.

Na marquise do Teatro Maison de France, no Rio, piscava o título da nova peça de Nelson: "Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária". Otto quase morreu de susto e ficou profundamente irritado. Ela ficou por cinco meses em cartaz. O autor só não se conformou de Otto não ter ido assistir ao espetáculo. Ele adorava essas brincadeiras e fez o mesmo com Fernando Sabino e com Cláudio Mello e Souza.

Lúcia deu um trato na aparência do escritor, já que ele participava desde 1960 do programa esportivo "Grande resenha Facit" na TV Rio, por obra e graça de Walter Clark, e era, portanto, um artista! Ela teve uma gravidez nada normal e um parto difícil. Daniela, a filha, nasceu com 1,5 quilo, e não conseguia respirar. Perdeu minutos de oxigenação no cérebro até que conseguissem fazer seus pulmões funcionarem. Daniela passaria o primeiro ano de sua vida numa tenda de oxigênio, tinha má circulação nas pernas, chorava sem parar em virtude das dores que sentia. Devido à paralisia cerebral nunca conseguiu andar ou articular um movimento e era irreversivelmente cega.

Nelson escreveu para Walter Clark a primeira novela brasileira de todos os tempos: "A morte sem espelho". Apesar do grande elenco — Fernanda Montenegro, Fernando Tôrres, Sérgio Brito (que também respondida pela direção), Ítalo Rossi, Paulo Gracindo (que estreava na TV), música de Vinícius de Moraes — não foi autorizada a sua apresentação às oito e meia da noite. Foi empurrada para o horário das vinte e três e trinta. Walter Clark apelou, sem sucesso, até para D. Helder Câmara. Conseguiu, finalmente, autorização para o horário das dez horas, que não compensava financeiramente. Nelson foi convidado a encerrá-la rapidamente.

Ficou claro nesse episódio que o problema era o nome do autor. Na sua novela seguinte, "Sonho de Amor", em 1964, seu nome apareceu mas ela foi anunciada como 'uma adaptação de "O Tronco do Ipê"', de José de Alencar". Sua última novela para a TV foi "O Desconhecido", com direção de Fernando Tôrres e Jece Valadão, Nathalia Timberg, Carlos Alberto, Joana Fomm e outros mais, que só foi liberada graças ao poder de convencimento de Walter Clark.

Depois de ser renegada por muitas atrizes, "Toda nudez será castigada" estréia no dia 21 de junho de 1965 e é um sucesso. Os artistas são aplaudidos em cena aberta, os ingressos são avidamente disputados e fica em cartaz por seis meses no Teatro Serrador e em excursão pelo Brasil. Após três anos de apresentações no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador, a peça é proibida em Natal - RN.

Em 1966 o autor muda-se, a convite de Walter Clark, para a TV Globo. Em situação financeira apertada — como sempre — aceitou até aparecer como "tradutor" dos romances de Harold Robins, publicados pela Editora Guanabara. Foi uma forma de receber mais algum dinheiro. A TV Globo era a "lanterna" na preferência dos telespectadores naquela época. No programa "Noite de gala" o autor apresentava o quadro "A cabra vadia", onde entrevistava pessoas. O primeiro foi João Havelange, presidente da CBD - Confederação Brasileira de Desportos.

Nessa época é chamado por Carlos Lacerda, ocasião em que é informado da criação da Editora Nova Fronteira. Lacerda, que o malhou por tanto tempo, pediu-lhe um romance e deu-lhe um cheque de dois milhões de cruzeiros. Era algo em torno de novecentos dólares, mas para quem estava pendurado, foi ótimo. Ele escreveu "O Casamento". Quando Lacerda leu o livro, ficou assustadíssimo Era um carnaval de incestos e perversões às vésperas de um casamento. Vendeu-o para Alfredo Machado, da Editora Eldorado. O livro vendeu 8.000 exemplares nas primeiras duas semanas de setembro de 1966, empatando com as vendas do novo romance de Jorge Amado, "Dona Flor e seus dois maridos". A morte de seu irmão, Mário Filho, impediu por algum tempo que ele fizesse a divulgação da obra. Quando reanimou, o livro teve sua venda proibida pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros Silva. Sua venda foi liberada novamente em fevereiro de 1967.

Indignado com o apoio dado pelo jornal "O Globo" à proibição da venda de seu romance, Nelson começa a estudar sua mudança para o "Correio da Manhã". Avisa que não pode deixar a TV Globo e, para sua alegria, é informado que não precisaria deixar nem o jornal "O Globo". O que o "Correio" queria dele eram as suas "Memórias". A estréia ocorreu em 18 de fevereiro de 1967 em grande estilo. Fez um sucesso enorme.

Paulinho Rodrigues, irmão do autor, morava com a família num prédio em Laranjeiras. Chovia a cântaros, dias antes, e Nelson disse a Cláudio Mello e Souza no Maracanã, assistindo o time do Santos ganhar do Milan: "Esse é um mau tempo de quinto ato do "Rigoletto'". Cláudio sabia que o "Rigoletto" não tinha quinto ato e que acabava no terceiro ato, como a maioria das óperas. Mas entendeu o que o autor queria dizer. No dia 21 de fevereiro de 1967 o prédio onde seu irmão morava desabou devido às chuvas. Morreram Paulinho, a esposa, filhos e mais alguns parentes que lá se encontravam para festejar o aniversário da cunhada do escritor. Em dezembro desse mesmo ano a viúva de seu irmão Mário se suicida.

Raphael de Almeida Magalhães, que já atuara como advogado de Nelson, é eleito governador do Estado da Guanabara. A pedido de Otto, e por insistência do biografado, finalmente libera "Álbum de Família", que estava interditada desde 1946. Só em julho de 1967 foi levada à cena e, apesar do carrossel de incestos, foi aplaudida no final. Já não tinha o impacto de tempos atrás.

Ele volta ao jornal "O Globo" passa a publicar "À sombra das chuteiras imortais" e "As confissões" (já que não podia usar "Memórias"), cada uma patrocinada por um banco. Como recebia uma comissão por esses patrocínios (mais que o dobro de seu salário), estabilizou sua situação financeira. A primeira "Confissão" foi publicada em 04 de dezembro de 1967.

Uma de suas manias era implicar com os pessoas conhecidas e com amigos. Era do seu estilo alimentar-se periodicamente de certas obsessões. Como dizia Cláudio Mello e Souza, Nelson era a "flor de obsessão". Ora Otto, ora Alceu de Amoroso Lima, ora D. Helder, ora Hélio Pellegrino, ora Cláudio Mello e Souza e quem mais estivesse por perto.

1970 marca o início dos anos duros da ditadura militar no Brasil. Nelson, conhecido e admirado pelos militares, luta para tirar da prisão Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura. Com mais de 57 anos, ele se sentia desgastado, sem espaço — seu apartamento vivia lotado de enfermeiras por causa de sua filha, enfim, era chegada a hora de se separar de Lúcia, o que ocorreu sem traumas.

Logo em seguida vai morar com Helena Maria, que era 35 anos mais nova que ele, e que trabalhava com ele no jornal. Em 1972 começa nova luta: seu filho, Nelsinho é um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. "Prancha" (seu codinome) foi apanhado em 30 de março de 1972. Dois anos antes, quando seu filho já vivia na clandestinidade, Nelson consegue com o presidente da República, Gal. Medici, que ele saísse do país. Nelsinho não aceita o privilégio. O drama de Nelsinho se desenrolava longe dos olhos do autor. Apesar disso, face a seu prestígio e contatos com os militares, era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização, libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos. Após a prisão de Nelsinho, começa a luta para localizá-lo e procurar mantê-lo vivo, pois a tortura corria solta.

Nelson escreve "Anti-Nelson Rodrigues" no final de 1973. Em 1974, a peça fazia bela carreira no teatro do Serviço Nacional do Teatro. O autor faz alguns exames e é levado de imediato para São Paulo para ser operado de um aneurisma da aorta. Passou por duas operações, quase morreu, retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 é internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza volta para casa e voltam a viver juntos. Na verdade, já se encontravam há tempos quase todas as noites no restaurante "O bigode do meu tio", em Vila Isabel, de propriedade de Joffre.

O autor escreveu sua grande e última peça — "A Serpente" — em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar greve de fome com treze companheiros, os últimos presos políticos cariocas, com a finalidade de transformar a anistia ampla em anistia total e irrestrita. Finalmente, no dia 23 de agosto, dia do aniversário do autor, Nelsinho é autorizado a deixar a prisão e assistir ao nascimento da filha Cristiana. No dia 16 de outubro Nelsinho recebeu a liberdade condicional mas não pode ver seu pai: estava inconsciente no hospital Pró-Cardiaco.

Nelson Rodrigues faleceu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo. No fim da tarde daquele dia ele faria treze pontos na loteria esportiva, num "bolo" com seu irmão Augusto e alguns amigos de "O Globo". Dois meses depois, Elza cumpriu o seu pedido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. É só".

Livros:

Romances:

- Meu destino é pecar,"O Jornal" - 1944 / "Edições O Cruzeiro" - 1944 (como "Suzana Flag")

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Escravas do amor, "O Jornal" - 1944 / "Edições O Cruzeiro" - 1946 (como "Suzana Flag")

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Minha vida, "O Jornal" - 1946 / "Edições O Cruzeiro" - 1946 (como "Suzana Flag")

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Núpcias de fogo, "O Jornal" - 1948. Inédito em livro. (como "Suzana Flag")

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A mulher que amou demais, "Diário da Noite" - 1949. Inédito em livro. (Como Myrna)

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O homem proibido, "Última Hora" - 1951. "Editora Nova Fronteira", Rio, 1981 (como Suzana Flag).

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A mentira, "Flan" - 1953. Inédito em livro. (Como Suzana Flag).

- Asfalto selvagem, "Ultima Hora" - 1959-60. J.Ozon Editor, Rio, 1960. Dois volumes. (Como Nelson Rodrigues)

- O casamento, Editora Guanabara, Rio, 1966 (como Nelson Rodrigues).

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Asfalto selvagem - Engraçadinha: seus amores e pecados, "Companhia das Letras", São Paulo.

- Núpcias de fogo, "Companhia das Letras", São Paulo. (como Suzana Flag).

Contos:

- Cem contos escolhidos - A vida como ela é..., J. Ozon Editor, Rio, 1961. Dois volumes.

- Elas gostam de apanhar, "Bloch Editores", Rio, 1974.

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A vida como ela é — O homem fiel e outros contos, "Companhia das Letras", São Paulo, 1992. Seleção: Ruy Castro.

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A dama do lotação e outros contos e crônicas, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A coroa de orquídeas, "Companhia das Letras", São Paulo.

Crônicas:

- Memórias de Nelson Rodrigues, "Correio da Manhã" / "Edições Correio da Manhã", Rio, 1967.

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O óbvio ululante, "O Globo" / "Editora Eldorado", Rio, 1968.

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A cabra vadia, "O Globo" / "Editora Eldorado", Rio, 1970.

- O reacionário, "Correio da Manhã" e "O Globo" / "Editora Record", Rio, 1977.

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O óbvio ululante — Primeiras confissões, "Companhia das Letras", São Paulo, 1993. Seleção: Ruy Castro.

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O remador de Ben-Hur - Confissões culturais, "Companhia das Letras", São Paulo.

-
A cabra vadia - Novas confissões, "Companhia das Letras", São Paulo.

-
O reacionário - Memórias e Confissões, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A pátria sem chuteiras - Novas crônicas de futebol, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A menina sem estrela - Memórias, "Companhia das Letras", São Paulo.

- À sombra das chuteiras imortais - Crônicas de Futebol, "Companhia das Letras", São Paulo.

- A mulher do próximo, "Companhia das Letras", São Paulo.

FRASES:

- Flor de obsessão: as 1000 melhores frases de Nelson Rodrigues, "Companhia das Letras", São Paulo, 1997, seleção e organização: Ruy Castro.

Teatro:

- Teatro completo, "Editora Nova Fronteira", Rio, 1981-89. Quatro volumes. Organização e prefácios de Sábato Magaldi.

Peças:

- A mulher sem pecado, 1941 - Direção Rodolfo Mayer

- Vestido de noiva, 1943 - Direção: Ziembinski

- Álbum de família, 1946 - Direção: Kleber Santos

- Anjo negro, 1947 - Direção: Ziembinski

- Senhora dos afogados, 1947 - Direção: Bibi Ferreira

- Dorotéia, 1949 - Direção: Ziembinski

- Valsa nº.6, 1951 - Direção: Henriette Morineau

- A falecida, 1953 - Direção: José Maria Monteiro

- Perdoa-me por me traíres, 1957 - Direção: Léo Júsi.

- Viúva, porém honesta, 1957 - Direção: Willy Keller

- Os sete gatinhos, 1958 - Direção: Willy Keller

- Boca de Ouro, 1959 - Direção: José Renato.

- Beijo no asfalto, 1960 - Direção: Fernando Tôrres.

- Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, 1962 - Direção Martim Gonçalves.

- Toda nudez será castigada, 1965 - Direção: Ziembinski

- Anti-Nelson Rodrigues, 1973 - Direção: Paulo César Pereio

- A serpente, 1978 - Direção: Marcos Flaksman

Obs.- as peças de Nelson Rodrigues vêm sendo encenadas por diversas companhias teatrais em todo o Brasil até esta data.

Novelas de TV:

- A morta no espelho, TV Rio, 1963
- Sonho de amor, TV Rio, 1964
- O desconhecido, TV Rio, 1964

FILMES:

- Somos dois, 1950
- Meu destino é pecar, 1952
- Mulheres e milhões, 1961
- Boca de Ouro, 1962
- Meu nome é Pelé, 1963
- Bonitinha, mas ordinária, 1963
- Asfalto selvagem, 1964
- A falecida, 1965
- O beijo, 1966
- Engraçadinha depois dos trinta, 1966
- Toda nudez será castigada, 1973
- O casamento, 1975
- A dama do lotação, 1978
- Os sete gatinhos, 1980
- O beijo no asfalto, 1980
- Bonitinha, mas ordinária, 1980
- Álbum de família, 1981
- Engraçadinha, 1981
- Perdoa-me por me traíres, 1983
- Boca de Ouro, 1990.

Sobre o Autor:

- O teatro de Nelson Rodrigues: uma realidade em agonia, Ronaldo Lima Lins, Editora Francisco Alves/MEC, Rio, 1979.

- O teatro brasileiro moderno, Décio de Almeida Prado, Editora Perspectiva/USP, São Paulo, 1988.

- Nelson Rodrigues - Dramaturgia e Encenações, Sabato Magaldi, Editora Perspectiva/USP, São Paulo, 1987.

- Nelson Rodrigues - Expressionista, Eudinir Fraga, Ed. Atelier, S.Paulo.

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Nelson Rodrigues, meu irmão, Stella Rodrigues, José Olympio Editora, Rio, 1986.

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Nelson Rodrigues: Flor de Obsessão, Carlos Vogt e Berta Waldman, Editora Brasiliense, São Paulo, 1985.

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Amor em segredo - As histórias infiéis que vivi com meu pai, Nelson Rodrigues, Sônia Rodrigues, Editora Agir, Rio de Janeiro, 2005.


Os dados acima foram extraídos de sites na internet, livros do autor e, em especial, do livro "Anjo Pornográfico", escrito por Ruy Castro para a Companhia das Letras, São Paulo, 1992, cuja leitura recomendamos.


Fonte:

http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp