domingo, 13 de novembro de 2011

O discurso literário contemporâneo

Os estudos atuais sobre a temática do discurso literário iniciou-se na Europa como uma teoria de análise, ligada à AD[1]. Essa teoria tratava de entender como o discurso literário era formado e como ele era composto.

No Brasil, o discurso literário ainda é uma área da linguagem voltada para a AD, e também para a lingüística textual, tendo como objetivo mostrar elementos constituintes dos textos literários, como a organização dos discursos, a heteroglossia, a plurivoricidade, a intertextualidade, a alteridade, etc.

Destacam-se com trabalhos e estudos sobre a temática, o filólogo francês Dominique Maingueneau. Em seus ensaios nos mostra uma nova visão sobre o tema e considerado por muitos uns dos expoentes dessa área; em seus estudos, Maingueneau mostra uma série de condições para uma análise do discurso literário. Também o autor fala em um de seus trabalhos sobre o discurso literário como discurso constituinte, assunto que também foi abordado por Bakhtin/Voloshinov (1929), em Marxismo e filosofia da linguagem, e por Fiorin (2003), Campos (2009) e Brait (2009).

Maingueneau (2009, p. 60) distingue o discurso literário e o discurso não literário, a partir de uma análise conseqüente do discurso literário, onde se deve fundar-se em conceitos e métodos de que parcela ponderável é válida para outros tipos de discurso (MAINGUENEAU, 2009, p. 60). Também, segundo o autor, existe uma imensa variedade de discursos literários, o que ele chama de discursos constituintes, e que eles são interligados uns aos outros.

O discurso literário não é isolado, ainda que tenha sua especificidade: ele participa de um plano determinado da produção verbal, o dos discursos constituintes, categoria que permite melhor as relações entre literatura e filosofia, literatura e religião, literatura e mito, literatura e ciência. A categoria “discurso constituinte” [2] não é um campo de estudo seguro de suas fronteiras, mas um programa de pesquisas que permite identificar certo número de invariantes, bem como postular maneiras umas quantas questões inéditas (MAINGUENEAU, 2009, p. 60).

O discurso literário contemporâneo ainda mantém em sua forma, os pressupostos abordados por Maingueneau, o discurso contemporâneo proporciona uma passividade de análise textual, o que nos faz entender que esses discursos são distintos entre si, seja ele literário, religioso, o científico, o filosófico, etc. (MAINGUENEAU, 2009, p. 60 e 61).



[1] AD, sigla pela qual a Análise do Discurso é conhecida.

[2] Essa noção foi introduzida num artigo de 1995; D. Maingueneau e F. Cossurta, “L’analyse dês discours constituants”, Languages, 117.


Referências

ARANTES, Alessandro de O. O discurso literário contemporâneo. In: Aspectos dialógicos em "O moço do saxofone". Cap. 2. p. 26-27. UERN/NAESM, Macau, 2011. [Monografia de Letras]



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Poesia Concreta - Exemplos

Os criadores do concretismo propugnavam um experimentalismo poético (planificado e racionalizado) que obedecia aos seguintes princípios:

- Abolição do verso tradicional, sobretudo através da eliminação dos laços sintáticos (preposições, conjunções, pronomes, etc.), gerando uma poesia objetiva, concreta, feita quase tão somente de substantivos e verbos;

- Um linguagem necessariamente sintética, dinâmica, homóloga à sociedade industrial (“A importância do olho na comunicação mais rápida... os anúncios luminosos, as histórias em quadrinhos, a necessidade do movimento....”);

- Utilização de paronomásias, neologismos, estrangeirismos; separação de prefixos e sufixos; repetição de certos morfemas; valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página;

- O poema transforma-se em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural: uso dos espaços brancos, de recursos tipográficos, etc.; em função disso o poema deverá ser simultaneamente lido e visto.

Exemplo destas propostas pode ser encontrado no poema Terra de Décio Pignatari:

ra terra ter
rat erra ter
rate rra ter
rater ra ter
raterr a ter
raterra terr
araterra ter
raraterra te
rraraterra t
erraraterra
terraraterra

Observe-se o despojamento e o jogo verbal deste poema de Haroldo de Campos:

de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado
sangrado
de sangue a sangue

Os recursos visuais são utilizados por Augusto de Campos como no poema abaixo entitulado Eis os amantes:

COLOCAR EIS OS AMANTES

Em Pós-tudo, escrito no fim da década de 80, Augusto de Campos parece fazer o inventário de sua participação no concretismo, identificando o seu papel nas mudanças poéticas e reconhecendo que o caminho revolucionário acabara na mudez*:

Fonte http://educaterra.terra.com.br/literatura/litcont/2003/04/22/001.htm

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A SOLIDÃO DO GIRAFO

“Vai, Raio de Luz, vai até Brasília e procura lá a tua namorada, que te dará prazer e filhos, e, com eles, voltarás ao Rio de Janeiro, onde não tens chance de casamento e multiplicação da espécie. Vejo-te passar, o esguio pescoço desafiando viadutos, passarelas e túneis, e sinto que o surrealismo é coisa de arquivo. Pintor que te pintasse viajando dessa maneira seria apenas um copista do cotidiano.

Não podias mais continuar no Rio, sem companheira prestante, e sujeito a equívocos escabrosos com os machos da tua espécie. Precisavas de uma girafa indubitável para o ofício do amor. Puseram-te em caminhão equipado com fiação elétrica e buzina de alarme, acionável ao menor indício de anormalidade, seja na rodovia seja no interior de tua silenciosa organização de girafo.

Sei que deformo teu nome, trocando a letra final, mas já é tempo de dissipar a ambiguidade das designações genéricas, em meio à indefinição crescente dos sexos, observada na sociedade humana. Quando já não se sabe ao certo quem é varão quem é varoa, pelo menos se saiba distinguir o pavão da pavoa ou pavona, o elefanto da elefanta, o sabiau da sabiá, o cisno da cisna, o tigro da tigra, em vez de nos socorrermos do aditamento macho e fêmea. Se distinguimos gato e gata, por que não foco e foca, tamanduó e tamanduá, tatu e tatua? (Deixo aos entendidos o levantamento da nominata completa.) Fica mais fácil e constitui merecida homenagem à pequena, mas divina, diferença que tornou viável o milagre da vida.

O Rio anda tão pobre que até lhe falta uma girafa para amar um girafo, e é preciso recorrer a Brasília, que de resto não consta ser pródiga em atendimento às necessidades nacionais. Mas que tenha uma girafa núbil e disponível já é coisa boa de se saber. Não ficarás solteiro, “Raio de Luz”. E procriarás e tua prole se desdobrará em girafinhos e girafinhas que enriquecerão os nossos zôos, para alegria da meninada curiosa de ver bichos originais, em confronto com a pouca ou nenhuma originalidade de tantos bichos por aí, quadrúpedes ou bípedes.

Por ser conveniente o otimismo, descarto a hipótese de a girafa brasiliana te recusar. Seria muito triste, além de muito oneroso, que a tua viagem, exigindo mil cuidados, tivesse como epílogo o desentendimento entre os parceiros. Não resta dúvida que, democraticamente, a moça girafa tem direito de escolha, e pode não ir contigo e com teu focinho. Mas, por outro lado, não consta que em alguma parte do Brasil os moços girafos sejam numerosos, e ela corre o risco de morrer solteira. Então, presumo que tudo contribui para um enlace feliz; o solitário carioca rejubila-se ao encontrar a solitária planaltina.

Casamento giráfico: não será tão pomposo quanto o do Príncipe Charles, mas em ocasião como esta, de nuvens escuras e bombas perversas, é um descanso para o espírito saber que todas as providências estão sendo tomadas para que um girafo encontre sua girafa e deste encontro resultem girafotes, ou girafelhos, que são fedelhos girafos.

Eu, cândido de coração, me associo à expectativa amena de termos no futuro um zoológico bem provido de população girafista de dois sexos, graças à tua linhagem, “Raio de Luz”. Chego a delirar, e sonho um zôo exclusivamente dedicado ao animal mais alto do mundo e que, por isso mesmo, nos dê sugestões de altura, quer material quer moral.

Essa fauna esplêndida, que efeito mágico produzirá! Cada um de nós há de sentir-se estimulado a crescer no mínimo alguns centímetros em dignidade cívica, abnegação, amor à verdade. Uma verdade que talvez esteja refugiada nas selvas mas que se entremostre, de relance, no simples e exato comportamento de um animal trazido para o nosso convívio.

A girafa parece que não consegue lamber o próprio corpo, quer dizer, ela pede que outros o façam. Expõe o corpo e confia na ação alheia. Defende-se menos do que se expõe. E, sendo animal exposto, sujeito à apreciação e ao julgamento gerais, é realmente de bom convívio. Não quer privilégios. E, mesmo calada, não é sigilosa.

A mania de sigilo, que nós, supostos racionais, inventamos está longe de ser uma regra da natureza. Os bichos não mentem. São o que são, verificáveis. Eu gosto de girafa. Tem pescoço e não tem artimanha. Só não dou um abraço a Raio de Luz porque seria impraticável. Mas torço pelo seu feliz himeneu e prometo mesmo compor um epitalâmio para o casal.”

Carlos Drummond de Andrade

Jornal do Brasil, 09/05/1981 (texto compilado na íntegra)

sábado, 15 de outubro de 2011

O discurso literário contemporâneo

Os estudos atuais sobre a temática do discurso literário iniciou-se na Europa como uma teoria de análise, ligada à AD. Essa teoria tratava de entender como o discurso literário era formado e como ele era composto.

No Brasil, o discurso literário ainda é uma área da linguagem voltada para a AD, e também para a lingüística textual, tendo como objetivo mostrar elementos constituintes dos textos literários, como a organização dos discursos, a heteroglossia, a plurivoricidade, a intertextualidade, a alteridade, etc.

Destacam-se com trabalhos e estudos sobre a temática, o filólogo francês Dominique Maingueneau. Em seus ensaios nos mostra uma nova visão sobre o tema e considerado por muitos uns dos expoentes dessa área; em seus estudos, Maingueneau mostra uma série de condições para uma análise do discurso literário. Também o autor fala em um de seus trabalhos sobre o discurso literário como discurso constituinte, assunto que também foi abordado por Bakhtin/Voloshinov (1929), em Marxismo e filosofia da linguagem, e por Fiorin (2003), Campos (2009) e Brait (2009).

Maingueneau (2009, p. 60) distingue o discurso literário e o discurso não literário, a partir de uma análise conseqüente do discurso literário, onde se deve fundar-se em conceitos e métodos de que parcela ponderável é válida para outros tipos de discurso (MAINGUENEAU, 2009, p. 60). Também, segundo o autor, existe uma imensa variedade de discursos literários, o que ele chama de discursos constituintes, e que eles são interligados uns aos outros.

O discurso literário não é isolado, ainda que tenha sua especificidade: ele participa de um plano determinado da produção verbal, o dos discursos constituintes, categoria que permite melhor as relações entre literatura e filosofia, literatura e religião, literatura e mito, literatura e ciência. A categoria “discurso constituinte” não é um campo de estudo seguro de suas fronteiras, mas um programa de pesquisas que permite identificar certo número de invariantes, bem como postular maneiras umas quantas questões inéditas (MAINGUENEAU, 2009, p. 60).

O discurso literário contemporâneo ainda mantém em sua forma, os pressupostos abordados por Maingueneau, o discurso contemporâneo proporciona uma passividade de análise textual, o que nos faz entender que esses discursos são distintos entre si, seja ele literário, religioso, o científico, o filosófico, etc. (MAINGUENEAU, 2009, p. 60 e 61).


Por Alessandro de Oliveira Arantes (NAESM/UERN)
Cap. 3 da monografia

domingo, 9 de outubro de 2011

A Carta

Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escreveram a Vossa Alteza a notícia do achado desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dara disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos Canárias , mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à ista delas. Obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas ou menos, houvemos vista das lhas de Cabo Verde , asaber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu ,e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. É de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos,. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E enquanto fazíamos lenha , construíram dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara.

Muitos deles vinham ali estar com carpinteiros. E creio que o faziam mais para veram a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, por que eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navia dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus, isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sanco de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, vei-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua adeira. E de tudo quantos lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido e frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

E pois que, senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem sevida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vira da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.

Pero Vaz de Caminha

Dia Desértico (Desertic Day)

Nesse dia de clima seco,
a chuva sumiu,
o vento quente soprou,
a casa pequena esquentou,
e o calor desse dia entrou,
nos queimando a cara,
aquecendo a água,
de nossas caixas.

Nesses dias de intenso calor,
que nos atrapalha,
que nos faz colher palha,
que evapora a água,
e seca as folhas,
que caem no solo.

Nesses dias caloríficos,
até o gado se atrapalha,
se esquece da água,
come a palha,
com o calor que a torna fraca.

Nesses dias de secura,
que racham o solo,
que secam os rios,
e desidratam a pele,
impera a salinidade,
que nos faz lembrar,
como é importante para nós,
esse elemento vital,
chamado água.

Alessandro de Oliveira Arantes

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Teoria Bakhtiniana: breve percurso histórico

Orientando: Alessandro de Oliveira Arantes (NAESM/UERN)

Orientador: Prof. Dr. Francisco Afrânio Câmara Pereira (UERN/UFRN)

1 .BREVE PERCURSO HISTÓRICO DA TEORIA BAKHTINIANA

“Tudo que é dito, tudo que é expresso por um falante, por um enunciador, não pertence só a ele. Em todo discurso são percebidas vozes, às vezes infinitamente distantes, anônimas, quase impessoais, quase imperceptíveis, assim como as vozes próximas que ecoam simultaneamente no momento da fala” (Bakhtin, 1923).

Os estudos da linguagem acerca do discurso literário no século passado começaram a sofrer uma grande transformação por volta da década de 20. Naquela época ainda não existiam teorias que explicassem como se manifestam os discursos num texto literário.

Entre os anos de 1919 a 1929, na antiga União Soviética, atual Rússia, começaram a surgir os primeiros estudos sobre a temática, a partir de reuniões e encontros de três filósofos e estudiosos russos, o que mais tarde, quando esses estudos vieram a conhecimento público e científico ocidental a partir de traduções e estudos realizados sobre a temática que na época ainda era desconhecida e pouco estudada. Esse grupo de filósofos estudiosos da linguagem ficou conhecido como Círculo de Bakhtin[1], e era originalmente composto por Mikhail Mikhailovich Bakhtin, Valentin N. Voloshinov[2] e Pavel N. Medvedev; Estes iniciaram os estudos linguísticos acerca dessa concepção de linguagem.

No Brasil os estudos sobre a temática bakhtiniana iniciaram-se após as primeiras publicações acerca dos estudos do Círculo de Bakhtin no país, baseadas nas traduções em língua francesa e, mais tarde, diretamente do russo. No Brasil, vários estudiosos e pesquisadores sobre o assunto, passaram a ser conhecidos somente após terem publicado diversos ensaios e feito pesquisas sobre o tema no país. Entre eles, destacam-se José Luiz Fiorin, Beth Brait e Diana Luz Pessoa de Barros.

Dessa mesma teoria também se originaram outras, a polifônica (a que será mais enfocada na pesquisa), a intertextual, a interdiscursiva, além de outras que não iremos nos deter no momento. Daí a expressão teoria tríade, pela razão serem interligadas e uma completar a outra, por elas serem muito semelhantes, ainda que tenham os objetos de estudo diferentes. Elas passaram a ser conhecidas no Brasil a partir da década de 70.


[1] O Círculo de Bakhtin ficou conhecido por formular teorias que explicassem como se organiza e se estabelece o discurso, essa denominação foi dada a esse grupo formado por filósofos e linguistas russos por volta da década de 70, após Julia Kristeva, apresentar Bakhtin ao ocidente, com seus trabalhos de tradução e ensaios sobre a temática bakhtiniana.

[2] Valentin N. Voloshinov foi um dos integrantes do Círculo de Bakhtin, onde participou ativamente das pesquisas linguísticas, no livro Marxismo e Filosofia da Linguagem (1923), onde o livro foi assinalado por ele, mais tarde foi verificado que o livro foi de autoria de Bakhtin, mas com colaborações de seus seguidores complementando o texto escrito por ele.

2 .A VOZ DO OUTRO COMO RECURSO DE COMPOSIÇÃO

Segundo a teoria dialógica proposta por Bakhtin, as vozes integrantes de um texto são originárias de múltiplos discursos apreendidos por alguma pessoa, que faz uso desses discursos na formulação e composição do seu, com base no(s) outro(s).

Representar a idéia do outro, conservando-lhe toda a plenivalência enquanto idéia, mas mantendo simultaneamente à distância, sem reafirmá-la nem fundi-la com sua própria ideologia representada. [...] a idéia é um acontecimento vivo, que irrompe no ponto de contato dialogado entre duas consciências (BAKHTIN apud BRAIT, 2009).

Nesse sentido, a ideia é semelhante ao discurso, com o qual forma uma unidade dialética. Com o discurso, ela quer ser ouvida, entendida, “respondida” por outras vozes e de outras posições. Como o discurso, também é de natureza dialógica.

Como Bakhtin (2002) apud Brait (2009), diz que “as palavras do outro, introduzidas na nossa fala, são revestidas inevitavelmente de algo novo, da nossa compreensão e da nossa avaliação, isto é, tornaram-se bivocais”, o que se aplica ao gênero textual conto nos dá, por ele não obedecer a uma regra fixa ou métrica rígida, permitindo a presença dessas vozes.

A base da perspectiva bakhtiniana é o discurso de outrem, que foi tratado por ele em Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), quando mostra como esse procedimento ocorre e também propõe uma nova forma de ver e compreender esse conceito. Muitos autores, pesquisadores, jornalistas e intelectuais brasileiros usam este recurso para compor seus textos ou complementar os seus discursos ou enunciações em um texto, seja ele literário, científico, letra de música, poesia, etc. Ou também, artigos em hipertextos, noticiários, blogs ou quaisquer formas de propagação de informações.

3.O DISCURSO DE OUTREM

O discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a enunciação (BAKHTIN, 1997, p. 108).

Essa perspectiva de apropriação dos discursos de outrem foi abordada intensamente pelos teóricos do Círculo de Bakhtin, pois eles tentavam explicar como ocorria esse fenômeno nos textos, e que promovia um aprimoramento de ideias a partir das ideias de outros. Esses autores pregavam que o autor em determinado momento irá fazer uso de conceitos apropriados e baseados nas informações elaboradas por outro autor, fazendo adaptações e melhorias no texto, a fim de enriquecer o estudo sobre determinada temática.

O discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo. É a partir dessa existência autônoma que o discurso de outrem passa para o contexto narrativo, conservando o seu conteúdo e ao menos rudimentos da sua integridade linguística e da sua autonomia estrutural primitiva (BAKHTIN, 1997, p. 109).

O discurso de outrem, quando apropriado, sofre inúmeras modificações morfossintáticas no seu conteúdo, mas mantêm as ideias e os conceitos originais, mas com sentidos e estilos diferentes. Ou seja, esses discursos ainda permanecem com a sua forma semântica sobre alguma temática, elas não perdem o sentido ou o foco do que está sendo tratado no discurso, mas sofrem algumas mudanças na questão estética. Quando o autor modifica alguma partícula do texto, um verbo, tempo verbal, ou até mesmo faz uso de jargões e palavras dialetais em substituição das palavras originais, alterando a estrutura real do texto, e inserindo um novo estilo para o texto.

Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva. Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos enunciados precedentes de um determinado campo: ela os rejeita, confirma completa, baseia-se neles, subentende-os como conhecidos, de certo modo os leva em conta (BAKHTIN, 2003, 297).

Para Vieira Costa[1] (2010), esse é o modo de funcionamento real da linguagem, é seu princípio constitutivo; é uma forma particular de composição do discurso. Portanto, todo discurso dialoga com outro discurso, manifestando-se em enunciados. O princípio de utilizar o discurso ou enunciado do texto de outro autor faz parte de uma série de funções que a linguagem possui, e que essa mesma linguagem, é recheadas de pensamentos e ideias de muitas pessoas, e interligadas entre si.


[1] VIEIRA COSTA. Sara. Dialogismo e intertextualidade, In GEGe - Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso, blog Textos círculo 2010.

4. REFERÊNCIAS:

ARANTES, Alessandro de O. ASPECTOS DIALÓGICOS EM O MOÇO DO SAXOFONE: Marcas da polifonia lygiana; Excertos do Cap. 1 . Monografia em andamento, NAESM/UERN, 2011.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 8ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1997ª (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p.108 - 116.

_____. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4ª ed. São Paulo: Martins fontes, 2003. (Coleção biblioteca universal)

BARROS, Diana Luz Pessoa de; FIORIN, José Luiz. (Org.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. 2ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Edusp, 2003.

BRAIT, Beth (org.). Bakhtin: dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009.

DOOLEY, Robert A. Análise do discurso: conceitos básicos em linguística. Robert A. Dooley & Stephen H. Levinsohn. 4ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 13-29, p. 58-68.

LOPES, Edward. “Discurso literário e dialogismo em Bakhtin”. Dialogismo, polifonia, intertextualidade. São Paulo: Edusp. 2003. P.63-81.

VIEIRA COSTA, Sara. Dialogismo e intertextualidade, In GEGe - Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso, blog Textos círculo 2010. Disponível em: acesso em: 08/05/2011.

Semiótica, a ciência dos signos

Na moderna acepção, desenvolvida por Charles S. Pierce, a semiótica é a doutrina dos signos, tendo por objeto o estudo da natureza, tipos e funções de signos. Devido aos desenvolvimentos das últimas décadas na linguística, filosofia da língua e semiótica, o estudo dos signos ganhou uma grande importância no âmbito da teoria da comunicação. Basicamente, um signo é qualquer elemento que seja utilizado para exprimir uma dada realidade física ou psicológica; nesta relação, o primeiro funciona como significante em relação à segunda, que é o significado (ou referente); as relações entre significantes e significados podem ser de 2 tipos: denotação e conotação .

Um som, uma cauda de cão a abanar, um sinal de trânsito, um punho erguido, um caractere escrito são exemplos (entre outros possíveis) de signos; é importante realçar que os signos por si próprios nada significam, para se tornarem compreensíveis pressupõem a existência de um código que estabeleça, dentro duma dada comunidade, a totalidade das relações entre significantes e significados, por forma a tornar possível a interpretação dos signos . Desta forma, cada comunidade desenvolve os seus sistemas de signos e respectivos códigos, por forma a viabilizar a comunicação entre os seus membros; à medida que se vai subindo na cadeia biológica as necessidades de comunicação vão-se intensificando, o que se reflete naturalmente em sistemas de signos e códigos de comunicação cada vez mais sofisticados.

Muitos códigos têm sido estabelecidos dentro das sociedades humanas, destacando-se como os mais importantes os códigos da língua (falada e escrita) e os códigos não verbais (movimentos e posturas do corpo, indicações vocais e para-linguísticas, jogo fisionômico, aparência física, contacto, fatores ambientais e espaciais); a criação dos signos não verbais foi anterior à criação dos signos verbais, sendo as duas formas de comunicação inseparáveis. Em semiótica, de acordo com a divisão feita por C. W. Morris , os signos são estudados em três níveis:

1) sintático (analisa a estrutura dos signos, o modo como se relacionam, as suas possíveis combinações, etc.

2) semântico (analisa as relações entre os signos e os respectivos significados)

3) pragmático (estuda o valor dos signos para os utilizadores, as reações destes relativamente aos signos, o modo como os utilizam, etc.).

Existem numerosas classificações de signos na literatura científica; na sua diversidade, os signos fornecem os meios para definir ou referir tudo aquilo que apreendemos através dos sentidos, bem como o que pensamos, sabemos, desejamos ou imaginamos; os signos permitem a conceitualização (a formação de uma ideia sobre uma realidade não presente),influenciam fortemente o comportamento humano, bem como a nossa percepção do mundo (sendo provável até que estejam na origem do ato de pensar).

Por uma compreensão do conceito de polifonia

A discussão a respeito do princípio jornalístico de abarcar uma multiplicidade de perspectivas ao relatar os diferentes fatos do mundo social tem muito a ganhar a partir de um enfoque que considere o conceito de polifonia cunhado pelo filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin e seu círculo de estudos

Esse termo, originalmente musical, surge em sua obra quando ele se propõe a compreender a forma como os romances do autor russo Fiodor Dostoiévski, incorporavam em si diferentes visões de mundo:

A multiplicidade de vozes e consciências independentes e miscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski. Não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, à luz da consciência uma do autor, se desenvolve nos seus romances; é precisamente a multiplicidade de consciências equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade (BAKHTIN, 1997, p. 4 – grifos do autor)

Acreditamos que a compreensão mais clara sobre essa “autêntica polifonia” que Bakhtin afirma estar presente na obra de Dostiévski pode ser alcançada a partir da recuperação da noção musical de “polifonia”. Esta, entendida como uma técnica de “superposição de linhas melódicas” (WISNIK, 2007, 110), não ocorre toda vez que um cantor ou instrumento produzem sons simultâneos. Para que ela efetivamente exista não pode haver uníssono, ou seja, uma mesma sequência de sons interpretada por fontes diferentes, mas sim a execução paralela de sequências sonoras (melódicas) distintas. Ora, tomando em conta o conceito musical é claramente possível fazer uma analogia entre as “linhas melódicas” e o que Bakhtin chama de “multiplicidades de consciências”. Nesse sentido, a “autêntica polifonia” no campo da linguagem estaria presente quando o discurso traz em si mais de um ponto de vista e não quando vários indivíduos, “em uníssono”, compartilham da mesma visão de mundo. Bakhtin propõe, por essa perspectiva, uma oposição entre o romance monológico e o polifônico, deixando claro que a existência de diferentes personagens não garante a ocorrência da polifonia caso esses seres compartilharem da mesma “consciência”.

Tal reflexão literária desenvolvida por ele no fim dos anos 1920 continua sendo bastante atual. Por um lado, foi incorporada e redirecionada pela linguística da enunciação e, por outro, mostrou-se surpreendentemente convergente com reflexões da escola francesa de Análise do Discurso a respeito da constituição e das fronteiras entre os diferentes discursos sociais.

Referências:

http://www.unicentro.br/redemc/2010/Artigos/A%20contribui%C3%A7%C3%A3o%20de%20uma%20teoria%20polif%C3%B4nica

%20do%20discurso%20para%20a%20reflex%C3%A3o%20sobre%20o%20papel%20das%20ONGs%20na%20con.pdf

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tropicalismo e A Poesia Marginal


O movimento musical popular chamado Tropicalismo originou-se, ainda na década de 60, nos festivais de M. P. B. realizados pela TV Record, que projetaram no cenário nacional, os jovens Caetano Veloso, Gilberto Gil, o grupo Os Mutantes e Tom Zé, apoiados em textos de Torquato Neto e Capinam e nos arranjos do maestro Rogério Duprat.

Com humor, irreverência, atitudes rebeldes e anarquistas os tropicalistas procuravam combater o nacionalismo ingênuo que dominava o cenário brasileiro, retomando o ideário e as propostas do Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade. Dessa forma, propunham a devoração e de deglutição de todo e qualquer tipo de cultura, desde as guitarras elétricas dos Beatles até a Bossa Nova de João Gilberto e o "nordestinismo" de Luiz Gonzaga.

Características dos textos:
ironia e paródia, humor e fragmentação da realidade; enunciação de flashes cinematográficos aparentemente desconexos, ruptura com os padrões tradicionais da linguagem ( pontuação sintaxe etc.).
Suas influências foram fundamentais na música, mas repercutiram também na literatura e no teatro.
Com o AI-5, seus representantes foram perseguidos e exilados.
A partir daí, a linguagem artística ou se cala ou se metaforiza ou apela para meios não convencionais de divulgação.

A Poesia Marginal


Segundo a professora Samira Youssef Campedelli (M Literatura, História e Texto, 3, Saraiva) "a poesia desenvolvida sob a mira da polícia e da política nos anos 70 foi uma manifestação de denuncia e de protesto, uma explosão de literatura geradora de poemas espontâneos, mal-acabados, irônicos, coloquiais, que falam do mundo imediato do próprio poeta, zombam da cultura, escarnecem a própria literatura.

A profusão de grupos e movimentos poéticos, jogando para o ar padrões estéticos estabelecidos, mostra um poeta cujo perfil pode ser mais ou menos assim delineado ele é jovem, seu campo é a banalidade cotidiana, aparentemente não tem nem grandes paixões nem grandes imagens, faz questão de ser marginal". Experimentalismo, moralidade, ideologia e irreverência são algumas de suas características.

A divulgação dessa obra foge do "circuito tradicional": são textos fechados em muros; jornais, revistas e folhetos mimeografados ou impressos em gráficas de fundo de quintal e vendidas em mesas de restaurantes, portas de cinemas, teatros e centros culturais; happening e shows musicais; até uma "chuva de poesia" foi realizada no centro de São Paulo, da cobertura do edifício Itália, em 1980.

Ainda de acordo com a Professora Samira (opuscit, p.354) "Recupera-se alguns laços com a produção do primeiro Modernismo (1922) - poemas -minuto, poemas ¬piada; experimentaram-se técnicas como a colagem e a desmontagem dadaístas; praticaram-se formas consagradas, como o sonetos ou o haicai; tudo foi possível dentro do território livre da poesia marginal, como bem atestam os poemas de Paulo Leminsky, à moda grafite, com sabor de haicai:

NÃO DISCUTO COM O DESTINO O QUE PINTAR EU ASSINO
Representantes desse grupos: Wally Salomão, Cacaso,Capinam, Alice Ruiz, Charles, Chacal, Torquato Neto e Gilberto Gil (Marginalia e "Geléia Geral")
o céu não cai do céu
O céu não cai do céu, poema de Régis Bonvicino
Não é rara também a paródia, assim como a metalinguagem.
Enquanto os concretistas atribuem grande importância à construção do poema, os marginais preocupam-se sobretudo com a expressão, ora de fatos triviais, ora de seus sentimentos. Por isso, boa parte dessa poesia marca-se por um tom de conversa íntima, de confissão pessoal.

O conto na Internet

Os avanços tecnológicos, o da Internet principalmente, abriram novas fronteiras para os autores e leitores. Muitas vezes, eles se confundem nesse mágico universo virtual, a tal ponto que já ninguém parece saber quem é o autor e quem é o leitor.
Os sites literários ou pseudo-literários abriram as portas para todo aquele que deseja aventurar-se na produção de contos, crônicas e poesias. O conto, principalmente, o de teor erótico, ganha cada vez mais destaque em alguns sites. Estamos na era do hipertexto, abrindo novas possibilidades de criação e de leitura. Sobre o hipertexto, escreve Ramal (2002?)

O que é um hipertexto? Como o próprio nome diz, é algo que está numa posição superior à do texto, que vai além do texto. Dentro do hipertexto existem vários links, que permitem tecer o caminho para outras janelas, conectando algumas expressões com novos textos, fazendo com que estes se distanciem da linearidade da página e se pareçam mais com uma rede. Na Internet, cada site é um hipertexto – clicando em certas palavras vamos para novos trechos, e vamos
construindo, nós mesmos, uma espécie de texto. Na definição de Jay Bolter (1991): "as partes de um hipertexto podem ser agrupadas e reagrupadas pelo leitor".

O conto moderno ganha, com o hipertexto, um novo formato, permitindo uma viagem de múltiplas leituras, podendo o leitor clicar sobre palavras ou frases, procurando novos caminhos, explicações e, em alguns casos, partindo para a tradução ou para uma nova leitura, totalmente diferente.
Contos que pulverizam a norma culta, contos com erros gritantes de ortografia; narrações sem sintaxe, sem tensão, contos que inovam na linguagem, reproduzindo tudo aquilo que acontece nos chats, invadem o espaço virtual. No meio desse mar de assustadoras novidades, alguns contos conseguem resgatar os valores clássicos deste tipo de narração, mexendo com a imaginação, com a emoção, intelecto e sentimentos dos leitores.
Os blogs, por exemplo, estão virando mania mundial, como afirma Mugnol (2005):

Blog é uma espécie de diário virtual. Mas vem deixando de ser coisa de adolescente. Hoje, esses sites são encarados com credibilidade e têm nutrido o impulso criativo de muita gente. É claro que ainda há uma penca de lixo virtual trafegando por aí. [...] Há estimativas de que o fenômeno blog alcance a marca de 53 milhões até o final desse ano. No Brasil, segundo o Ibope/NetRatings só em abril 7 milhões de pessoas acessaram blogs ou fotoblogs. Nesse emaranhado de informação tem gente criando, tem gente experimentando, tem gente ousando. Há e tem gente também aproveitando o espaço como um exercício para a escrita. [...] Augusto Sales, editor da revista literária Paralelos (www.paralelos.org), tem acompanhado de perto a efervescente nova geração de escritores, principalmente no Rio de Janeiro. Para ele, os blogs são uma boa maneira de entender a produção de "jovens autores, aspirantes, jornalistas e toda sorte de gente que escreve."

A explosão dessas narrativas na Internet, invadindo sites, blogs, páginas pessoais e outros espaços virtuais, com certeza modificará o gosto dos leitores, influenciará positiva ou negativamente sua percepção sobre o que é conto. Está acontecendo, sem dúvida nenhuma, uma nova revolução, tão ou mais significativa que a invenção da imprensa ou o espaço cedido pelos jornais, para os contos, no século XIX. Explica Lemos (2002) que:

A emergência dessas páginas pessoais está associada a novas possibilidades que as tecnologias do ciberespaço trazem de liberação do pólo da emissão, diferentemente dos mass media que sempre controlaram as diversas modalidades comunicativas. Esta liberação do emissor (relativa, como toda liberdade, mas ampliada em relação aos mass media) cria o atual excesso de informação, mas também possibilita expressões livres, múltiplas. O excesso, paradoxalmente, permite a pluralização de vozes e, efetivamente, o contato social.

Em outro trecho do seu trabalho, Lemos afirma:

A web está povoada de milhares de sites literários. Esta constatação mostra, evidentemente, a liberação do pólo da emissão, com sites de diaristas comuns ao lado de sites de escritores premiados. O crescimento do material literário na rede pressupõe o reconhecimento do ciberespaço como dinamizador do pólo da emissão, possibilitando a liberdade de disponibilização de textos. Como afirma Moraes, "a facilidade de publicar está na raiz de um fenômeno comunicacional já mencionado: as difusões pela Internet escavam brechas nos controles da grande mídia" (MORAES, 2001, p. 100). Assim, seria fácil descartar os diaristas como exibicionistas doentios - embora entre eles existam alguns - mas outros são excelentes escritores, estando além da mera diarréia de palavras.

Após essa imensa bolha de produção, bolha borbulhante e confusa que amalgama bons e maus textos, o universo literário não será o mesmo. A velocidade da Internet possibilita a criação de uma ponte direta entre o escritor (e também do pseudo-escritor) e os leitores. Instantaneamente eles se comunicam, trocam idéias, discutem narrações, estilos, finais e até criam novas histórias.
Um universo novo abre-se para todos com a inserção do conto no espaço virtual.

3. Pisando no umbral de um novo universo

Das noites impregnadas de medo nas cavernas até o mundo de hoje, com uma aparentemente ilimitada liberdade para alçar vôo e expressar-se, a humanidade avançou, cresceu e ganhou novos meios para expressar seus medos, emoções, pensamentos, sentimentos, futilidades, para posicionar-se perante o mundo, para tentar compreender, interpretar esse universo que nos rodeia e do qual, querendo ou não, fazemos parte.

O conto, como expressão narrativa, acompanhou o homem desde os tempos da oralidade, desde as remotas fogueiras que iluminavam o mundo pré-histórico. Apesar das modas, apesar de que em muitos momentos a poesia, o romance e outras expressões literárias ou artísticas dominaram o panorama cultural, o conto manteve-se forte e firme, mudando a "pele", mudando sua estrutura, modernizando-se, encantando e desencantando toda uma multidão de leitores.
Alguns autores, como Borges, por exemplo, nunca escreveram romances. Suas narrativas foram praticamente só contos, sem esquecer seus brilhantes ensaios. Outros teóricos afirmam que o conto ocupará, num futuro não muito distante, o lugar mais alto dentro da literatura mundial.

Por ser breve, sintético, intenso e transmitir, de maneira condensada, sentimentos, emoções e ações, o conto adapta-se perfeitamente à vida moderna, agitada e febril.
Como expressão artística, o conto é de uma singularidade extraordinária. Julio Cortázar comparava o conto a uma fotografia, uma foto instantânea que capta um momento especial da vida. Outros autores falam num simples flash, rápido e perturbador. Essa singularidade, temperada com brevidade, tensão e unicidade, faz com que o conto seja perfeitamente compatível com o homem moderno, expressando desejos, sentimentos, anseios, inquietações.

Independentemente da roupagem com a qual o autor o revista, o conto com alma, com valor literário, alcançará o leitor e estabelecerá um forte vinculo com ele, transformando sua leitura num momento único e sublime.

4. REFERÊNCIAS

CORTÁZAR, J. La casilla de los Morelli. Barcelona (Espanha): Tusquets Editor. 1975.

EPPLE, J. A. Introdução. Disponível em: Acessado em Acessado em 15 de abril de 2006.

SILVA, V. M. A. e. Teoria da literatura. 8ª edição. Coimbra (Portugal): Livraria Almedina, 2000.

VÁZQUEZ, M. Á. Estudio y aplicación de elementos fantásticos en dos cuentos de Cortázar: I - Casa tomada. no. 23, janeiro de 2004. Disponível em Acessado em 14 de abril de 2006.

http://www.artigonal.com/literatura-artigos/o-conto-alguns-aspectos-deste-genero-literario-395289.html

Carlos Higgie. Publicado em: 24/04/2008 artigonal

Linguagens

Na Era de Emerec a palavra linguagem será empregada num sentido geral - aquele que o Petit Robert dá «por extensão» como sendo: «todo o sistema de signos que permite a comunicação entre os homens ' ou possibilita que um conjunto complexo se torne inteligível». Certos linguistas preferem guardar a palavra linguagem para descrever «a função de expressão do pensamento e da comunicação entre os homens, exercida pelos órgãos de fonação (palavra) ou por uma notação de signos materiais (escrita)» (Petit Robert, 1967). A este tipo de linguagem, tipicamente humano, chamaremos a linguagem verbal, para sublinharmos bem que ele se baseia no verbo, na palavra.

Para estudar as linguagens, recorremos à semiologia, essa «ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social», e da qual o pai da linguística moderna, Ferdinand de Saussure, pressentiu a necessidade: «ela ensinar-nos-á em que consistem signos e que leis os regem”. Como ainda não existe não se pode dizer o que virá a ser; mas ela tem direito à existência, o seu lugar já está determinado».

De facto, mais de sessenta anos passados sobre esta declaração, não se pode dizer que a semiologia já esteja organizada e que as suas relações com a linguística que, segundo Saussure, não era então uma parte dessa ciência geral, sejam perfeitamente claras. Ao contrário, «surgem por todo o lado teorias e modelos» linguísticos, hipóteses de terminologia até ao esmigalha mento, até ao babelismo » . Não tentaremos acrescentar novas teorias. Contentar-nos-emos com utilizar a distinção fundamental de Saussure, entre língua e palavra, alargando a nossa noção de linguagem. Recorreremos igualmente ao seu sistema de análise do signo, significante, significado, que aplicaremos, não só ao signo linguístico, mas também a todos os signos. O audio-scripto-visual será uma classificação operacional.

...

As linguagens são consideradas como sistemas de signos,... Distingue as linguagens de base, que são unidimensionais (no sentido em que jogam com um único modo de percepção) e as linguagens sintéticas, que implicam a fusão de duas linguagens de base; chega até à linguagem polissindética.

As linguagens de base são três: linguagem audio; linguagem visual e linguagem scripto, que diz respeito ao mundo especial da significação, a scriptosfera, criado por linguagens hibridas, tais como a escrita fonética, a notação musical e certas linguagens-máquinas.


Transcrito do livro "A era de EMEREC " de Jean Cloutier, Ministério da Educação e Investigação Científica - Instituto de Tecnologia Educativa, 1975.

Mais informação no endereço URL:

www.geocities.com/Eureka/8979/index.htm

Semiótica

Na moderna acepção, desenvolvida por Charles S. Pierce , a semiótica é a doutrina dos signos, tendo por objeto o estudo da natureza, tipos e funções de signos. Devido aos desenvolvimentos das últimas décadas na linguística, filosofia da língua e semiótica, o estudo dos signos ganhou uma grande importância no âmbito da teoria da comunicação. Basicamente, um signo é qualquer elemento que seja utilizado para exprimir uma dada realidade física ou psicológica; nesta relação, o primeiro funciona como significante em relação à segunda, que é o significado (ou referente); as relações entre significantes e significados podem ser de 2 tipos: denotação e conotação .

Um som, uma cauda de cão a abanar, um sinal de trânsito, um punho erguido, um caractere escrito são exemplos (entre outros possíveis) de signos; é importante realçar que os signos por si próprios nada significam, para se tornarem compreensíveis pressupõem a existência de um código que estabeleça, dentro duma dada comunidade, a totalidade das relações entre significantes e significados, por forma a tornar possível a interpretação dos signos. Desta forma, cada comunidade desenvolve os seus sistemas de signos e respectivos códigos, por forma a viabilizar a comunicação entre os seus membros; à medida que se vai subindo na cadeia biológica as necessidades de comunicação vão-se intensificando, o que se reflete naturalmente em sistemas de signos e códigos de comunicação cada vez mais sofisticados.

Muitos códigos têm sido estabelecidos dentro das sociedades humanas, destacando-se como os mais importantes os códigos da língua (falada e escrita) e os códigos não verbais (movimentos e posturas do corpo, indicações vocais e para linguísticas, jogo fisionómico, aparência física, contato, fatores ambientais e espaciais); a criação dos signos não verbais foi anterior à criação dos signos verbais, sendo as duas formas de comunicação inseparáveis. Em semiótica, de acordo com a divisão feita por C.W.Morris , os signos são estudados em três níveis:

1) sintático (analisa a estrutura dos signos, o modo como se relacionam, as suas possíveis combinações, etc)

2) semântico (analisa as relações entre os signos e os respectivos significados)

3) pragmático (estuda o valor dos signos para os utilizadores, as reacções destes relativamente aos signos, o modo como os utilizam, etc).

Existem numerosas classificações de signos na literatura científica; na sua diversidade, os signos fornecem os meios para definir ou referir tudo aquilo que apreendemos através dos sentidos, bem como o que pensamos, sabemos, desejamos ou imaginamos; os signos permitem a conceptualização (a formação de uma ideia sobre uma realidade não presente),influenciam fortemente o comportamento humano, bem como a nossa percepção do mundo (sendo provável até que estejam na origem do acto de pensar).

Fonte: http://www.univ-ab.pt/~bidarra/hyperscapes/video-grafias-6.htm

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Brasileiro, a língua do futuro

BRASILEIRO, A LÍNGUA DO FUTURO.

ARANTES, Alessandro de Oliveira (UERN/NAESM)

1. INTRODUÇÃO

A linguagem brasileira como conhecemos hoje, ainda é chamada de portuguesa, por causa das burocracias e imposições da elite nacional, como sabemos, ainda não existe uma legítima língua brasileira independente, sem levar o nome "portuguesa", e sim "brasileira".

Em nosso país falamos em sua maioria, a língua portuguesa, variante padrão brasileira, que é bem diferente da variedade européia, tanto em termos semânticos, quanto fonológicos e ortográficos. Com a implantação do Novo Acordo Ortográfico, as sociedades lusófonas tiveram que se adaptar a essas novas adequações, também em nosso país, há indivíduos que falam outras línguas diferentes das usuais, como o caso do guarani, falado na fronteira com o Paraguai, algumas línguas neo-germânicas no sul do Brasil, na Amazônia, inúmeras línguas indígenas, e nas diferentes regiões e interiores do país, as chamadas variantes linguísticas.

2. AS VARIANTES REGIONAIS E DIALETAIS CONTRASTES E CONFLITOS

As Variantes Linguísticas ou de registro são assim denominadas, por serem diferentes pronúncias, escritas, vocabulários e comportamentos adquiridos e que marcam a identidade de uma região ou população, às vezes indivíduos falantes de um determinado dialeto não entente algumas palavras ou termos de outro; isso é que chamamos no país de diversidade linguística, muitas vezes tratadas por gramáticos e críticos da linguagem como "erro", e deturpação linguística, o que no âmbito da linguística, especificamente, a sociológica, define que o que comumente chamamos de "erro", nada mais é que a manifestação do fenômeno linguístico chamado de dialetação, onde a linguagem em seu estado real, se adapta a realidade e a sociedade que dela usufruem identificando a sociedade onde ela é usada, ou seja, a linguagem dialetal identifica determinado grupo social, através dos usos da linguagem comuns a região ou sociedade em que esse indivíduo convive, nada mais é que a transformação que a linguagem sofre, e mostra a naturalidade da evolução da língua.

3. COEXISTENCIA LINGUÍSTICA BRASILEIRA

No Brasil existem mais de 11 variantes regionais, e mais de 20 sub-regionais, além dos jargões e gírias comumente difundidas e usadas no cotidiano social. As variantes mais difundidas na mídia televisiva, são as variantes: fluminense, que se divide em duas, o "carioca" e o "fluminense" variedades usadas no Rio de Janeiro, além das variantes "caipira interiorano" e "paulistana" no caso de São Paulo e "caipira goiano" ou "sertanejo" em Goiás, e a variedade "pampa" ou "gaúcha" comumente difundida no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e influenciada pelas línguas neo-germânicas e dialetos falados na Argentina e Uruguai.

Também existem dialetos não muito conhecidos no país, mas que fazem parte de muitos brasileiros espalhados por esse país continente, são eles: o dialeto "mineiro" conhecido também como "uái sô", também o gaúcho "tchê", e também o dialeto "pantaneiro", falado na região oeste e sul do Mato Grosso do Sul, também o dialeto "potiguar ou norte rio-grandense", o "paraíba", "recifense", em Pernambuco, o "baiano", o "candango", no Distrito Federal, também a variante "cearense", a variedade "capixaba", no Espírito Santo e a "amazônica" nos estados da região norte, e a "paraense" no Pará, também há a sub-variedades existentes, como o caso dos jargões médicos, policiais, bombeirenses, políticas, marginalizadas, criminosas, entre outras mais.

4. IDEAIS DE UMA LÍNGUA BRASILEIRA

O termo Lingua Brasileira foi usada pela primeira vez por Antônio Cândido (1960), também écitada por Orlandi (2005), onde ele questiona que embora a cultura escolar se queira, muitas vezes, esclarecedora em sua racionalidade e moderna em sua abertura, acaba sempre se curvando à legitimidade da língua portuguesa que herdamos e, segundo dizem, adaptamos às nossas conveniências, mas que permanece em sua forma dominante inalterada, intocada: a língua portuguesa. E quem não a fala, ainda que esteja no Brasil, que seja brasileiro, erra, é um mal falante, um marginal da língua (ORLANDI, 2005).

Também nessa perspectiva, então, falamos decididamente a língua brasileira, pois é isto que atesta a materialidade lingüístico-histórica. Se, empiricamente, podemos dizer que as diferenças são algumas, de sotaque, de contornos sintáticos, de uma lista lexical, no entanto, do ponto de vista discursivo, no modo como a língua se historiciza, as diferenças são incomensuráveis: falamos diferente, produzimos diferentes discursividades (ORLANDI, 2005).

Destacamos este exemplo para mostrar como nós, indivíduos e cidadãos brasileiros, iríamos escrever se a língua brasileira fosse realmente outorgada como língua oficial e com uma gramática independente e física.

Excerto 1: Comunicado de uma Secretaria, transcrito em língua brasileira.

COMUÑIKÁDU

Segui in anécsu u comuñikádu prá divugassão dus cúrsu di ene ree dez. Na verdadi a aula inaguráu ki pogramamus prá terssa fêra 21 será apêna comu palestra prá divugá prus alunu u konogama, u seja, us dia, locál e orárius. Eça aula inagruráu dever a ser dia 21, devidida na siguinti fórma, Báxa du mêi di tardi í Gaamaé à noíti. Pra qui náda dê erradu, é íprecindíveu qui as pessoa qui istivérim fazeno as iscrição na sequetária ìm Gaamaé, bêim komu ***** em Báxa du Mêi, avisi a us iscritus us oráriu dais aula inagrurá e loká.

Sujestãum prá aula inagrurá dìya 21(terssa-fêra)

Báxa du Mêi: 15:00

Locá: Cêntru di Ifomátika

Gaamaé: 19:00

Locá: Iscóla Muincipáu

Obs: U pessoá da sequetária, naum pódi iskecêr-si di infomá êstis orárius ì us locáiz.

(ARANTES, 2011)

Nesse excerto, nota-se marcas de usos linguísticos fonéticos, o que mostra que a fonética ou a forma da pronúncia das palavras, de forma real, facilitaria e muito a vida dos brasileiros, por eles estarem tão acostumados com o padrão que eles aprenderam a vida toda, e por isso os afeta quando eles tem que usar palavras e linguajares de uma outra língua, a portuguesa; o que deixam eles com muitas dificuldades de assimilar as regras ortográficas impostas pela gramática tradicional.

5 . IMPLICÂNCIAS GRAMATICAIS E AS VARIANTES

Muitos gramáticos consideram como "erro", a inadequação ortográfica, seja ela falada ou escrita, que foge da regra pré-estabelecida nas gramáticas normativas da língua portuguesa. Isso faz com que haja um maior interesse em saber, pelo menos no meio acadêmico, de saber por que os brasileiros tem tanta dificuldade em apreender e compreender a língua portuguesa na escola? e também por que eles não conseguem por em prática os conceitos ensinados na escola?

Segundo Orlandi (2005), A língua praticada deste lado do Atlântico, possui a relação unidade/variedade: a unidade já não refere o português do Brasil ao de Portugal, mas à unidade e às variedades existentes no Brasil. O que nos remonta a mudança que a língua falada no Brasil está passando, cada vez mais está havendo um distanciamento entre as linguagens, enquanto a variedade padrão brasileira, vem a cada ano evoluindo, incorporando novos vocábulos, a variedade padrão europeia, praticamente não evoluiu, salvo a incorporação de palavras oriundas de outras línguas europeias, africanas ou até mesmo do Brasil, com a implantação do Acordo Ortográfico, onde se unificou a forma escrita da língua portuguesa.

E a unidade do português do Brasil, referido a seu funcionamento historicamente determinado, é marca de sua singularidade. Há um giro no regime de universalidade da língua portuguesa que passa a ter sua própria referência no Brasil. A variação não tem como referência Portugal, mas a diversidade concreta produzida no Brasil, na convivência de povos de línguas diferentes, línguas indígenas, africanas, de imigração etc (ORLANDI, 2005).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, a língua brasileira em si existe, mas ainda não possui uma gramática própria, essa linguagem existe ainda na forma falada, tendo que ainda ser subordinada a ortografia e a gramática da língua portuguesa. No caso de Portugal, o mirandês [1] foi reconhecido como a segunda língua nacional, sendo de origem asturo-leonesa, essa língua não possui vertente portuguesa, sendo ela originária de um troco hispânico.

Diferentemente da língua brasileira, que continuará coexistindo com o português brasileiro, em Portugal, a língua mirandesa já é ensinada nas escolas como uma língua minoritária, e por questões tradicionais, ensina-se nas escolas para que os alunos portugueses conheçam a língua, e também que ela possa ser usada em alguns locais onde ela existe. No caso do Brasil, essa língua dificilmente será ensinada nas escolas, vemos, por exemplo, o caso do tupi, uma língua nacional que foi praticamente esquecida, e nunca passou a ser ensinada nas escolas, por conta da burocracia da elite dominante, que tinha como descendência, portugueses em sua maioria, e eles tinham que manter as raízes portuguesas na linguagem e em tudo que eles impunham a sociedade.

Finalizamos dizendo que o brasileiro é um povo que merece sim ser reconhecido pela sua identidade linguística e diversidade cultural, mas sem se prender a que denominamos de um tipo de contrassenso, chamarmos a nossa linguagem de “língua portuguesa”, que ainda nos prende a nossos irmãos portugueses, nós brasileiros sentiríamos mais orgulho de dizer que somos brasileiros, se dissermos que falamos “língua brasileira”, sem desmerecer a língua portuguesa que nos deu base para formar essa diversidade linguística, existente em nossas terras, mas gostaríamos sim de ver num futuro bem próximo, o brasileiro sendo falado em nosso país livremente, sem preconceitos e sem imposições da elite mesquinha de nossa pátria, e sendo exportada para além-mar conforme a evolução linguística e humana de nosso povo e do mundo em que vivemos.

Certamente, a linguagem brasileira, coexistirá com a portuguesa durante muitas décadas, enquanto o poder elitista ainda perdurar nas mãos dos descendentes de portugueses, burgueses e representantes da elite intelectual que ainda não compreende que a diversidade cultural no país favorece o desenvolvimento dessa linguagem, as mídias comumente mostram a realidade nas diferentes regiões do país, e consigo revela traços e marcas da linguagem típicas de um determinado grupo regional, mostrando-nos quão grande potencial linguístico nosso Brasil guarda, os grandes veículos informativos, como a televisão, fazem uso dessas linguagens, sem que eles reconheçam as mesmas como marca cultural daquela região em que ela pertence; enfim, vemos que muitos pesquisadores brasileiros e estrangeiros se interessam pela temática dos conflitos linguísticos existentes no Brasil, e que eles nos dão uma grande contribuição para elucidar como essa linguagem aprisionada em seu povo, ainda não pode se expandir e alcançar o status de língua pátria e língua popular, por causa do viés burocrático e gramaticista nacional, que insiste em difundir uma língua que a cada dia está se tornando complicadíssima e conflituosa, mas que ainda nos será de valia para alcançarmos status de país globalizado e desenvolvido, enquanto a brasileira, ainda será vista como uma língua marginalizada, mau vista pela sociedade e potencionalmente prejudicial às grandes mídias imperialistas que ainda nos manipulam e impõem suas modas e visões.


[1] O Mirandês é uma língua falada na região de Miranda do D’ouro em Portugal.

7. REFERÊNCIAS

ORLANDI, Eni P. Língua Brasileira. Ciencia e Cultura. vol.57 no.2 São Paulo Apr./June 2005. Disponível em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200016&script=sci_arttext> ISSN 0009-6725