sexta-feira, 18 de maio de 2012

VENHA VER O PÔR DO SOL - Lygia Fagundes Telles


ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.           
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.             
- Minha querida Raquel.  
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.         
- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima   
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.           
- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?        
- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hem?!
- Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.       
- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?              
- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?    
Brandamente ele a tomou pela cintura.      
- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.            
- Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.               
- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...         
- E você acha que eu iria?              
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.      
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?              
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.       
- Mas eu pago.   
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.       
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.             
- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.            
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.          
- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.             
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.             
- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.  
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.       
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.          
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.     
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.               
- Ele é tão rico assim?      
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?              
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.     
- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.        
- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.   
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.              
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.    
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...     
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.      
- Sua prima também?      
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.        
- Vocês se amaram?        
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.              
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o           
- Eu gostei de você, Ricardo.          
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença? 
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.     
- Esfriou, não? Vamos embora.     
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.               
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.      
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.       
- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?    
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.            
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.         
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.              
- E lá embaixo?  
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?             
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.              
- Todas estas gavetas estão cheias?           
- Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.          
- Vamos, Ricardo, vamos.               
- Você está com medo?   
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!        
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:  
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.     
- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...            
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.     
- Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.               
- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?          
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás. 
- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!               
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.              
Ela sacudia a portinhola. 
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...             
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
- Boa noite, Raquel.          
- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
- Não, não...        
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.      
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não...  
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:               
- NÃO!   
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Lygia Fagundes Telles In: Antes do Baile Verde

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Gênero Textual Jornal

Conceito Básico:

Como os variados gêneros textuais, o jornal tem sido um dos que possuem uma importância enorme no cotidiano, por serem de cunho informativo. onde eles através da narrativa de um texto, seja visual, oral, imaginativo e com recursos gráficos, eles tem o papel de veicular uma informação.
Existem inúmeros tipos de jornais, mas todos eles tem o objetivo de manter o leitor informado sobre determinados fatos, assuntos, etc.
O público-alvo deles são variados, normalmente os jornais são divididos em seções, onde cada uma trata de uma área específica.

Características:

A imprensa em si não apenas relata, mas também comenta, interpreta os fatos. Dividem-se em:

Notícias: são os sub-gêneros que divulgam acontecimentos momentâneos.
Artigo de opinião: são os que além de tratar de uma fato noticiado, permite que o editor comente e demonstre sua visão sobre o fato, que seja parcial e pessoal em sua afirmação.
Editoriais: são aqueles que expressam a opinião de uma emissora, corporação ou grupo midiático, procurando dar uma opinião e defendendo um ponto de vista corporativo.
Crônica: são aqueles que além de entreter e informar, é uma narrativa curta que segue um tempo cronológico, demonstrando um acontecimento que cresce e vem se desenvolvendo até se concretizar.
Entrevista: são aqueles que são previamente preparados para que uma pessoa busque informações através de questionamentos para com alguém, ou um grupo de pessoas, onde depois elas farão parte de uma matéria jornalística.

Todos eles publicam um determinado ponto de vista, ou seja, são formadores de opinião, onde eles procuram impor indiretamente a verdade deles sobre um fato.
Por isso devemos ler e assistir a mais de um jornal, para termos mais de um ponto de vista, e poder formar uma opinião coerente.

Aula 1 - Gêneros Textuais - 2º Bimestre - Português - 4º Período - Turmas A e B - EMBNT - 2012
Prof.º Graduado Alessandro de Oliveira Arantes (NAESM/UERN/EMBNT)
Licenciado em Letras, habilitação em Lingua Portuguesa e suas literaturas.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

O gênero textual conto

Conceito Básico:

São narrativas ficcionais onde prevalecem a narrativa, ou seja, o conto apresenta uma sucessão de acontecimentos ,envolvendo um número limitado de personagens.
Há outros gêneros de texto que apresentam as mesmas características dos contos, entre eles a notícia e a crônica, onde a primeira tem como base manter o compromisso com a verdade, sendo imparcial, e não-ficcional; a segunda se assemelha com o conto, mas tendo intenções diferentes, mas possuem a mesma estérica de entreter e ensinar algo.
Todos os contos são ficcionais, exceto as narrativas policiais, contos que são baseados em fatos reais, e os que queiram demonstrar algo cotidiano, como a reportagem e o editorial.

Características:

Existem vários tipos de contos, que são estórias e não histórias, pois a primeira diz respeito apenas as narrativas de cunho ficcional, e histórias refere-se a narrativas onde os fatos são comprovados pela ciência, documentados e convencionada por algum grupo ou público científico.

TIPO                            EXEMPLO                            DEFINIÇÃO                       CARACTERÍSTICA

Narrativas         -----    Contos tradicionais    >>>>     Estória                            >   Contadas
Ficcionais                                                                                                                Narradas

Narrativas         -----    Histórias, fatos,          >>>>    História                           >   Documentadas
Não-ficcionais              Narrativas estudadas                                                           Comprovadas
                                                                                                                               Cientificamente

Tipos básicos:

Existem vários tipos de contos muitos comuns e amplamente usados pelos escritores, por ser um gênero muito antigo e versátil, eles são comumente divididos em contos populares (da tradição oral) e os contos literários.

Conto popular: é o relato produzido pelo povo e transmitido geralmente por meio da linguagem oral, o que mais se destaca "é o conto folclórico, também chamado de a estória, o causo (comum no interior paulista), onde ocorre no contexto do maravilhoso e até o sobrenatural" (Câmara Cascudo, 1954).
Apresentam temas diversos, mostrando a riqueza e criatividade do povo brasileiro, a maioria das histórias são adaptações das narrativas europeias e afro-lusitanas e as demais nativas.
Alguns desses contos ganham forma escrita, enquanto os demais são repassados oralmente, quando passam para a escrita, eles perdem características da fala, modos de dizer, expressão de um povo, grupos, a entonação, e outras marcas próprias, que são substituídas pela forma gramatical.

Conto literário: é um tipo ficcional que já nasce com uma formatação escrita, e com uma autoria definida. Por se tratar de uma obra de curta extensão, as personagens e as situações são menos complexas, do que o romance e a novela.
É o mais abrangente dos gêneros, pois elas duram por mais tempo, sobrevivendo na escrita, e por serem de autoria determinada.

Prática:

Você se lembra de alguma experiência marcante relacionada ao ato de contar ou ouvir histórias?

Atividade:

Escreva em seu caderno e depois conte-a para seus colegas, e socialize junto com o professor, buscando entender e diferenciar o tipo de texto.


Aulas 1 e 2 - Português - Bimestre II - 5º Período EJA
Prof.º Graduado Alessandro de Oliveira Arantes (NAESM/UERN/EMBNT)
Escola Municipal Benvinda Nunes Teixeira - Guamaré-RN

VIAGEM A PETRÓPOLIS - Clarice Lispector


Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:
      - Mocinha.
      As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:
      - Nome, nome mesmo, é Margarida.
      O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito: sorria e balançava a cabeça.
      Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa . Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil:
      - Passeando.
      Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade. Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.
      Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos lá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: "olha!". Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar.
      Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.
      Por que Mocinha não dormiu na noite anterior? À idéia de uma viagem, no corpo endurecido o coração se desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse engolido uma pílula grande sem água. Em certos momentos nem podia respirar. Passou a noite falando, às vezes alto. A excitação do passeio prometido e a mudança de vida, de repente aclaravam-lhe algumas idéias. Lembrou-se de coisas que dias antes juraria nunca terem existido. A começar pelo filho atropelado, morto debaixo de um bonde no Maranhão – se ele tivesse vivido no tráfego do Rio de Janeiro, aí mesmo é que morria atropelado. Lembrou-se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar. E lembrou-se do marido. Só relembrava o marido em mangas de camisa. Mas não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme de contínuo, ia a festas de paletó, sem falar que não poderia Ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do paletó do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza na cama. De repente descobriu que a cama era dura.
      - Que cama dura, disse bem alto no meio da noite.
      É que se sensibilizara toda. Partes do corpo de que não tinha consciência há longo tempo reclamavam agora a sua atenção. E de súbito – mas que fome furiosa! Alucinada, levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedaço de pão com manteiga ressecada que guardava secretamente há dois dias. Comeu o pão como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. Conseguiu, embora fugazmente, Ter a visão do marido se despedindo para ir ao trabalho. Só depois que a lembrança se desvaneceu, viu que esquecera de observar se ele estava ou não em mangas de camisa. Deitou-se de novo, coçando-se toda ardente. Passou o resto da noite nesse jogo de ver por um instante e depois não conseguir ver mais. De madrugada adormeceu.
      E pela primeira vez foi preciso acordá-la. Ainda no escuro, a moça veio chamá-la, de lenço amarrado na cabeça e já de maleta no chão. Inesperadamente Mocinha pediu uns instantes para pentear os cabelos. As mão trêmulas seguravam o pente quebrado. Ela se penteava, ela se penteava. Nunca fora mulher de ir passear sem antes pentear os cabelos.
      Quando enfim se aproximou do automóvel, o rapaz e as moças se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rápidos. "Tem mais saúde do que eu!", brincou o rapaz. À moça da casa ocorreu: "E eu que até tinha pena dela".
      Mocinha sentou-se junto da janela do carro, um pouco apertada pelas irmãs acomodadas no mesmo banco. Nada dizia, sorria. Mas quando o automóvel deu a primeira arrancada, jogando-a para trás, sentiu dor no peito. Não era só por alegria, era um dilaceramento. O rapaz virou-se para trás:
      - Não vá enjoar, vovó!
      As moças riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabeça no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas não pôde. Quis sorrir, não conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros já sabiam que não significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto amorteceu um pouco a alegria da moça da casa e deu-lhe um ar obstinado.
      A viagem foi muito bonita.
      As moças estava contentes, Mocinha agora já recomeçara sorrir. E, embora o coração batesse muito, tudo estava melhor. Passaram por um cemitério, passaram por um armazém, árvore, duas mulheres, um soldado, gato! Letras – tudo engolido pela velocidade.
      Quando Mocinha acordou não sabia mais aonde estava. A estrada já havia amanhecido totalmente: era estreita e perigosa. A boca da velha ardia, os pés e as mãos distanciavam-se gelados do resto do corpo. As moças falavam, a da frente apoiara a cabeça no ombro do rapaz. Os embrulhos despencavam a todo instante.
      Então a cabeça de Mocinha começou a trabalhar. O marido apareceu-lhe de paletó – achei, achei! – o paletó estava pendurado o tempo todo no cabide. Lembrou-se do nome da amiga de Maria Rosa, daquela que morava defronte. Elvira, e a mãe de Elvira até era aleijada. As lembranças quase lhe arrancavam uma exclamação. Então ela movia os lábios devagar e dizia baixo algumas palavras.
      As moças falavam:
      - Ah, obrigada, um presente desses eu rejeito!
      Foi quando Mocinha começou finalmente a não entender. Que fazia ela no carro? Como conhecera seu marido e aonde? Como é que a mãe de Maria Rosa e Rafael, a própria mãe deles, estava no automóvel com aquela gente? Logo depois acostumou-se de novo.
      O rapaz disse para as irmãs:
      - Acho melhor não pararmos defronte, para evitar histórias. Ela salta do carro, a gente ensina aonde é, ela vai sozinha e dá o recado de que é para ficar.
      Uma das moças da casa perturbou-se: receava que o irmão, com uma incompreensão típica de homem, falasse demais diante da namorada. Eles não visitavam mais o irmão de Petrópolis, e muito menos a cunhada.
      - É sim, interrompeu-o a tempo antes que ele falasse demais. Olha, Mocinha, você entra por aquele beco e não há como errar: na casa de tijolo vermelho, você pergunta por Arnaldo, meu irmão, ouviu? Arnaldo. Diz que lá em casa você não podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que você até pode vigiar um pouco o garoto, viu...
      Mocinha desceu do automóvel, e durante um tempo ainda ficou de pé mas pairando entontecida sobre as rodas. O vento fresco soprava-lhe a saia comprida por entre as pernas.
      Arnaldo não estava. Mocinha entrou na saleta onde a dona da casa, com um pano contra pó amarrotado na cabeça, tomava café. Um menino louro – decerto aquele que Mocinha deveria vigiar – estava sentado diante de um prato de tomates e cebolas e comia sonolento, enquanto as pernas brancas e sardentas balançavam-se sob a mesa. A alemã encheu-lhe o prato de mingau e aveia, empurrou-lhe na mesa pão torrado com manteiga. As moscas zuniam. Mocinha estava fraca. Se bebesse um pouco de café quente talvez passasse o frio no corpo.
      A mulher alemã examinava-a de vez em quando em silêncio: não acreditara na história da recomendação da cunhada, embora "de lá" tudo fosse de se esperar. Mas talvez a velha tivesse ouvido de alguém o endereço, até num bonde, por acaso, isso às vezes acontecia, bastava abrir um jornal e ver que acontecia. É que aquela história não estava nada bem contada, e a velha tinha um ar sabido, nem sequer escondia o sorriso. O melhor seria não deixá-la sozinha na saleta, com o armário cheio de louça nova.
      - Preciso antes tomar café, disse-lhe. Depois que meu marido chegar, veremos o que se pode fazer.
      Mocinha não entendeu muito bem, pois ela falava como gringa. Mas entendeu que era para continuar sentada. O cheiro de café dava-lhe vontade, e uma vertigem que escurecia a sala toda. Os lábios ardiam secos e o coração batia todo independente.. Café, café, olhava ela sorrindo e lacrimejando. A seus pés o cachorro mordia a própria pata, rosnando. A empregada, também meio gringa, alta, de pescoço muito fino e seios grandes, trouxe um prato de queijo branco mole. Sem uma palavra, a mãe esmagou bastante queijo no pão torrado e empurrou-o para o lado do filho. O menino comeu tudo e, com a barriga grande, agarrou um palito e levantou-se:
      - Mãe, cem cruzeiros.
      - Não. Para quê?
      - Chocolate.
      - Não. Amanhã é que é Domingo.
      Uma pequena luz iluminou Mocinha: Domingo? Que fazia naquela casa em vésperas de Domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. Sempre gostara de criança loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus. O que fazia naquela casa? Mandavam-na à toa de um lado para outro, mas ela contaria tudo, iam ver. Sorriu encabulada: não contaria era nada, pois o que queria mesmo era café.
      A dona da casa gritou para dentro, e a empregada indiferente trouxe um prato fundo, cheio de papa escura. Gringos comiam muito de manhã, isso Mocinha vira mesmo no Maranhão. A dona da casa, com seu ar sem brincadeiras porque gringo em Petrópolis era tão sério como no Maranhão, a dona da casa tirou uma colherada de queijo branco, triturou-o com o garfo e misturou-o à papa. Para dizer a verdade, porcaria mesmo de gringo. Pôs-se então a comer, absorta, com o mesmo ar de fastio que os gringos do Maranhão têm. Mocinha olhava. O cachorro rosnava às pulgas.
      Afinal Arnaldo apareceu em pleno sol, a cristaleira brilhando. Ele não era louro. Falou em voz baixa com a mulher, e depois de demorada confabulação, informou firme e curioso para Mocinha:
      - Não pode ser não, aqui não tem lugar não.
      E como a velha não protestasse e continuasse a sorrir, ele falou mais alto:
      - Não tem lugar não, ouviu?
      Mas Mocinha continuava sentada. Arnaldo ensaiou um gesto. Olhou para as duas mulheres na sala e vagamente sentiu o cômico do contraste. A esposa esticada e vermelha. E mais adiante a velha murcha e escura, com uma sucessão de peles secas penduradas nos ombros. Diante do sorriso malicioso da velha, ele se impacientou:
      - E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e você toma o trem para o Rio, ouviu? Volta para a casa de minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é asilo, viu? Aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo não é asilo não, viu!
      Mocinha pegou no dinheiro e dirigiu-se à porta. Quando Arnaldo já ia se sentar para comer, Mocinha reapareceu:
      - Obrigada, Deus lhe ajude.
      Na rua, de novo pensou em Maria Rosa, Rafael, o marido. Não sentia a menor saudade. Mas lembrava-se. Dirigiu-se para a estrada, afastando-se cada vez mais da estação. Sorriu como se pregasse uma peça a alguém: em vez de voltar logo, ia antes passear um pouco. Um homem passou. Então muito coisa muito curiosa, e sem interesse, foi iluminada: quando ela era ainda uma mulher, os homens. Não conseguia Ter uma imagem precisa das figuras dos homens, mas viu a si própria com blusas claras e cabelos compridos. A sede voltou-lhe, queimando a garganta. O sol ardia, faiscava em cada seixo branco. A estrada de Petrópolis é muito bonita.
      No chafariz de pedra negra e molhada, em plena estrada, uma preta descalça enchia uma lata de água.
      Mocinha ficou parada, espreitando. Viu depois a preta reunir as mãos em concha e beber.
      Quando a estrada ficou de novo vazia, Mocinha adiantou-se como se saísse de um esconderijo e aproximou-se sorrateira do chafariz. Os fios de água escorreram geladíssimos por dentro das mangas até os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.
      Saciada, espantada, continuou a passear com os olhos mais abertos, em atenção às voltas violentas que a água pesada dava no estômago, acordando pequenos reflexos pelo resto do corpo como luzes.
      A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e sua muito. Mocinha sentou-se numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder apreciar. O céu estava altíssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.

      (in Legião Estrangeira, Clarice Lispector, Editora Rocco) 

TENTAÇÃO - Clarice Lispector


Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.        
   Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. 
   Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.      
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.             
   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam. 
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. 
    Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.         
   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos. 
   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.  
   Mas ambos eram comprometidos.            
   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. 
   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina. 
   Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.
__________________
Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

O PRIMEIRO BEIJO - Clarice Lispector

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.              
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:              
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? perguntou com dor.Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.     
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.      
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.           
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.      
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.     
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.    
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.     
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.    
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.       
Ele a havia beijado.          
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...              
Ele se tornara homem.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poesia: Soneto Gerúndico

Soneto Gerúndico

Em casa,
Pensando,
Observando,
Refletindo.

Desejando,
Comentando.
Verificando,
Analisando.

Descobrindo,
Testando,
Comprovando.

Amenizando,
Olhando,
E por fim, sonhando.

Escrito por: Alessandro De Oliveira Arantes

terça-feira, 27 de março de 2012

ANÁLISE DO CONTO ”O MOÇO DO SAXOFONE”

O conto “O moço do saxofone”, da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, foi escrito por volta da década de 60. No mesmo ano da escritura do conto, logo ele foi publicado no Rio de Janeiro, fazendo parte da obra Antes do Baile Verde , lançada em 1970.
Lygia escreveu o seu conto numa noite do ano de 1966, quando estava num quarto de hotel em Águas de São Pedro (SP), onde se hospedava com o segundo marido, Paulo Emílio. A escritora nomeou o conto como “O moço do saxofone”, que conta a história simples de um caminhoneiro que se hospeda numa pensão.
Mas o conto não demoraria tanto a ficar conhecido do público. No mesmo ano em que foi escrito, no dia 18 de junho foi publicado com destaque no Suplemento Literário que circulou de 1956 a 1974, e se tornou referência entre os cadernos do gênero no País ; Mais tarde o texto veio a ser publicado na década de 70.
Nascida em 19 de abril de 1923, Lygia Fagundes Telles é imortal da Academia Brasileira de Letras desde 1985. Embora tenha começado a escrever e a publicar ficção muito cedo, quando ainda cursava Direito na USP, ela prefere considerar Ciranda de Pedra , de 1954, seu primeiro romance, o ponto de partida de sua obra adulta.

3.1 Aspectos dialógicos e análise do conto
O conto lygiano, de modo geral, entre as décadas de 60 e 70 estava começando a se tornar conhecido do público. Muitos deles foram publicados posteriormente na década de 80. Um desses contos é “O moço do saxofone”, escrito no ano de 1966, numa cidade do interior paulista, como já afirmamos. Esse conto é marcado pela linguagem simples e estilo introspectivo; também, a manifestação de vozes se faz presente, mas sem comprometer o foco no narrador. A voz que prevalece na narrativa é a do chofer, dando a impressão, para o leitor, de um diálogo travado entre diferentes pensamentos do narrador.
Um dos aspectos dialógicos presentes no texto, é sem dúvida, a polifonia ou plurivoricidade, desenvolvida e denominada por Bakhtin (1929) de fenômeno de vozes constituintes de um texto, e que também se trata da interação verbal entre o locutor e o alocutário, e ainda um jogo de vozes que ocorre no interior do discurso presente no texto, seja ele literário ou não (ZONIN, 2006).

3.1.1 Enredo do conto

O enredo do conto, como já dissemos, é simples. A história se passa numa pensão, em que o protagonista de “O moço do saxofone” é um caminhoneiro que "ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando" (TELLES, 1966) e que, em determinado momento da vida, vai parar numa pensão do tipo frege-moscas - lugar inspirado, segundo Lygia, numa pensão em que ela mesma viveu durante a juventude.
No local, chamam à atenção do motorista a comida ruim, uns anões que se hospedam por lá e uma insistente música de saxofone, triste como o diabo. O homem logo fica sabendo que o saxofonista é um pobre coitado que passa o dia enfurnado num quarto, ensaiando, enquanto a mulher o engana até com o periquito.

3.1.2 Análise e presença de vozes no conto

O conto “O moço do saxofone”, escrito em 1966 e considerado um marco da literatura introspectiva, conta com a participação direta de seis personagens, sendo que o protagonista é um chofer de caminhão. Também nota-se no texto que o narrador é onipresente, o que nos passa a impressão de que o pensamento dele se manifesta com diversas nuanças. Esse pensamento é o do locutor, numa fala bastante introspectiva. Este(s) pensamento(s) do narrador nos conta(m) a história. Vejamos um excerto do conto:

Presença do Narrador:
“Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando ”.
“Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca”

Presença do Locutor #1:
“Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá”.

Nesse primeiro excerto notamos uma voz que conta a história; ela preenche a maior parte do texto, por isso a classificaremos como narrador principal, identificando o personagem protagonista. A seguir, a segunda voz identificada no início do conto como o Locutor #1 , que complementa a primeira voz constituinte, nos passa a impressão de uma outra voz do pensamento do locutor, em que vemos um diálogo entre vozes no pensamento do locutor. O efeito de polifonia torna-se evidente nos primeiros parágrafos do texto.

Diálogo do pensamento do Locutor #1:
“Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando”.

“Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone”.

O locutor começa a mostrar as diferentes faces de seu pensamento, também se notam mudanças de temperamento durante as colocações de cada pensamento seu. No primeiro excerto, notamos que o locutor começa a narrar um pouco da rotina da pensão onde residia temporariamente, durante sua jornada como chofer. Ele inicia apresentando os tipos de pessoas que, como ele, estavam de passagem.
Após o seu primeiro discurso acerca do comportamento de que ele não gostava nos clientes da pensão, como por exemplo palitar os dentes. Isto o incomodava. Narra o fato de, após o primeiro encontro dele com uma dona, ele logo a mandara andar, depois de juntos comerem um sanduíche. Tudo por causa da palitada nos dentes. Mas há um detalhe: a última vez parece ter sido pior do que as anteriores, por que junto com as palitadas, ele se assustara com a boca arreganhada dela, e via o que o palito tirava dos dentesda mulher. Com nojo, ele a mandara embora (TELLES, 1979).
No segundo excerto, ele inicia seu diálogo falando de sua situação no estabelecimento, na pensão, e em “seus pensamentos” dizia que ali era uma espécie de “mosqueiro” . Ele não gostava de se alimentar todos os dias naquele local, também reclamava do comportamento dos anões que ali residiam, que ficavam a todo o momento subindo e descendo as escadas, passando por entre as pernas dos clientes e por debaixo das mesas, tocando e agarrando as pernas das pessoas que ali residiam. A cada vez que os anões desciam logo se ouvia um som vindo do andar superior. Logo ele notou que era de um saxofone.

Diálogo entre pensamentos do Locutor #1 (o que explica um determinado acontecimento) e do Locutor #2 (pensamento direto do chofer):
Locutor#2
“Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado”.

Locutor#1
“Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava”.

Nesta nossa análise preliminar, no excerto acima vemos que na primeira estrofe, surge uma nova voz, que chamaremos de Locutor #2, que é uma segunda voz do Locutor principal, como se fosse um pensamento indireto, que explica o seu gosto para com o que ele estava vivenciando, o tocar de um saxofone; e também marca e explica o porquê dele não gostar da sonoridade em que estava sendo tocada a música que vinha do quarto. Na segunda estrofe, vemos que a voz principal retorna e desperta o Locutor que logo reclama e explica que o toque era realmente desagradável aos seus ouvidos; ele logo diz que não é sobre o tocar do saxofone, mas sim do tema, que para ele era um tanto triste e melancólico, como se estivesse encobrindo algo que ele não aceitava.
No primeiro momento, antes do diálogo, o chofer começa a observar ao seu redor, e ele notou que sempre que alguém subia para o andar superior, logo começava a surgir uma triste e melancólica música de um saxofone. E assim o conto prossegue, recheado de vozes. Evidentemente, essas tantas vozes dizem ao leitor sempre algo. Vejamos outros exemplos.
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Diálogo entre as vozes constituintes principais

Voz do Chofer Locutor#2
— Sim senhor. Eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.

Voz do James
— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!

Locutor#1
Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.

Voz do chofer
— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?

Locutor#1
James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

Voz do James
— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente.

Locutor#1
Resmungou ele, tirando um palito.

Voz do James
— Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta.
— Um outro já tinha acabado com a vida dela!


Até o momento a chateação do protagonista e de seu companheiro de mesa só aumentava, com o que estava acontecendo naquele lugar. Principalmente com o que ocorria com o moço do saxofone, que permanecia a tocar tranquilamente aquela mesma música triste. A música melancólica, a sua execução insistente e solitária, a despeito de todas as imbricações com o pessoal e contexto daquela pensão, é certamente a principal temática do conto lygiano. E aí está, sutilmente deflagrada, uma multiplicação de vozes. As vozes de um texto, literário ou não, se fazem perceber por diversos aspectos, como subtendidos, interrupções, intertextualidade, discursos indireto ou indireto-livre, pressupostos e vários outros, nem todos esses recursos alcançados na brevidade desta monografia. Vejamos mais um pouco.

Diálogo entre o chofer e o moço do saxofone
Locutor#2
Fui recuando de costas. E de repente não agüentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.

Voz do chofer
— E você aceita tudo isso assim quieto?
— Não reage?
— Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua?
— Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio!
— Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?

Voz do moço do saxofone
— Eu toco saxofone.

Aqui a expressão definidora, no nosso entender, de todo o conto: “eu toco saxofone”. Aqui, a voz que justifica e explica a atitude, talvez passiva para alguns, do moço que toca o seu saxofone incessantemente. Vemos, então, que esta voz se superpõe às outras daquele ambiente. Parece não interessar ao moço a possível traição da sua companheira e nem a reação adversa dos outros. Interessa-lhe somente tocar. Ou, numa outra direção, tocar apesar de qualquer coisa. A música triste e insistente do saxofone, numa voz aparentemente intraduzível, talvez diga tudo, seja o suficiente para aquele ambiente.

3.2 Elementos dialógicos do conto e as sua relação com a realidade

No conto, encontramos muitos elementos constituintes que estão interligados entre si. O que os diferenciam são as relações dialógicas que eles estabelecem. Na maior parte do conto, notamos que o texto é repleto de vozes, que são os múltiplos discursos de uma única voz – a princípio da autora ou do narrador, se assim considerarmos. Evidentemente, sabemos que essa voz a que chamanos de única, na verdade está transpassada por várias outras, como já demonstrado. Ela reflete várias outras: da cultura, da história, da tradição literária, da tradição teórica, da geração de escritores do convívio da autora, entre tantas outras. Esses efeitos causados por essas interferências no texto é o que nos permite dizer que o texto é polifônico, pois nele soam muitas vozes ocultas, num pensamento ou discurso do personagem.
O próprio enredo permite que a autora use de temas do cotidiano para inter-relacionar esses diferentes pensamentos que habitam o texto. À primeira vista, quando se lê superficialmente o conto, tem-se a impressão de um texto onde existe somente um Locutor, o personagem central da história, que conduz a ação. Esse efeito é causado pela ocultação de algumas vozes, e também por alguma voz que se sobressai às demais, mas não escondemos, de fato, outros dizeres.

3.2.1 Marcas de polifonia e relação com a realidade

Como podemos observar no conto, no início do mesmo temos a impressão de um narrador onisciente, ou seja, que sabe o que acontecera na história antes mesmo de qualquer outro personagem. Esse efeito de sentido, como veremos, é criado já nas primeiras frases da narrativa. Também notamos que esse mesmo exemplo nos diz que existe uma relação dialógica atemporal, pois nos sugere que o narrador já vivenciara a história, ou parte dela, em algum tempo anterior ao narrado.

“Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame”
“Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá”. (TELLES, 1979) (grifos meus),

Colocamos neste exemplo essas marcações em negrito para mostrar como essas relações dialógicas se fazem presentes, os verbos no pretérito do indicativo, marcados em negrito, e outras expressões nos mostram uma relação atemporal entre as vozes do texto. Os verbos em negrito nos passam a impressão de que o caminhoneiro foi literalmente jogado na pensão, sem que ele soubesse, e só descobrira aquilou depois de estar lá, após o seu pensamento se manifestar na voz do narrador.
Essas relações entre os diálogos no conto é que nos permitem entender como a autora “brinca” com a realidade de muitos caminhoneiros, simulando as suas muitas caminhadas, idas e vindas, as suas estadas fora de casa em ambientes que, na maioria das vezes, não lhes parecem pessoais. Numa outra relação dialógica, prevalece o sentimento de estar com pessoas estranhas, que querem se aproveitar deles ou, em outro sentido, pessoas que lhes serviriam em algum momento.

3.2.2 As vozes constituintes do conto e suas características particulares

Em “O moço do saxofone” verificamos a presença de diferentes vozes, e cada uma com sua características únicas, o que mostra um texto heterogêneo, mesmo com poucos personagens diretos e outros coadjuvantes na história. A autora conseguiu também interligar os pensamentos de um mesmo personagem, no caso o chofer de caminhão, o narrador, como se fosse ou fossem diversos personagens.
A primeira voz a ser encontrada é a do narrador, que se faz presente diretamente no início do conto. Mas como ele é onisciente e onipresente, está em toda parte, sem que se defina exatamente a sua presença real. Diversas outras vozes estão dentro dessa mesma voz, por isso a impressão de uma voz que se sobrepõe às outras.
Essa mesma voz subdivide-se em outras vozes, que na verdade são pensamentos distintos dele, ou seja, são os interlocutores do personagem, que falam em alguns momentos por ele, explicando, desejando algo, relacionando com elementos distantes e até mesmo se intrometendo na história indiretamente, fazendo com que o leitor ache que o personagem central está dialogando com outro personagem na mesma fala dele.
A primeira voz do pensamento do personagem foi classificada como Locutor #1, pois nela verificamos que essa mesma tem como aspecto explicar alguma situação, fato ou acontecimento que esteja ocorrendo no momento que o personagem está inserido. É a voz mais direta e ativa de todas, pois ela está a todo o momento aparecendo no texto; essa voz causa um efeito de sentido que faz com que ela se comporte como se fosse um personagem real, exteriorizando traços de seu pensamento.
A segunda voz do pensamento dele foi classificada como Locutor #2, por ela refletir o seu temperamento durante uma explicação, demonstração de seus motivos. Essa voz conhece parte da história, e ela é mais passiva e indireta que a primeira, pois ela demonstra o que o personagem está sentindo em seu interior, sem exteriorizar o que pensa.
A próxima voz encontrada e classificada é a do Locutor #3, que aparece de repente na história, como uma voz referencial. Ou seja, ela surge como uma voz de pensamento externo e atemporal, pois narra um acontecimento anterior ao que ele está inserido no momento; também essa mesma faz relações com fatos que explicam atitudes, temores e comportamentos do personagem. É a mais passiva e distante de todas.
Outra voz constituinte do texto é a do personagem #2, o James, que a todo tempo aparece dialogando com o personagem central da história. Essa voz é mais passiva, ficando apenas como personagem coadjuvante nas cenas, acompanhando o chofer na mesa, e em algumas estrofes do texto ela se torna ativa, passando a tomar voz em alguns momentos do texto, participando das loucuras do personagem central.
A próxima voz a se manifestar é a do personagem #3, que é a madame, que é dona da pensão onde ocorre a história, é uma voz passiva que aparece somente em alguns momentos, após interferências do personagem principal, que a faz se tornar ativa por alguns momentos, principalmente quando ocorre o diálogo entre eles, e também quando ocorre algum fato na pensão, como explicações sobre algo.
Outra voz importantíssima é a do personagem #5, que é a do moço do saxofone. Essa voz é dividida em duas, a voz direta do moço que aparece apenas quando o personagem principal pergunta algo, é mais passiva, que apenas responde aos questionamentos. A outra voz a aparecer é a do seu instrumento, o saxofone. Essa voz não é considerada como constituinte, mas sim como voz coadjuvante, por ela fazer parte de quase toda a história, mas não ser literalmente uma voz verbal, mas uma voz sonora, que indiretamente reflete os sentimentos do moço.
Essas vozes são interligadas entre si, mas cada uma com sua autonomia e particularidades. Elas fazem parte de uma única voz onipresente, a do narrador, que conta a história por meio das vozes dos personagens, pensamentos diretos e indiretos, que provocam efeitos de sentido, e fazem com que o leitor tenha a impressão de que o personagem está servindo de arcabouço para o narrador passar uma lição maior por trás da mesma, a da relação com a realidade de muitos caminhoneiros - de uma forma suave, cômica e agradável.

Referências:

5 REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem - Problemas fundamentais do Método Sociológico na Ciência da Linguagem. Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira, 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1981. (VOLOCHINOV, Valentin. N.), 150 pgs.
_____. Bakhtin, o homem e seu duplo. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira, 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1981. (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p.7 e 8.

_____. Tema e significão na língua. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira, 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1981. (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p. 91-103.

_____. O Discurso de Outrem. In: Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira, 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1981. (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p.108 - 116.

_____. Problemas da poética de Dostoievski. Trad. Paulo Bezerra, 2ª. Ed. ver. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

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BARROS, Diana Luz Pessoa de; FIORIN, José Luiz. (Org.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. 2ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Edusp, 2003.
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VIEIRA COSTA, Sara. Dialogismo e intertextualidade, In GEGe - Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso, blog Textos círculo 2010. Disponível em: acesso em: 0 de mai. 2011.

ZANI, Ricardo. Intertextualidade: considerações em torno do dialogismo. Em Questão, Porto Alegre, v. 9, n. 1, p. 121-132, jan./jun. 2003.

ZONIN, Carina Dartora. Polifonia e discurso literário: outras vozes que habitam a voz do narrador na obra Ensaio sobre a Lucidez de José Saramago. Revista eletrônica de crítica e teoria de literaturas. Dossiê: Saramago, PPG-LET-UFRGS, Porto Alegre. Vol. 02 N. 02, jul/dez 2006. 


Fonte bibliográfica:

ARANTES, A. O. Aspectos dialógicos em O moço do saxofone. cap. 3. Monografia. UERN, 2011. p. 36-58

sábado, 17 de março de 2012

Momento Poético: Lembranças

Lembranças

Que falta me faz os amigos,
nessas noites frias,
eu andando,
sozinho,
e ao beirar da meia-noite,
tendo que se contentar,
em contemplar a lua.

A lua que nos acompanha,
que de dia e de noite,
nunca descansa,
no céu pálida,
esburacada e iluminada,
nos dando o privilégio,
de uma noite por si iluminada.

Nessas noites frias,
recordo-me dos tempos passados,
das amizades que passaras,
daquelas que esfriam com o tempo,
daquelas que pegam fogo,
daquelas que ainda hão de vir,
daquelas que ainda não apareceram,
enfim de todas.

Vejo e contemplo o luar,
sentindo e imaginando,
o porque de as pessoas,
que gostam ou não,
da presença de minha pessoa,
se sentirem indiferentes,
deixando de dar atenção,
em prol da sua satisfação,
em agradar aqueles que o identifica.

Nessas noites frias,
vejo com calma e paciência,
a escuridão sublime,
decorada pelas luminescências,
das distantes estrelas,
que decoram o tapete estelar,
que nos faz pensar,
como a nossa vida é rara,
fugaz e passageira.

Com o olhar fixo,
vejo nos céus algo,
que nos faz lembrar,
com a memória que hoje falha,
das lembranças que em mim se guarda,
dos tempos que pensava em ser astronauta,
lembrando das travessuras,
que histórias não faltavam,
e das amizades que me acompanhava.

Nesses dias de glória,
com a fértil e serena memória,
imaginando e brincando,
com o ar das horas,
de castelo à rei,
de carro à bola,
de desenhar à escola,
de montar e desmontar à história,
quão bons os tempos de escola.

Ah! que bons tempos que não voltam mais,
que bom seria reencontrar,
aqueles que fizeram parte,
da minha breve e singela metade,
que me fez ser quem sou hoje,
ainda carrego em minha mente,
as lembranças e imagens,
dos quadros com saudades,
das minhas queridas amizades,
dos tempos que foram,
dos tempos que hoje estão,
dos tempos que hão de chegar,
esperando algo de bom que tanto vi esperar.

Nessas noites amenas,
guardo na memória,
os ensinamentos dos tempos de escola,
que hoje repasso àqueles que no futuro verei,
vencer, mudar a história,
de nossa difícil e perigosa trajetória,
nessa vida cheia de glórias.

Com essa singela e breve escritura,
encerro as minhas simples palavras,
de pensamentos à histórias,
que por uns instantes,
me inspirou a escrever,
me dando a paz,
que em alguns momentos me falta,
por sentir falta,
daqueles que me acompanham,
com amizades e ideias que não faltam,
e que me faz fluir as boas energias,
que às vezes ficam sobrecarregadas,
precisando de alguém para compartilhar-las.

Finalizo fechando o meu pensamento,
que quase não acaba,
por meu cérebro processar muitas palavras,
ideias que quase me atrapalham,
que me faz ser o que sou hoje,
peço a benção de Deus,
para mais uma noite aguardada,
para dormir com calma,
e acordar com a paz e a tranquilidade,
abençoada pela luz maior,
pelo brilho de sua luz,
através do nosso e querido sol.


Alessandro De Oliveira Arantes
Escrita em: 17-03-2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Samba do Arnesto

O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever"

Arnesto

BARBOSA, Adoniran. Samba do Arnesto. Samba do Arnesto/Conselho de mulher. 1952.

domingo, 26 de fevereiro de 2012