quarta-feira, 16 de maio de 2012
O PRIMEIRO BEIJO - Clarice Lispector
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? perguntou com dor.Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Poesia: Soneto Gerúndico
Em casa,
Pensando,
Observando,
Refletindo.
Desejando,
Comentando.
Verificando,
Analisando.
Descobrindo,
Testando,
Comprovando.
Amenizando,
Olhando,
E por fim, sonhando.
Escrito por: Alessandro De Oliveira Arantes
terça-feira, 10 de abril de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
ANÁLISE DO CONTO ”O MOÇO DO SAXOFONE”
sábado, 17 de março de 2012
Momento Poético: Lembranças
Que falta me faz os amigos,
nessas noites frias,
eu andando,
sozinho,
e ao beirar da meia-noite,
tendo que se contentar,
em contemplar a lua.
A lua que nos acompanha,
que de dia e de noite,
nunca descansa,
no céu pálida,
esburacada e iluminada,
nos dando o privilégio,
de uma noite por si iluminada.
Nessas noites frias,
recordo-me dos tempos passados,
das amizades que passaras,
daquelas que esfriam com o tempo,
daquelas que pegam fogo,
daquelas que ainda hão de vir,
daquelas que ainda não apareceram,
enfim de todas.
Vejo e contemplo o luar,
sentindo e imaginando,
o porque de as pessoas,
que gostam ou não,
da presença de minha pessoa,
se sentirem indiferentes,
deixando de dar atenção,
em prol da sua satisfação,
em agradar aqueles que o identifica.
Nessas noites frias,
vejo com calma e paciência,
a escuridão sublime,
decorada pelas luminescências,
das distantes estrelas,
que decoram o tapete estelar,
que nos faz pensar,
como a nossa vida é rara,
fugaz e passageira.
Com o olhar fixo,
vejo nos céus algo,
que nos faz lembrar,
com a memória que hoje falha,
das lembranças que em mim se guarda,
dos tempos que pensava em ser astronauta,
lembrando das travessuras,
que histórias não faltavam,
e das amizades que me acompanhava.
Nesses dias de glória,
com a fértil e serena memória,
imaginando e brincando,
com o ar das horas,
de castelo à rei,
de carro à bola,
de desenhar à escola,
de montar e desmontar à história,
quão bons os tempos de escola.
Ah! que bons tempos que não voltam mais,
que bom seria reencontrar,
aqueles que fizeram parte,
da minha breve e singela metade,
que me fez ser quem sou hoje,
ainda carrego em minha mente,
as lembranças e imagens,
dos quadros com saudades,
das minhas queridas amizades,
dos tempos que foram,
dos tempos que hoje estão,
dos tempos que hão de chegar,
esperando algo de bom que tanto vi esperar.
Nessas noites amenas,
guardo na memória,
os ensinamentos dos tempos de escola,
que hoje repasso àqueles que no futuro verei,
vencer, mudar a história,
de nossa difícil e perigosa trajetória,
nessa vida cheia de glórias.
Com essa singela e breve escritura,
encerro as minhas simples palavras,
de pensamentos à histórias,
que por uns instantes,
me inspirou a escrever,
me dando a paz,
que em alguns momentos me falta,
por sentir falta,
daqueles que me acompanham,
com amizades e ideias que não faltam,
e que me faz fluir as boas energias,
que às vezes ficam sobrecarregadas,
precisando de alguém para compartilhar-las.
Finalizo fechando o meu pensamento,
que quase não acaba,
por meu cérebro processar muitas palavras,
ideias que quase me atrapalham,
que me faz ser o que sou hoje,
peço a benção de Deus,
para mais uma noite aguardada,
para dormir com calma,
e acordar com a paz e a tranquilidade,
abençoada pela luz maior,
pelo brilho de sua luz,
através do nosso e querido sol.
Alessandro De Oliveira Arantes
Escrita em: 17-03-2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
Samba do Arnesto
O Arnesto nos convidou pra um samba, ele mora no Brás
Nós fumos não encontremos ninguém
Nós voltermos com uma baita de uma reiva
Da outra vez nós num vai mais
Nós não semos tatu!
No outro dia encontremo com o Arnesto
Que pediu desculpas mais nós não aceitemos
Isso não se faz, Arnesto, nós não se importa
Mas você devia ter ponhado um recado na porta
Um recado assim ói: "Ói, turma, num deu pra esperá
Aduvido que isso, num faz mar, num tem importância,
Assinado em cruz porque não sei escrever"
Arnesto
BARBOSA, Adoniran. Samba do Arnesto. Samba do Arnesto/Conselho de mulher. 1952.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
LEITURA!!!!!!!!
domingo, 15 de janeiro de 2012
A luz da natureza vindoura
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Leituras Críticas - Artigo: Discurso Literário de Dominique Maingueneau
DISCURSO LITERÁRIO DE DOMINIQUE MAINGUENEAU
Prof. Dr. Luciano Barbosa Justino
(MLI/UEPB)
MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. São Paulo: Contexto, 2006, 325 p.
Publicação mais recente do autor, Discurso literário tem muito a dizer a respeito do diálogo intercultural, tema norteador deste número de Sociopoética, pois propõe uma metodologia de abordagem da literatura que visa expandir suas fronteiras analíticas na medida em que supõe uma visão interdiscursiva e interdisciplinar do texto literário com o intuito de apreender “os enunciados por meio da atividade social que os sustenta, remetendo as palavras a lugares, distribuindo o discurso numa multiplicidade de gêneros cujas condições de
possibilidade, rituais e efeitos têm de ser analisados” (p. 37). A própria noção de paratopia implica um interrupto diálogo que supõe a cooperação entre diferentes metodologias e o cruzamento de diversos campos do saber. A crítica tanto às análises textualistas quanto sociologistas da literatura é para Maingueneau um convite à filosofia, à midiologia, à lingüística, à ciência política, aos estudos culturais, sem abdicar das conquistas da sociocrítica e da poética. Intenta compreender a literatura não apenas em seus aspectos extraliterários, mas articulados a uma abordagem que toma o texto literário como um discurso: Em vez de relacionar as obras com instâncias bastante afastadas da literatura (classes sociais, mentalidades, eventos históricos, psicologia individual etc.), refletir em termos de discurso nos obriga a considerar o ambiente imediato do texto (seus ritos de escrita, seus suportes materiais, sua cena de enunciação...) (p. 44).
Nota-se a amplitude da noção de discurso do autor a partir da noção de “ambiente imediato do texto” e a articulação de diversas instâncias que rompem com a visão romântica e modernista da literatura. Não obstante as inegáveis conquistas de uma “ciência da literatura” advinda da pesquisa formal, a modernidade literária parece esgotar seus potenciais críticos em virtude do fechamento a que submete a “obra-prima”, que acaba por exaltar a singularidade do criador e minimiza o papel dos destinatários e do caráter institucional da literatura (p. 89). As aberturas que permitem ao autor sua instigante e porosa, podemos dizer, metodologia múltipla e multiplicadora são colhidas no dialogismo de Mikhail Bakhtin, na Estética da Recepção, na midiologia de Régis Debray, nos estudos sobre história da escrita de Roger Chartier, na “arqueologia” de Michel Foucault, na teoria do “campo” e do habitus de Pierre Bourdieu.
Para evitar uma improdutiva dispersão, a análise do discurso sustém e faz convergirem as diversas contribuições. Maingueneau lança as bases de uma visão da literatura como interação entre diversas instâncias extradiscursivas, como o fez Pierre Bourdieu e Pascale Casanova, mas vai além na medida em que a análise do discurso lhe permite não esquecer da dimensão propriamente semiótica da literatura. A análise do discurso possibilita observar o quanto as instâncias extradiscursivas estão inscritas no enunciado literário, sobretudo sob a forma daquilo que o autor chama de “cenografia” e “ethos”, como se verá mais adiante.
Estas questões de método e de revisão crítica são objetos do primeiro capítulo “As condições de uma análise do discurso literário”. Mais cinco capítulos compõem o livro: 2) Discursos constituintes; 3) Paratopia; 4) O posicionamento; 5) Mídium e gêneros do discurso; 6) A cena de enunciação.
A noção de literatura como discurso constituinte, objeto do segundo capítulo, além de fundamentar a ruptura com as noções românticas e modernistas do texto literário para fins de abertura, propõe a literatura como discurso auto-legitimador, ligado a uma rede complexa de textos, de agentes e de modos de circulação. Discurso constituinte “designa fundamentalmente os discursos que se propõem como discursos de Origem, validados por uma cena de enunciação que autoriza a si mesma” (p. 60). Assim, todo discurso constituinte só existe e só exerce seu poder e sua efetiva circulação na sociedade se for constituído por uma “Instituição discursiva”. Assim o autor define a instituição literária:
A noção de instituição literária designa a vida literária (os artistas, os editores, os prêmios etc.). Podemos ampliar seu domínio de validade, como o fazem muitos sociólogos, levando em conta o conjunto de quadros sociais da atividade dita literária, tanto as representações coletivas que se tem dos escritores, como a legislação (por exemplo, sobre os direitos autorais), as instâncias de legitimação e de regulação da produção, as práticas (concursos e prêmios literários), os usos (envio de um original a um editor...), os habitus, as carreiras previsíveis e assim por diante. Essa ampliação do campo de visão promoveu uma profunda renovação da concepção que se pode ter do discurso literário (p. 53).
A instituição literária, portanto, é bem mais do que os estudos de poética têm observado. Fica clara a necessidade de pesquisas que integrem diversos métodos e diversas disciplinas. Se os estudos literários “puros”, como chama o autor aos estudos ligados ao formalismo, à nova crítica e ao estruturalismo, já não conseguem dar conta da pluralidade de usos da literatura, o método proposto pelo autor só pode alcançar a obra na confluência e na contribuição, inclusive dos estudos de poética. Para as ciências do homem tornou-se urgente “compreender o compreender”, sugestiva formulação de Pierre Bourdieu, e para a literatura e os estudos literários implica situar o texto no mundo, “encarná-lo” (a expressão é de Maingueneau), observar os próprios critérios de observação, os posicionamentos, a rede de aparelhos mnemotécnicos que suportam e fazem transitar os textos, a relação entre a memória e os discursos de legitimação e práticas de esquecimento. As obras literárias, os arquivos e as livrarias só podem funcionar neste contexto, do qual não é possível sair: Ainda que a obra tenha a pretensão de ser universal, sua emergência é um fenômeno fundamentalmente local, e ela só se constitui por meio das normas e relações de força dos lugares em que surge. É nesses lugares que ocorrem verdadeiramente as relações entre o escritor e a sociedade, o escritor e sua obra, a obra e a sociedade (p. 94).
É no conceito de paratopia que Maingueneau situar as relações entre o escritor e a sociedade, o escritor e sua obra, a obra e a sociedade. São três as formas de paratopia: 1) espacial, que implica na relação do escritor com o campo literário; 2) temporal, a posição do escritor em relação aos seus contemporâneos; 3) linguística, o modo como a obra aciona e negocia com o arquivo.
Nem suporte nem quadro, a paratopia envolve o processo criador, que também a envolve: fazer uma obra é, num só movimento, produzi-la e construir por esse mesmo ato as condições que permitem produzir essa obra. Logo, não há “situação” paratópica exterior ao processo de criação: dada e elaborada, estruturante e estruturada, a paratopia é simultaneamente aquilo de que se precisa ficar livre por meio da criação e aquilo que a criação aprofunda; é a um só tempo aquilo que cria a possibilidade de acesso a um lugar e aquilo que proíbe todo pertencimento. Intensamente presente e intensamente ausente deste mundo, vítima e agente de sua própria paratopia, o escritor não tem outra saída que a fuga para a frente, movimento de elaboração da obra (p. 109).
Em O contexto da obra literária, o autor assim se refere à paratopia:
A pertinência ao campo literário não é, portanto, a ausência de qualquer lugar, mas antes uma negociação difícil entre o lugar e o não-lugar, uma localização parasitária que vive da própria impossibilidade de se estabilizar. Essa localidade paradoxal, vamos chamá-la paratopia (p. 28). A situação paratópica do escritor leva-o a identificar-se com todos aqueles que parecem escapar às linhas de divisão da sociedade: boêmios, mas também judeus, mulheres, palhaços, aventureiros, índios da América..., de acordo com as circunstâncias. Basta que na sociedade se crie uma
estrutura paratópica para que a criação literária seja atraída para sua órbita. M. Bakhtin mostrou desse modo o importante papel que a contracultura “carnavalesca”, que pela irrisão visava subverter a cultura oficial, desempenhou para a criação literária. Os extravasamentos pontuais da festa dos loucos, assim como a literatura que nela se apóia, não têm realmente um lugar designado na sociedade, tiram sua força de sua marginalidade (p. 36).
É a paratopia que une o escritor, a obra, o campo literário, os destinatários, pois é a condição de enunciação e seu produto.. É ela mesma que faz a ponte entre a obra e a existência, “a obra só pode surgir se, de uma ou de outra maneira, conseguir tomar forma numa existência que é ela mesma moldada para que essa obra nela advenha” (p 117). Embora o conceito de paratopia tenha um forte traço modernista, na medida em que significa um pertencimento sempre instável, movente, que reforça a idéia do escritor maldito advindo de Baudelaire, na argumentação de Maingueneau há uma mudança importante no aspecto paratópico da literatura em relação àquilo que escreveu nO contexto da obra literária. O caráter paradoxal do discurso paratópico, e em última análise de todo discurso constituinte, não é mais atribuído, como no livro anterior, à literatura em sua totalidade, mas só a certos escritores, a certas obras e a certos contextos particulares. Melhor dizendo, determinados momentos históricos são radicalmente paratópicos, como os finais do século XIX e inícios século XX, mas a literatura como um todo é um campo relativamente estável, sem grandes sustos ou sobressaltos. Maingueneau não propõe um retorno ao biografismo, mas não afasta por completo, como se viu, a obra das posições que o escritor tem que assumir no campo literário e na sociedade, e este é um dos aspectos mais instigantes do livro de Maingueneau, pois permite ultrapassar as visões ainda dominantes da literatura como “obra-prima”, além e acima da contingência histórica que lhe deu vida e que é em última análise seu substrato.
Outro ponto importante de Discurso literário é a mídia, que o autor prefere chamar de “mídium”. A mídia, numa acepção ampliada, implicando meios de comunicação, mas sobretudo em sentido estrito remetendo ao suporte e ao circuito do signo, foi sempre negligenciada pela literatura. Prova disso é que o debate sobre o oral e o escrito, crucial para qualquer discussão em profundidade da literatura, raramente foi tratada levando a sério as propriedades mnemotécnicas sem as quais não há linguagem alguma. O mídium não é supérfluo para a literatura, como provam a midiologia de Régis Debray e Daniel Bougnoux, as pesquisas sobre a poesia grega anterior ao alfabeto fonético de Eric Havelock, os estudos de Walter Ong sobre as diferenças antropológicas entre oralidade e escrita, a performatividade da voz estudadas por Paul Zumthor, as recentes descobertas da história da escrita. Sobre isso afirma Maingueneau:
O interesse pelos suportes materiais da enunciação é recente. Sem dúvida não faltaram eruditos para estudar as técnicas de imprensa, mas os literatos “puros”, aqueles que se encarregam da interpretação das obras, consideravam mais as narrativas do que as técnicas tipográficas, mais os romances por carta do que os sinetes de cera ou os modos de envio pelo correio. Não obstante, para tornar pensável o surgimento de uma obra, sua relação com o mundo no qual surge, não podemos separá-la de seus modos de transmissão e de suas redes de comunicação (p. 212).
Por fim, o mídium pode sugerir uma quarta dimensão da paratopia, embora o autor não faça tal sugestão, senão, sendo possível pensar a mídia na dupla acepção de meio ambiente e meio de transporte, o espaço para onde confluem todas as demais paratopias, aquilo que contém o que o Maingueneau chama de ethos e que está na culminância das demais questões abordadas no livro:
A noção de ethos permite ainda refletir sobre o processo mais geral de adesão dos sujeitos ao ponto de vista defendido por um discurso, processo particularmente evidente no caso de discursos como a publicidade, a filosofia, a literatura, a política etc., que – diferentemente dos que são parte de gêneros “funcionais” como os formulários administrativos ou os manuais de instruções – devem conquistar um público que tem o direito de ignorá-los ou recusá-los. Todo texto escrito, ainda que a negue, possui uma vocalidade específica que permite remete-lo a uma caracterização do corpo do enunciador (e não, está claro, do corpo do locutor extradiscursivo), a um fiador que, por meio de seu tom, atesta o que é dito; o termo tom” tem a vantagem de valer tanto para o escrito como para o oral. Isso significa que optamos por uma concepção primordialmente “encarnada” do ethos, que, dessa perspectiva, abrange não apenas a dimensão verbal, mas igualmente o conjunto de determinações físicas e psíquicas vinculadas “ao fiador” pelas representações coletivas (p. 271).
e
O ethos constitui, assim, um articulador de grande polivalência. Recusa toda separação entre o texto e o corpo, mas também entre o mundo representado e a enunciação que o traz: a qualidade do ethos remete a um fiador que, através de ethos, proporciona a si mesmo uma identidade em correlação direta com o mundo que lhe cabe fazer surgir. Encontramos aqui o paradoxo de toda cenografia: o fiador que sustenta a enunciação deve a legitimar por meio de seu próprio enunciado. Supõe-se que a enunciação da obra representa um mundo de que essa enunciação é na verdade parte: as propriedades “carnais” da enunciação são tomadas da mesma matéria que o mundo por ela representado (p. 278).
Talvez seja esta “encarnação”, que é também uma ética em profundidade da escrita, que toda grande abordagem da literatura deve buscar. Para tanto, o livro de Maingueneau serve de, no mínimo, um fecundo impulsionador. No que diz respeito ao diálogo intercultural, Discurso literário vem cobrir uma lacuna de metodologias eficazes para dar conta da abertura que a abordagem contemporânea do texto literário exige. Permite evitar o risco de sobrevoos generalizantes e afastados das propriedades semióticas da literatura, comum entre os culturalistas e os sociologistas, ainda dominantes no estabelecimento das relações entre os estudos literários e outras disciplinas.
Discurso literário supõe uma visão interdisciplinar, em rede para se falar nos termos de hoje, mas sem abdicar de uma profunda disciplinaridade, de uma aguda consciência da especificidade da literatura. Assim, a abertura para o Outro, um imperativo ético da teoria literária em tempos pós-modernos, tem que estar inserida na autocrítica do Um. À “instituição literária” não basta ir buscar novos convivas lá fora, tem que também compreender os pressupostos que a faz por dentro. O campo literário não resolve seu impasse contemporâneo esquecendo de si mesmo e de seus vícios, mas os verticalizando num diálogo que deve ser sobretudo inter, capaz de ver a si em interação complexa com os outros: discursos, suportes, circuitos, agentes. O livro de Maingueneau diz muito sobre isso.








