domingo, 13 de novembro de 2011

Gêneros textuais: definição e funcionalidade

Luiz Antônio Marcuschi

1. Gêneros textuais como práticas sócio-históricas

Já se tornou trivial a idéia de que os gêneros textuais são fenômenos histó­ricos, profundamente vinculados à vida cultural e social. Fruto de trabalho coletivo, os gêneros contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comu­nicativas do dia-a-dia. São entidades sócio-discursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa. No entanto, mesmo apre­sentando alto poder preditivo e interpretativo das ações humanas em qualquer contexto discursivo, os gêneros não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação criativa. Caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveisl. dinâmicos e plásticos. Surgem emparelhados a necessidades e atividades sócio­culturais, bem como na relação com inovações tecnológicas, o que é facilmente perceptível ao se considerar a quantidade de gêneros textuais hoje existentes em relação a sociedades anteriores à comunicação escrita.
Quanto a esse último aspecto, uma simples observação histórica do surgimento dos gêneros revela que, numa primeira fase, povos de cultura essencialmente oral desenvolveram um conjunto limitado de gêneros. Após a invenção da escrita alfabética por volta do século VII A. c., multiplicam-se os gêneros, surgindo os típicos da escrita. Numa terceira fase, a partir do século XV, os gêneros expan­dem-se com o flores cimento da cultura impressa para, na fase intermediária de industrialização iniciada no século XVlII, dar início a uma grande ampliação. Hoje, em plena fase da denominada cultura eletrônica, com o telefone, o gravador, o rádio, a TV e, particularmente o computador pessoal e sua aplicação mais notável, a intemet, presenciamos uma explosão de novos gêneros e novas formas de comunicação, tanto na oralidade como na escrita.
Isto é revelador do fato de que os gêneros textuais surgem, situam-se e integram-se funcionalmente nas culturas em que se desenvolvem. Caracteri­zam-se muito mais por suas funções comunicativas, cognitivas e institucionais do que por suas peculiaridades lingüísticas e estruturais. São de difícil definição formal, devendo ser contemplados em seus usos e condicionamentos sócio­pragmáticos caracterizados como práticas sócio-discursivas. Quase inúmeros em diversidade de formas, obtêm denominações nem sempre unívocas e, assim como surgem, podem desaparecer.
Esta coletânea traz estudos sobre uma variedade de gêneros textuais relacio­nados a algum meio de comunicação e analisa-os em suas peculiaridades organizacionais e funcionais, apontando ainda aspectos de interesse para o trabalho em sala de aula. Neste contexto, o presente ensaio caracteriza-se como uma introdução geral à investigação dos gêneros textuais e desenvolve uma bateria de noções que podem servir para a compreensão do problema geral envolvido. Certamente, haveria muitas outras perspectivas de análise e muitos outros caminhos teóricos para a definição e abordagem da questão, mas tanto o exíguo espaço como a finalidade didática desta breve introdução impedem que se façam longas incursões pela bibliografia técnica hoje disponível.

2. Novos gêneros e velhas bases

Como afirmado, não é difícil constatar que nos últimos dois séculos foram as novas tecnologias, em especial as ligadas à área da comunicação, que propi­ciaram o surgimento de novos gêneros textuais. Por certo, não são propria­mente as tecnologias per se que originam os gêneros e sim a intensidade dos usos dessas tecnologias e suas interferências nas atividades comunicativas diárias. Assim, os grandes suportes tecnológicos da comunicação tais como o rádio, a televisão, o jornal, a revista, a internet, por terem uma presença marcante e grande centralidade nas atividades comunicativas da realidade social que ajudam a criar, vão por sua vez propiciando e abrigando gêneros novos bastante característicos. Daí surgem formas discursivas novas, tais como editoriais, artigos de fundo, notícias, telefonemas, telegramas, telemensagens, teleconferências, videoconferências, reportagens ao vivo, cartas eletrônicas (e-mails), bate-papos virtuais, aulas virtuais e assim por diante.
Seguramente, esses novos gêneros não são inovações absolutas, quais cria­ções ab ovo, sem uma ancoragem em outros gêneros já existentes. O fato já fora notado por Bakhtin [1997] que falava na 'transmutação' dos gêneros e na assi­milação de um gênero por outro gerando novos. A tecnologia favorece o surgimento de formas inovadoras, mas não absolutamente novas. Veja-se o caso do telefonema, que apresenta similaridade com a conversação que lhe pré-existe, mas que, pelo canal telefônico, realiza-se com características próprias. Daí a dife­rença entre uma conversação face a face e um telefonema, com as estratégias que lhe são peculiares. O e-mail (correio eletrônico) gera mensagens eletrônicas que têm nas cartas (pessoais, comerciais etc.) e nos bilhetes os seus antecessores. Contudo, as cartas eletrônicas são gêneros novos com identidades próprias, como se verá no estudo sobre gêneros emergentes na rnídia virtual.
Aspecto central no caso desses e outros gêneros emergentes é a nova relação que instauram com os usos da linguagem como tal. Em certo sentido, possi­bilitam a redefinição de alguns aspectos centrais na observação da linguagem em uso, como por exemplo a relação entre a oralidade e a escrita, desfazendo ainda mais as suas fronteiras. Esses gêneros que emergiram no último século no contexto das mais diversas mídias criam formas comunicativas próprias com um certo hibridismo que desafia as relações entre oralidade e escrita e inviabiliza de forma definitiva a velha visão dicotômica ainda presente em muitos manuais de ensino de língua. Esses gêneros também permitem observar a maior integração entre os vários tipos de semioses: signos verbais, sons, imagens e formas em movimento. A linguagem dos novos gêneros torna-se cada vez mais plástica, assemelhando-se a uma coreografia e, no caso das publicidades, por exemplo, nota-se uma tendência a servirem-se de maneira sistemática dos formatos de gêneros prévios para objetivos novos. Como certos gêneros já têm um determinado uso e funcionalidade, seu investimento em outro quadro comunicativo e funcional permite enfatizar com mais vigor os novos objetivos.
Quanto a este último aspecto, é bom salientar que embora os gêneros tex­tuais não se caracterizem nem se definam por aspectos formais, sejam eles estruturais ou lingüísticos, e sim por aspectos sócio-comunicativos e funcionais, isso não quer dizer que estejamos desprezando a forma. Pois é evidente, como se verá, que em muitos casos são as formas que determinam o gênero e, em outros tantos serão as funções. Contudo, haverá casos em que será o próprio suporte ou o ambiente em que os textos aparecem que determinam o gênero presente. Suponhamos o caso de um determinado texto que aparece numa revista científica e constitui um gênero denominado "artigo científico"; imagi­nemos agora o mesmo texto publicado num jornal diário e então ele seria um "artigo de divulgação científica". É claro que há distinções bastante claras quanto aos dois gêneros, mas para a comunidade científica, sob o ponto de vista de suas classificações, um trabalho publicado numa revista científica ou num jornal diário não tem a mesma classificação na hierarquia de valores da produção científica, embora seja o mesmo texto. Assim, num primeiro momento podemos dizer que as expressões "mesmo texto" e "mesmo gênero" não são automatica­mente equivalentes, desde que não estejam no mesmo suporte. Estes aspectos sugerem cautela quanto a considerar o predomínio de formas ou funções para a determinação e identificação de um gênero.

3. Definição de tipo e gênero textual

Aspecto teórico e terminológico relevante é a distinção entre duas noções nem sempre analisadas de modo claro na bibliografia pertinente. Trata-se de distinguir entre o que se convencionou chamar de tipo textual, de um lado, e gênero textual, de outro lado. Não vamos aqui nos dedicar à observação da diversidade terminológica existente nesse terreno, pois isso nos desviaria muito dos objetivos da abordagem.
Partimos do pressuposto básico de que é impossível se comunicar verbal­mente a não ser por algum gênero, assim como é impossível se comunicar ver­balmente a não ser por algum texto. Em outros termos, partimos da idéia de que a comunicação verbal só é possível por algum gênero textual. Essa posição, defendida por Bakhtin [1997] e também por Bronckart (1999) é adotada pela maioria dos autores que tratam a língua em seus aspectos discursivos e enunciativos, e não em suas peculiaridades formais. Esta visão segue uma noção de língua como atividade social, histórica e cognitiva. Privilegia a natureza funcional e interativa e não o aspecto formal e estrutural da língua. Afirma o caráter de indeterminação e ao mesmo tempo de atividade constitutiva da língua, o que equivale a dizer que a língua não é vista como um espelho da realidade, nem como um instrumento de representação dos fatos.
Nesse contexto teórico, a língua é tida como uma forma de ação social e histórica que, ao dizer, também constitui a realidade, sem contudo cair num subjetivismo ou idealismo ingênuo. Fugimos também de um realismo externalista, mas não nos situamos numa visão subjetivista. Assim, toda a postura teórica aqui desenvolvida insere-se nos quadros da hipótese sácio-interativa da língua. É neste contexto que os gêneros textuais se constituem como ações sócio-discursivas para agir sobre o mundo e dizer o mundo, constituindo-o' de algum modo.
Para uma maior compreensão do problema da distinção entre gêneros e tipos textuais sem grande complicação técnica, trazemos a seguir uma defi­nição que permite entender as diferenças com certa facilidade. Essa distinção é fundamental em todo o trabalho com a produção e a compreensão textual. Entre os autores que defendem uma posição similar à aqui exposta estão Douglas Biber (1988), John Swales (1990.), Jean-Michel Adam (1990), Jean­Paul Bronckart (1999). Vejamos aqui uma breve definição das duas noções:

(a) Usamos a expressão tipo textual para designar uma espécie de construção teórica definida pela natureza lingüística de sua composição {aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas}. Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção.
(b) Usamos a expressão gênero textual como uma noção propositalmente vaga para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio-comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica. Se os tipos textuais são apenas meia dúzia, os gêneros são inúmeros. Alguns exemplos de gêneros textuais seriam: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, notícia jornalística, horóscopo, receita culinária, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instru­ções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo por compu­tador, aulas virtuais e assim por diante.

Para uma maior visibilidade, poderíamos elaborar aqui o seguinte quadro sinóptico:

TIPOS TEXTUAIS

1. constructos teóricos definidos por proprieda­des lingüísticas intrínsecas;

2. constituem seqüências lingüísticas ou se­qüências de enunciados e não são textos empíricos


3. sua nomeação abrange um conjunto limita­do de categorias teóricas determinadas por aspectos lexicais, sintáticos, relações lógicas, tempo verbal;

4. designações teóricas dos tipos: narração, argu­mentação, descrição, injunção e exposição

GÊNEROS TEXTUAIS

1. realizações lingüísticas concretas defini­das por propriedades sócio-comunicativas;

2. constituem textos empiricamente realiza­dos cumprindo funções em situações comuni­cativas;


3. sua nomeação abrange um conjunto aber­to e praticamente ilimitado de designações con­cretas determinadas pelo canal, estilo, conteú­do, composição e função;

4. exemplos de gêneros: telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, romance, bilhe­te, aula expositiva, reunião de condomínio, ho­róscopo, receita culinária, bula de remédio, lis­ta de compras, cardápio, instruções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, con­ferência, carta.eletrônica, bate-papo virtual, au­las virtuais etc.

Antes de analisarmos alguns gêneros textuais e algumas questões relativas aos tipos, seria interessante definir mais uma noção que vem sendo usada de maneira um tanto vaga. Trata-se da expressão domínio discursivo.

(c) Usamos a expressão domínio discursivo para designar uma esfera ou ins­tância de produção discursiva ou de atividade humana. Esses domínios não são textos nem discursos, mas propiciam o surgimento de discursos bastante específicos. Do ponto de vista dos domínios, falamos em discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso religioso etc., já que as atividades jurídica, jornalística ou religiosa não abrangem um gênero em particu­lar, mas dão origem a vários deles. Constituem práticas discursivas den­tro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros textuais que, às vezes} lhe são próprios (em certos casos exclusivos) como práticas ou rotinas comunicativas institucionalizadas.

Veja-se o caso das jaculatórias, novenas e ladainhas, que são gêneros exclu­sivos do domínio religioso e não aparecem em outros domínios. Tome-se este exemplo de uma jaculatória que parecia extinta} mas é altamente praticada por pessoas religiosas.

Exemplo (1) jaculatória (In: Rezemos o Terço. Aparecida} Editora Santuário, 1977, p.54)
Senhora Aparecida, milagrosa padroeira, sede nossa guia nesta mortal carreira!
á Virgem Aparecida, sacrário do redentor, dai à alma desfalecida vosso poder e valor. á Virgem Aparecida, fiel e seguro norte, alcançai-nos graças na vida, favorecei-nos na morte!
A jaculatória é um gênero textual que se caracteriza por um conteúdo de grande fervor religioso} estilo laudatório e invocatório (duas seqüências injuntivas ligadas na sua formulação imperativa)} composição curta com poucos enunciados, voltada para a obtenção de graças ou perdão} a depender da circunstância.
Em relação às observações teóricas acima, deve-se ter o cuidado de não confundir texto e discurso como se fossem a mesma coisa. Embora haja muita discussão a esse respeito} pode-se dizer que texto é uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em algum gênero textual. Discurso é aquilo que um texto produz ao se manifestar em alguma instância discursiva. Assim, o discurso se realiza nos textos. Em outros termos} os textos realizam discursos em situações institucionais} históricas, sociais e ideológicas. Os textos são acontecimentos discursivos para os quais convergem ações lingüísticas} sociais e cognitivas} segundo Robert de Beaugrande (1997).
Observe-se que a definição dada aos termos. aqui utilizados é muito mais operacional do que formal. Assim} para a noção de tipo textual predomina a identificação de seqüências lingüísticas típicas como norte adoras; já para a noção de gênero textual} predominam os critérios de ação prática} circulação sócio-histórica} funcionalidade, conteúdo temático, estilo e composicionalidade, sendo que os domínios discursivos são as grandes esferas da atividade humana em que os textos circulam. Importante é perceber que os gêneros não são entidades formais, mas sim entidades comunicativas. Gêneros são formas verbais de ação social relativamente estáveis realizadas em textos situados em comunidades de práticas sociais e em domínios discursivos específicos.

4. Algumas observações sobre os tipos textuais

Em geral, a expressão "tipo de texto", muito usada nos livros didáticos e no nosso dia-a-dia, é equivocadamente empregada e não designa um tipo, mas sim um gênero de texto. Quando alguém diz, por exemplo, "a carta pessoal é um tipo de texto informa!", ele não está empregando o termo "tipo de texto" de maneira correta e deveria evitar essa forma de falar. Uma carta pessoal que você escreve para sua mãe é um gênero textual, assim como um editorial, horós­copo/ receita médica, bula de remédio, poema, piada, conversação casual, entrevista jomalística, artigo científlco, resumo de um artigo, prefácio de um livro. É evidente que em todos estes gêneros também se está realizando tipos textuais, podendo ocorrer que o mesmo gênero realize dois ou mais tipos. Assim, um texto é em geral tipologicamente variado (heterogêneo). Veja-se o caso da carta pessoal, que pode conter uma seqüência narrativa (conta uma historinha), uma argu­mentação (argumenta em função de algo), uma descrição (descreve uma si­tuação) e assim por diante.
Já que mencionamos o caso da carta pessoal, tomemos este breve exemplo de uma carta entre amigos. Aqui foram suprimidos alguns trechos e mudados os nomes e as siglas para não identificação dos atores sociais envolvidos:
Exemplo (2): NELFE-003 - Carta pessoal

Seqüências tipológicas
Descritiva

Injuntiva


Descritiva




Expositiva








Narrativa



Expositiva






Narrativa

Injuntiva

Expositiva




Injuntiva

Gênero textual: carta pessoal
Rio, 11/08/1991

AmigaA.P.
Oi!

Para ser mais preciso estou no meu quarto, escreveno na escrivaninha, com um Micro System ligado na minha frente (bem alto, por sinal).

Está ligado na Manchete FM - ou rádio dos funks - eu adoro funk, principalmente com passos marcados.
Aqui no Rio é o ritmo do momento ... e você, gosta? Gosto também de house e dance music, sou fascinado por discotecas!
Sempre vou à K.I,

ontem mesmo (sexta-feira) eu fui e cheguei quase quatro horas da madrugada.

Dançar é muito bom, principalmente em uma discoteca legal. Aqui no condomínio onde moro têm muitos jovens, somos todos muito amigos e sempre vamos todos juntos. É muito maneiro!

C. foi três vezes à K. 1.,

pergunte só a ele como é!

Está tocando agora o "Melô da Mina Sensu­al", super demais!
Aqui ouço também a Transamérica e RPC}M.

E você, quais rádios curte?

Expositiva
















Expositiva















Narrativa


Injuntiva






Injuntiva




Demorei um tem pão pra responder, espero sinceramente que você não esteja chateada co­migo. Eu me amarrei de verdade em vocês aí, do Recife, principalmente a galera da ET, vocês são muito maneiros! Meu maior sonho é via­jar, ficar um tempo por aí, conhecer legal vocês todos, sairmos juntos ... Só que não sei ao certo se vou realmente no início de 1992. Mas pode ser que dê, quem sabe! /........../
Não sei ao certo se vou ou não, mas fique certa que farei de tudo para conhecer vocês o mais rápido possível. Posso te dizer uma coisa? Adoro muito vocês!

Agora, a minha rotina: às segundas, quartas e sextas-feiras trabalho de 8:00 às 17:00h, em Botafogo . De lá vou para o T., minha aula vai de 18;30 às 10:40h. Chego aqui em casa quinze para meia­noite. E às terças e quintas fico 050 em F. só de 8:00 às 12:30h. Vou para o T.; às 13:30 começa o meu curso de Francês (vou me formar ano que vem) e vai até IS:30h. 16:ooh vou dar aula e fico até 17:30h. 17:40h às 18:30h faço natação (no T. também) e
até 22:40h tenho aula. 1 ./ Ontem eu e
Simone fizemos três meses de namoro;

você sabia que eu estava namorando?

Ela mora aqui mesmo no «ilegível)) (nome do condomínio). A gente se gosta muito, às vezes eu acho que nunca vamos terminar, depois eu acho que o namoro não vai durar muito, entende?

O problema é que ela é muito ciumenta, principalmente porque eu já fui afim da B., que mora aqui também. Nem posso falar com a garota que S. já fica com raiva.
Expositiva

Argumentativa



Injuntiva



Narrativa




É acho que vou terminando ...

escreva!
Faz um favor? Diga pra M., A. P. e C. que esperem, não demoro a escrever

Adoro vocês!

Um beijão!

Do amigo
P. P.
15:16hÉ notável a variedade de seqüências tipológicas nessa carta pessoal, em que predominam descrições e exposições, o que é muito comum para esse gênero. Não há espaço aqui para maiores detalhes, mas esse modo de análise pode ser desenvolvido com todos os gêneros e, de uma maneira geral, vai-se notar que há uma grande heterogeneidade tipológica nos gêneros textuais.
Portanto, entre as características básicas dos tipos textuais está o fato de eles serem definidos por seus traços lingüísticos predominantes. Por isso, um tipo textual é dado por um conjunto de traços que formam uma seqüência e não um texto. A rigor, pode-se dizer que o segredo da coesão textual está precisa­mente na habilidade demonstrada em fazer essa "costura" ou tessitura das seqüências tipológicas como uma armação de base, ou seja, uma malha infra­estrutural do texto. Como tais, os gêneros são uma espécie de armadura comu­nicativa geral preenchida por seqüências tipológicas de base que podem ser bastante heterogêneas mas relacionadas entre si. Quando se nomeia um certo texto como "narrativo", "descritivo" ou "argumentativo", não se está nomeando o gênero e sim o predomínio de um tipo de seqüência de base.
Para concluir essas observações sobre os tipos textuais, vejamos a sugestão de Werlich (1973), que propõe uma matriz de critérios, partindo de estruturas lingüísticas típicas dos enunciados que formam a base do texto. Werlich toma a base temática do texto representada ou pelo título ou pelo início do texto como adequada à formulação da tipologia. Assim, são desenvolvidas as cinco bases temáticas textuais típicas que darão origem aos tipos textuais (o que foi utilizado acima para a segmentação das seqüências observadas na carta acima analisada). Vejamos isto na figura abaixo:
Tipos textuais segundo Werlich (1973)Bases temáticas

1. Descritiva








2. Narrativa








3. Expositiva



















4. Argumentativo








Exemplos

“Sobre a mesa havia milhares de vidros.”







“”Os passageiros aterrissaram em Nova York no meio da noite.””





(a) “” Uma parte do cérebro é o .””
(b) “” O cérebro tem 10 milhões de neurônios””













“” A obsessão com a durabilidade de nas Artes não é permanente.””





Traços lingüísticos

Este tipo de enunciado textual tem uma estrutura simples com um verbo estático no presente ou imperfeito, um complemento e uma indicação circunstancial de lugar

Este tipo de enunciado textual tem um verbo de mudança no pas­sado, um circunstancial de tempo e lugar. Por sua referência temporal e local, este enunciado é designado como enunciado indicativo de ação.
Em (a) temos uma base textual de­nominada de exposição sintética pelo processo da composição. Aparece um sujeito, um predicado (no presente) e um complemento com um grupo nominal. Trata-se de um enunciado de identificação de fenômenos.
Em (b) temos uma base textual denominada de exposição análíti­ca pelo processo de decomposição. Também é uma estrutura com um sujeito, um verbo da família do ver­bo ter (ou verbos como: ""contém'''', “”consiste””, “”compreende””) e um complemento que estabelece com o sujeito uma relação parte-todo. Trata-se de um enunciado de liga­ção de fenômenos.

Tem-se aqui uma forma verbal com o verbo ser no presente e um complemento (que no caso é um ad­jetivo). Trata-se de um enunciado de atribuição de qualidade.



5. Injuntiva













“” pare!””, “” seja razoável!””











Vem representada por um verbo no imperativo. Estes são os enunci­ados incitadores à ação. Estes textos podem sofrer certas modificações significativas na forma e assumir por exemplo a configuração mais longa onde o imperativo é substi­tuído por um ""deve"". Por exem­plo; ""Todos os brasileiros na idade de 18 anos do sexo masculino de­vem comparecer ao exército para alistarem-se." "
Um elemento central na organização de textos narrativos é a seqüência temporal. Já no caso de textos descritivos predominam as seqüências de loca­lização. Os textos expositivos apresentam o predomínio de seqüências analí­ticas ou então explicitamente explicativas. Os textos argumentativos se dão pelo predomínio de seqüências contrastivas explícitas. Por fim, os textos injun­tivos apresentam o predomínio de seqüências imperativas.
Se voltarmos agora ao exemplo (2) da carta pessoal apresentada acima, veremos que cada uma daquelas seqüências lá identificadas realiza os traços lingüísticos aqui apresentados. Não é difícil tomar os gêneros textuais e analisá­los com esses critérios, identificando-lhes as seqüências. Para o caso do ensino, pode-se chamar a atenção da dificuldade que existe na organização das se­qüências tipológicas de base, já que elas não podem ser simplesmente justa­postas. Os alunos apresentam dificuldades precisamente nesses pontos e não conseguem realizar as relações entre as seqüências. E os diversos gêneros seqüenciam bases tipológicas diversas.

5. Observações sobre os gêneros textuais

Como já lembrado, os gêneros textuais não se caracterizam como formas estru­turais estáticas e definidas de uma vez por todas. Bakhtin [1997] dizia que os gêneros eram tipos "relativamente estáveis" de enunciados elaborados pelas mais diversas esferas da atividade humana. São muito mais famílias de textos com uma série de semelhanças. Eles são eventos lingüísticos, mas não se definem por carac­terísticas lingüísticas: caracterizam-se, como já dissemos, enquanto atividades sócio­discursivas. Sendo os gêneros fenômenos sócio-históricos e culturalmente sensí­veis, não há como fazer uma lista fechada de todos os gêneros. Existem estudos feitos por lingüistas alemães que chegaram a nomear mais de 4000 gêneros, o que à primeira vista parece um exagero (Veja-se Adamzik, 1997). Daí a desistência progressiva de teorias com pretensão a uma classificação geral dos gêneros.
Quando dominamos um gênero textual, não dominamos uma forma lin­güística e sim uma forma de realizar lingüisticamente objetivos espeáficos em situações sociais particulares. Pois, como afirmou Bronckart (1999:103), "a apro­priação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas", o que permite dizer que os gê­neros textuais operam, em: certos contextos, como formas de legitimação discursiva, já que se situam numa relação sócio-histórica com fontes de produção que lhes dão sustentação muito além da justificativa individual.
A expressão "gênero" sempre esteve, na tradição ocidental, especialmente ligada aos gêneros literários, mas já não é mais assim, como lembra Swales (1990:33), ao dizer que "hoje, gênero é facilmente usado para referir uma cate­goria distintiva de discurso de qualquer tipo, falado ou escrito, com ou sem aspirações literárias". É assim que se usa a noção de gênero em Etnografia, Sociologia, Antropologia, Folclore, Retórica e, evidentemente, na Lingüística.
Os gêneros não são entidades naturais como as borboletas, as pedras, os rios e as estrelas, mas são artefatos culturais construídos historicamente pelo ser humano. Não podemos defini-Ios mediante certas propriedades que lhe devam ser necessárias e suficientes. Assim, um gênero pode não ter uma deter­minada propriedade e ainda continuar sendo aquele gênero. Por exemplo, uma carta pessoal ainda é uma carta, mesmo que a autora tenha esquecido de assinar o nome no final e só tenha dito no início: "querida mamãe". Uma publicidade pode ter o formato de um poema ou de uma lista de produtos em oferta; o que conta é que divulgue os produtos e estimule a compra por parte dos clientes ou usuários daquele produto. A título de exemplo, obser­ve-se este artigo de opinião da Folha de São Paulo, que, embora escrito na forma de um poema, continua sendo um artigo de opinião:
Exemplo (3) NELFE - 350 - artigo de opinião

Um novo José
Josias de Souza
-São Paulo- Diga: ora, Drummond, Agora FMI.
Calma José. Se você gritasse,
A festa não começou, se você gemesse,
a luz não acendeu, se você dormisse,
a noite não esquentou, se você cansasse,
o Malan não amoleceu, se você morresse ...
mas se voltar a pergunta: O Malan nada faria,
e agora José? mas já há quem faça.
Diga: ora Drummond,
agora Camdessus. Ainda só, no escuro,
Continua sem mulher, qual bicho-do-mato,
continua sem discurso, ainda sem teogonia,
continua sem carinho, ainda sem parede nua,
ainda não pode beber, para se encostar,
ainda não pode fumar, ainda sem cavalo preto,
cuspir ainda não pode, Que fuja a galope,
a noite ainda é fria, você ainda marcha, José!
o dia ainda não veio, Se voltar a pergunta:
o riso ainda não veio, José, para onde?
não veio ainda a utopia, Diga: ora Drummond,
o Malan tem miopia, por que tanta dúvida?
mas nem tudo acabou, Elementar, elementar,
nem tudo fugiu, sigo pra Washington
nem tudo mofou. e, por favor, poeta,
Se voltar a pergunta: não me chame de José.
E agora José? Me chame Joseph.
Fonte: Folha de São Paulo, Caderno 1, pág. 2 - Opinião, 04/10/1999

Aspecto interessante no texto acima é que ele apresenta uma configuração híbrida, tendo o formato de um poema para o gênero artigo de opinião. Isso configura uma estrutura inter-gêneros de natureza altamente híbrida e uma relação intertextual com alusão ao poema e ao poeta autor do poema no qual se inspira e do qual extrai elementos: "E agora]oséJJ, de Carlos Drummond de Andrade. Essa característica pode ser analisada de acordo com a sugestão de Ursula Fix (1997:97), que usa a expressão "intertextualidade inter-gênerosJJ para designar o aspecto da hibridização ou mescla de gêneros em que um gênero assume a função de outro. Esta violação de cânones subvertendo o modelo global de um gênero poderia ser visualizada num diagrama tal como este:INTERTEXTUALIDADE TIPOLÓGICA
Função do gênero A



/
artigo de opinião
/
Formado gênero A

Forma do gênero B
/
poema
/
Função do gênero B

A questão da intertextualidade inter-gêneros evidencia-se como uma mescla de funções e formas de gêneros diversos num dado gênero e deve ser distinguida da questão da heterogeneidade tipológica do gênero, que diz res­peito ao fato de um gênero realizar várias seqüências de tipos textuais (por exemplo, o caso da carta pessoal citada). No exemplo acima, temos um gênero funcional (artigo de opinião) com o formato de outro (poema). Em princípio, isto não deve trazer dificuldade interpretativa, já que o predomínio da função supera a forma na determinação do gênero, o que evidencia a plasticidade e dinamicidade dos gêneros.
Resumidamente, em relação aos gêneros, temos:
(1) intertextualidade inter-gêneros == um gênero com a função de outro
(2) heterogeneidade tipológica == um gênero com a presença de vários tipos

o exemplo do artigo de opinião analisado é um caso para a situação (1) da hibridização textual com inter-gêneros; já a carta pessoal analisada anterior­mente é um exemplo para (2), com uma heterogeneidade tipolÇ>gica muito grande. No geral, este segundo caso é mais comum que o primeiro. Contudo, se tomarmos alguns gêneros, veremos que eles são mais propensos a uma intertextualidade inter-gêneros. Veja, por exemplo, a publicidade que se carac­teriza por operar de maneira particularmente produtiva na subversão da ordem genérica instituída, chamando atenção para a venda de um produto. Desenquadrar o produto de seu enquadre normal é uma forma de enquadrá­10 em novo enfoque, para que o vejamos de forma mais nítida no mar de ofertas de produtos.
É esta possibilidade de operação e maleabilidade que dá aos gêneros enorme. capacidade de adaptação e ausência de rigidez e se acha perfeitamente de acordo com Miller (1984:151), que considera o gênero como "ação social", lembrando que uma definição retoricamente correta de gênero "não deve centrar-se na subs­tância nem na forma do discurso, mas na ação em que ele aparece para realizar­se". Este aspecto vai ser central na designação de muitos gêneros que são definidos basicamente por seus propósitos (funções, intenções, interesses) e não por suas formas. Contudo, voltamos a frisar que isto não significa eliminar o alto poder organizador das formas composicionais dos gêneros. O próprio Bakhtin [1997] indicava a "construção composicional", ao lado do "conteúdo temático" e do "estilo" como as três características dos gêneros.
De igual modo, para Eija Ventola (1995:7), os "gêneros são sistemas semióticos que geram estruturas particulares que em última instância são cap­tadas por comportamentos lingüísticos mediante os registros". Enquanto resul­tado convencional numa dada cultura, os gêneros se definiriam como "ações retóricas tipificadas baseadas em situações recorrentes" (Miller, 1984:159). As formas tornam-se convencionais e com isto genéricas precisamente em virtude da recorrência das situações em que são investidas como ações retóricas típicas. Os gêneros são, em última análise, o reflexo de estruturas sociais recorrentes e típicas de cada cultura. Por isso, em princípio, a variação cultural deve trazer conseqüências significativas para a variação de gêneros, mas este é um aspecto que somente o estudo intercultural dos gêneros poderá decidir.

6. Gêneros textuais e ensino

Tendo em vista que todos os textos se manifestam sempre num ou noutro gênero textual, um maior conhecimento do funcionamento dos gêneros textuais é importante tanto para a produção com para a compreensão. Em certo sentido, é esta idéia básica que se acha no centro dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais), quando sugerem que o trabalho com o texto deve ser feito na base dos gêneros, sejam eles orais ou escritos. E esta é também a proposta central dos ensaios desta coletânea de textos que pretende mostrar como analisar e tratar alguns dos gêneros mais praticados nos diversos meios de comunicação.
As observações teóricas expostas não só visam a esclarecer conceitos como também a apontar a diversidade de possibilidades de observação dos gêneros textuais. Por certo, não estamos aqui em condições de nos dedicarmos a todos os problemas envolvidos, mas é possível indicar alguns. Em especial seria bom ter em mente a questão da relação oralidade e escrita no contexto dos gêneros tex­tuais, pois, como sabemos, os gêneros distribuem-se pelas duas modalidades num contínuo, desde os mais informais aos mais formais e em todos os contextos e situações da vida cotidiana. Mas há alguns gêneros que só são recebidos na forma oral apesar de terem sido produzidos originalmente na forma escrita, como o caso das notícias de televisão ou rádio. Nós ouvimos aquelas notícias, mas elas foram escritas e são lidas (oratizadas) pelo apresentador ou locutor.
Assim, é bom ter cautela com a idéia de gêneros orais e escritos, pois essa distinção é complexa e deve ser feita com clareza. Veja-se o caso acima citado das jaculatórias, novenas e ladainhas. Embora todas tenham sido escritas, seu uso nas atividades religiosas é sempre oral. Ninguém reza por escrito e sim oralmente. Por isso dizemos que oramos e não que escrevemos a Deus.
Tudo o que estamos apontando neste momento deve-se ao fato de os eventos a que chamamos propriamente gêneros textuais serem artefatos lingüísticos concretos. Esta circunstância ou característica dos gêneros torna­os, como já vimos, fenômenos bastante heterogêneos e por vezes híbridos em relação à forma e aos usos. Daí dizer-se que os gêneros são modelos comu­nicativos. Servem, muitas vezes, para criar uma expectativa no interlocutor e prepará-Io para uma determinada reação. Operam prospectivamente, abrindo o caminho da compreensão, como muito bem frisou Bakhtin (1997).
Muitas vezes, em situações orais, os interlocutores discutem a respeito do gênero de texto que estão produzindo ou que devem produzir. Trata-se de uma negociação tipológica. Segundo observou o lingüista alemão Hugo Steger (1974), as designações sugeridas pelos falantes não são suficientemente uni­tárias ou claras, nem fundadas em algum critério geral para serem consistentes. Em relação a isso, lembra a lingüista alemã Elizabeth Gülich (1986) que os interlocutores seguem em geral três critérios para designarem seus textos:
a) canal! meio de comunicação: (telefonema, carta, telegrama)
b) critérios formais: (conto, discussão, debate, contrato, ata, poema)
c) natureza do conteúdo: (piada, prefácio de livro, receita culinária, bula de remédio)

Contudo, isso não chega a oferecer critérios para formar uma classificação nem constituir todos os nomes. Para Douglas Biber (1988), por exemplo, os gêneros são geralmente determinados com base nos objetivos dos falantes e na natureza do tópico tratado, sendo assim uma questão de uso e não de forma. Em suma, pode-se dizer que os gêneros textuais fundam-se em critérios externos (sócio-comunicativos e discursivos), enquanto os tipos textuais fun­dam-se em critérios internos (lingüísticas e formais).
Elizabeth Gülich (1986) observa que as situações e os contextos em que os falantes ou escritores designam os gêneros textuais são em geral aqueles em que parece relevante designá-Ias para chamar a atenção sobre determinadas regras vigentes no caso. É assim que ouvimos pessoas dizendo: "nessa reu­nião não cabe uma piada, mas deixem que eu conte uma para descontrair um pouco". Ou então ouvimos alguém dizer: "fulano não desconfia e discursa até na hora de tomar uma cerveja". Por outro lado, notamos que há casos institucionalmente marcados que exigem, no início, a designação do gênero de texto e a informação sobre suas regras de desenvolvimento. Este é o caso de uma tomada de depoimento na Justiça, em que o Juiz lê as regras e expõe direitos e deveres de cada indivíduo.
Assim, contar piadas fora de lugar é um caso de inadequação ou violação de normas sociais relativas aos gêneros textuais. Isso quer dizer que não há só a questão da produção adequada do gênero, mas também um uso adequado. Esta não é uma questão de etiqueta social apenas, mas é um caso de adequação tipo lógica, que diz respeito à relação que deveria haver, na produção de cada gênero textual, entre os seguintes aspectos:
natureza da informação ou do conteúdo veiculado;

nível de linguagem (formal, informal, dialetal, culta etc.)
tipo de situação em que o gênero se situa (pública, privada, corriqueira, solene etc.)
relação entre os participantes (conhecidos, desconhecidos, nível social, formação etc)
natureza dos objetivos das atividades desenvolvidas

É provável que esta relação obedeça a parâmetros de relativa rigidez em virtu­de das rotinas sociais presentes em cada contexto cultural e social, de maneira que sua inobservância pode acarretar problemas. Assim, numa reunião de negócios, por exemplo, um empresário que se pusesse a cantar o Hino Nacional seria considerado um tanto esquisito e talvez pouco confiável para uma parceria de negócios. Ou alguém que, durante um culto e no meio de uma oração, come­çasse a esbravejar contra o sacerdote ou o pastor não ia ser bem-visto. Neste sentido, os indicadores aqui levantados serviriam para identificar as condições de adequação genérica na produção dos gêneros, espedalmente os orais.
Considerando que os gêneros independem de decisões individuais e não são facilmente manipuláveis, eles operam como geradores de expectativas de compreensão mútua. Gêneros textuais não são fruto de invenções individuais, mas formas socialmente maturadas em práticas comunicativas. Esta era tam­bém a posição central de Bakhtin [1997] que, como vimos, tratava os gêneros como atividades enunciativas "relativamente estáveis".
No ensino de uma maneira geral, e em sala de aula de modo particular, pode-se tratar dos gêneros na perspectiva aqui analisada e levar os alunos a produzirem ou analisarem eventos lingüísticos os mais diversos, tanto escritos como orais, e identificarem as características de gênero em cada um. É um exercício que, além de instrutivo, também permite praticar a produção textual. Veja-se como seria produtivo pôr na mão do aluno um jornal diário ou uma revista semanal com a seguinte tarefa: "identifique os gêneros textuais aqui presentes e diga quais são as suas características centrais em termos de con­teúdo, composição, estilo, nível lingüístico e propósitos". É evidente que essa tarefa pode ser reformulada de muitas maneiras, de acordo com os inte­resses de cada situação de ensino. Mas é de se esperar que por mais modesta que seja a análise, ela será sempre muito promissora.

7. Observações finais

Em conclusão a estas observações sobre o tema em pauta, pode-se dizer que o trabalho com gêneros textuais é uma extraordinária oportunidade de se lidar com a língua em seus mais diversos usos autênticos no dia-a-dia. Pois nada do que fizermos lingüisticamente estará fora de ser feito em algum gê­nero. Assim, tudo o que fizermos lingüisticamente pode ser tratado em um ou outro gênero. E há muitos gêneros produzidos de maneira sistemática e com grande incidência na vida diária, merecedores de nossa atenção. Inclusive e talvez de maneira fundamental, os que aparecem nas diversas mídias hoje existentes, sem excluir a mídia virtual, tão bem conhecida dos internautas ou navegadores da Internet.
A relevância maior de tratar os gêneros textuais acha-se particularmente situada no campo da Lingüística Aplicada. De modo todo especial no ensino de língua, já que se ensina a produzir textos e não a produzir enunciados soltos. Assim, a investigação aqui trazida é de interesse aos que trabalham e militam nessas áreas. Uma análise dos manuais de ensino de língua portu­guesa mostra que há uma relativa variedade de gêneros textuais presentes nessas obras. Contudo, uma observação mais atenta e qualificada revela que a essa variedade não corresponde uma realidade analítica. Pois os gêneros que aparecem nas seções centrais e básicas, analisados de maneira aprofundada são sempre os mesmos. Os demais gêneros figuram apenas para 11 enfeite" e até para distração dos alunos. São poucos os casos de tratamento dos gêneros de maneira sistemática. Lentamente, surgem novas perspectivas e novas abor­dagens que incluem até mesmo aspectos da oralidade. Mas ainda não se tratam de modo sistemático os gêneros orais em geral. Apenas alguns, de modo parti­cular os mais formais, são lembrados em suas características básicas.
No entanto, não é de se supor que os alunos aprendam naturalmente a produzir os diversos gêneros escritos de uso diário. Nem é comum que se aprendam naturalmente os gêneros orais mais formais, como bem observam Joaquim Dolz e Bemard Schneuwly (1998). Por outro lado, é de se indagar se há gêneros textuais ideais para o ensino de língua. Tudo indica que a resposta seja não. Mas é provável que se possam identificar gêneros com dificuldades progressivas, do nível menos formal ao mais formal, do mais privado ao mais público e assim por diante.
Enfim, vale repisar a idéia de que o trabalho com gêneros será uma forma de dar conta do ensino dentro de um dos vetares da proposta oficial dos Parâmetros Curriculares Nacionais que insistem nesta perspectiva. Tem-se a oportunidade de observar tanto a oralidade como a escrita em seus usos cul­turais mais autênticos sem forçar a criação de gêneros que circulam apenas no universo escolar. Os trabalhos incluídos neste livro buscam oferecer su­gestões bastante claras e concretas de observação dos gêneros textuais na perspectiva aqui sugerida e com algumas variações teóricas que cada autor dos textos adota em função de seus interesses e de suas sugestões de trabalho. No conjunto, a diversidade de observações deverá ser um benefício a mais para quem vier a usufruir dessas análises.

O discurso literário contemporâneo

Os estudos atuais sobre a temática do discurso literário iniciou-se na Europa como uma teoria de análise, ligada à AD[1]. Essa teoria tratava de entender como o discurso literário era formado e como ele era composto.

No Brasil, o discurso literário ainda é uma área da linguagem voltada para a AD, e também para a lingüística textual, tendo como objetivo mostrar elementos constituintes dos textos literários, como a organização dos discursos, a heteroglossia, a plurivoricidade, a intertextualidade, a alteridade, etc.

Destacam-se com trabalhos e estudos sobre a temática, o filólogo francês Dominique Maingueneau. Em seus ensaios nos mostra uma nova visão sobre o tema e considerado por muitos uns dos expoentes dessa área; em seus estudos, Maingueneau mostra uma série de condições para uma análise do discurso literário. Também o autor fala em um de seus trabalhos sobre o discurso literário como discurso constituinte, assunto que também foi abordado por Bakhtin/Voloshinov (1929), em Marxismo e filosofia da linguagem, e por Fiorin (2003), Campos (2009) e Brait (2009).

Maingueneau (2009, p. 60) distingue o discurso literário e o discurso não literário, a partir de uma análise conseqüente do discurso literário, onde se deve fundar-se em conceitos e métodos de que parcela ponderável é válida para outros tipos de discurso (MAINGUENEAU, 2009, p. 60). Também, segundo o autor, existe uma imensa variedade de discursos literários, o que ele chama de discursos constituintes, e que eles são interligados uns aos outros.

O discurso literário não é isolado, ainda que tenha sua especificidade: ele participa de um plano determinado da produção verbal, o dos discursos constituintes, categoria que permite melhor as relações entre literatura e filosofia, literatura e religião, literatura e mito, literatura e ciência. A categoria “discurso constituinte” [2] não é um campo de estudo seguro de suas fronteiras, mas um programa de pesquisas que permite identificar certo número de invariantes, bem como postular maneiras umas quantas questões inéditas (MAINGUENEAU, 2009, p. 60).

O discurso literário contemporâneo ainda mantém em sua forma, os pressupostos abordados por Maingueneau, o discurso contemporâneo proporciona uma passividade de análise textual, o que nos faz entender que esses discursos são distintos entre si, seja ele literário, religioso, o científico, o filosófico, etc. (MAINGUENEAU, 2009, p. 60 e 61).



[1] AD, sigla pela qual a Análise do Discurso é conhecida.

[2] Essa noção foi introduzida num artigo de 1995; D. Maingueneau e F. Cossurta, “L’analyse dês discours constituants”, Languages, 117.


Referências

ARANTES, Alessandro de O. O discurso literário contemporâneo. In: Aspectos dialógicos em "O moço do saxofone". Cap. 2. p. 26-27. UERN/NAESM, Macau, 2011. [Monografia de Letras]



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Poesia Concreta - Exemplos

Os criadores do concretismo propugnavam um experimentalismo poético (planificado e racionalizado) que obedecia aos seguintes princípios:

- Abolição do verso tradicional, sobretudo através da eliminação dos laços sintáticos (preposições, conjunções, pronomes, etc.), gerando uma poesia objetiva, concreta, feita quase tão somente de substantivos e verbos;

- Um linguagem necessariamente sintética, dinâmica, homóloga à sociedade industrial (“A importância do olho na comunicação mais rápida... os anúncios luminosos, as histórias em quadrinhos, a necessidade do movimento....”);

- Utilização de paronomásias, neologismos, estrangeirismos; separação de prefixos e sufixos; repetição de certos morfemas; valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica) que se fragmenta e recompõe na página;

- O poema transforma-se em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural: uso dos espaços brancos, de recursos tipográficos, etc.; em função disso o poema deverá ser simultaneamente lido e visto.

Exemplo destas propostas pode ser encontrado no poema Terra de Décio Pignatari:

ra terra ter
rat erra ter
rate rra ter
rater ra ter
raterr a ter
raterra terr
araterra ter
raraterra te
rraraterra t
erraraterra
terraraterra

Observe-se o despojamento e o jogo verbal deste poema de Haroldo de Campos:

de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado
sangrado
de sangue a sangue

Os recursos visuais são utilizados por Augusto de Campos como no poema abaixo entitulado Eis os amantes:

COLOCAR EIS OS AMANTES

Em Pós-tudo, escrito no fim da década de 80, Augusto de Campos parece fazer o inventário de sua participação no concretismo, identificando o seu papel nas mudanças poéticas e reconhecendo que o caminho revolucionário acabara na mudez*:

Fonte http://educaterra.terra.com.br/literatura/litcont/2003/04/22/001.htm

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A SOLIDÃO DO GIRAFO

“Vai, Raio de Luz, vai até Brasília e procura lá a tua namorada, que te dará prazer e filhos, e, com eles, voltarás ao Rio de Janeiro, onde não tens chance de casamento e multiplicação da espécie. Vejo-te passar, o esguio pescoço desafiando viadutos, passarelas e túneis, e sinto que o surrealismo é coisa de arquivo. Pintor que te pintasse viajando dessa maneira seria apenas um copista do cotidiano.

Não podias mais continuar no Rio, sem companheira prestante, e sujeito a equívocos escabrosos com os machos da tua espécie. Precisavas de uma girafa indubitável para o ofício do amor. Puseram-te em caminhão equipado com fiação elétrica e buzina de alarme, acionável ao menor indício de anormalidade, seja na rodovia seja no interior de tua silenciosa organização de girafo.

Sei que deformo teu nome, trocando a letra final, mas já é tempo de dissipar a ambiguidade das designações genéricas, em meio à indefinição crescente dos sexos, observada na sociedade humana. Quando já não se sabe ao certo quem é varão quem é varoa, pelo menos se saiba distinguir o pavão da pavoa ou pavona, o elefanto da elefanta, o sabiau da sabiá, o cisno da cisna, o tigro da tigra, em vez de nos socorrermos do aditamento macho e fêmea. Se distinguimos gato e gata, por que não foco e foca, tamanduó e tamanduá, tatu e tatua? (Deixo aos entendidos o levantamento da nominata completa.) Fica mais fácil e constitui merecida homenagem à pequena, mas divina, diferença que tornou viável o milagre da vida.

O Rio anda tão pobre que até lhe falta uma girafa para amar um girafo, e é preciso recorrer a Brasília, que de resto não consta ser pródiga em atendimento às necessidades nacionais. Mas que tenha uma girafa núbil e disponível já é coisa boa de se saber. Não ficarás solteiro, “Raio de Luz”. E procriarás e tua prole se desdobrará em girafinhos e girafinhas que enriquecerão os nossos zôos, para alegria da meninada curiosa de ver bichos originais, em confronto com a pouca ou nenhuma originalidade de tantos bichos por aí, quadrúpedes ou bípedes.

Por ser conveniente o otimismo, descarto a hipótese de a girafa brasiliana te recusar. Seria muito triste, além de muito oneroso, que a tua viagem, exigindo mil cuidados, tivesse como epílogo o desentendimento entre os parceiros. Não resta dúvida que, democraticamente, a moça girafa tem direito de escolha, e pode não ir contigo e com teu focinho. Mas, por outro lado, não consta que em alguma parte do Brasil os moços girafos sejam numerosos, e ela corre o risco de morrer solteira. Então, presumo que tudo contribui para um enlace feliz; o solitário carioca rejubila-se ao encontrar a solitária planaltina.

Casamento giráfico: não será tão pomposo quanto o do Príncipe Charles, mas em ocasião como esta, de nuvens escuras e bombas perversas, é um descanso para o espírito saber que todas as providências estão sendo tomadas para que um girafo encontre sua girafa e deste encontro resultem girafotes, ou girafelhos, que são fedelhos girafos.

Eu, cândido de coração, me associo à expectativa amena de termos no futuro um zoológico bem provido de população girafista de dois sexos, graças à tua linhagem, “Raio de Luz”. Chego a delirar, e sonho um zôo exclusivamente dedicado ao animal mais alto do mundo e que, por isso mesmo, nos dê sugestões de altura, quer material quer moral.

Essa fauna esplêndida, que efeito mágico produzirá! Cada um de nós há de sentir-se estimulado a crescer no mínimo alguns centímetros em dignidade cívica, abnegação, amor à verdade. Uma verdade que talvez esteja refugiada nas selvas mas que se entremostre, de relance, no simples e exato comportamento de um animal trazido para o nosso convívio.

A girafa parece que não consegue lamber o próprio corpo, quer dizer, ela pede que outros o façam. Expõe o corpo e confia na ação alheia. Defende-se menos do que se expõe. E, sendo animal exposto, sujeito à apreciação e ao julgamento gerais, é realmente de bom convívio. Não quer privilégios. E, mesmo calada, não é sigilosa.

A mania de sigilo, que nós, supostos racionais, inventamos está longe de ser uma regra da natureza. Os bichos não mentem. São o que são, verificáveis. Eu gosto de girafa. Tem pescoço e não tem artimanha. Só não dou um abraço a Raio de Luz porque seria impraticável. Mas torço pelo seu feliz himeneu e prometo mesmo compor um epitalâmio para o casal.”

Carlos Drummond de Andrade

Jornal do Brasil, 09/05/1981 (texto compilado na íntegra)

sábado, 15 de outubro de 2011

O discurso literário contemporâneo

Os estudos atuais sobre a temática do discurso literário iniciou-se na Europa como uma teoria de análise, ligada à AD. Essa teoria tratava de entender como o discurso literário era formado e como ele era composto.

No Brasil, o discurso literário ainda é uma área da linguagem voltada para a AD, e também para a lingüística textual, tendo como objetivo mostrar elementos constituintes dos textos literários, como a organização dos discursos, a heteroglossia, a plurivoricidade, a intertextualidade, a alteridade, etc.

Destacam-se com trabalhos e estudos sobre a temática, o filólogo francês Dominique Maingueneau. Em seus ensaios nos mostra uma nova visão sobre o tema e considerado por muitos uns dos expoentes dessa área; em seus estudos, Maingueneau mostra uma série de condições para uma análise do discurso literário. Também o autor fala em um de seus trabalhos sobre o discurso literário como discurso constituinte, assunto que também foi abordado por Bakhtin/Voloshinov (1929), em Marxismo e filosofia da linguagem, e por Fiorin (2003), Campos (2009) e Brait (2009).

Maingueneau (2009, p. 60) distingue o discurso literário e o discurso não literário, a partir de uma análise conseqüente do discurso literário, onde se deve fundar-se em conceitos e métodos de que parcela ponderável é válida para outros tipos de discurso (MAINGUENEAU, 2009, p. 60). Também, segundo o autor, existe uma imensa variedade de discursos literários, o que ele chama de discursos constituintes, e que eles são interligados uns aos outros.

O discurso literário não é isolado, ainda que tenha sua especificidade: ele participa de um plano determinado da produção verbal, o dos discursos constituintes, categoria que permite melhor as relações entre literatura e filosofia, literatura e religião, literatura e mito, literatura e ciência. A categoria “discurso constituinte” não é um campo de estudo seguro de suas fronteiras, mas um programa de pesquisas que permite identificar certo número de invariantes, bem como postular maneiras umas quantas questões inéditas (MAINGUENEAU, 2009, p. 60).

O discurso literário contemporâneo ainda mantém em sua forma, os pressupostos abordados por Maingueneau, o discurso contemporâneo proporciona uma passividade de análise textual, o que nos faz entender que esses discursos são distintos entre si, seja ele literário, religioso, o científico, o filosófico, etc. (MAINGUENEAU, 2009, p. 60 e 61).


Por Alessandro de Oliveira Arantes (NAESM/UERN)
Cap. 3 da monografia

domingo, 9 de outubro de 2011

A Carta

Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escreveram a Vossa Alteza a notícia do achado desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dara disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos Canárias , mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à ista delas. Obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas ou menos, houvemos vista das lhas de Cabo Verde , asaber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

Domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu ,e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. É de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos,. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E enquanto fazíamos lenha , construíram dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara.

Muitos deles vinham ali estar com carpinteiros. E creio que o faziam mais para veram a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, por que eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navia dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus, isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol.

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sanco de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, vei-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua adeira. E de tudo quantos lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido e frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

E pois que, senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem sevida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vira da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.

Pero Vaz de Caminha

Dia Desértico (Desertic Day)

Nesse dia de clima seco,
a chuva sumiu,
o vento quente soprou,
a casa pequena esquentou,
e o calor desse dia entrou,
nos queimando a cara,
aquecendo a água,
de nossas caixas.

Nesses dias de intenso calor,
que nos atrapalha,
que nos faz colher palha,
que evapora a água,
e seca as folhas,
que caem no solo.

Nesses dias caloríficos,
até o gado se atrapalha,
se esquece da água,
come a palha,
com o calor que a torna fraca.

Nesses dias de secura,
que racham o solo,
que secam os rios,
e desidratam a pele,
impera a salinidade,
que nos faz lembrar,
como é importante para nós,
esse elemento vital,
chamado água.

Alessandro de Oliveira Arantes

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Teoria Bakhtiniana: breve percurso histórico

Orientando: Alessandro de Oliveira Arantes (NAESM/UERN)

Orientador: Prof. Dr. Francisco Afrânio Câmara Pereira (UERN/UFRN)

1 .BREVE PERCURSO HISTÓRICO DA TEORIA BAKHTINIANA

“Tudo que é dito, tudo que é expresso por um falante, por um enunciador, não pertence só a ele. Em todo discurso são percebidas vozes, às vezes infinitamente distantes, anônimas, quase impessoais, quase imperceptíveis, assim como as vozes próximas que ecoam simultaneamente no momento da fala” (Bakhtin, 1923).

Os estudos da linguagem acerca do discurso literário no século passado começaram a sofrer uma grande transformação por volta da década de 20. Naquela época ainda não existiam teorias que explicassem como se manifestam os discursos num texto literário.

Entre os anos de 1919 a 1929, na antiga União Soviética, atual Rússia, começaram a surgir os primeiros estudos sobre a temática, a partir de reuniões e encontros de três filósofos e estudiosos russos, o que mais tarde, quando esses estudos vieram a conhecimento público e científico ocidental a partir de traduções e estudos realizados sobre a temática que na época ainda era desconhecida e pouco estudada. Esse grupo de filósofos estudiosos da linguagem ficou conhecido como Círculo de Bakhtin[1], e era originalmente composto por Mikhail Mikhailovich Bakhtin, Valentin N. Voloshinov[2] e Pavel N. Medvedev; Estes iniciaram os estudos linguísticos acerca dessa concepção de linguagem.

No Brasil os estudos sobre a temática bakhtiniana iniciaram-se após as primeiras publicações acerca dos estudos do Círculo de Bakhtin no país, baseadas nas traduções em língua francesa e, mais tarde, diretamente do russo. No Brasil, vários estudiosos e pesquisadores sobre o assunto, passaram a ser conhecidos somente após terem publicado diversos ensaios e feito pesquisas sobre o tema no país. Entre eles, destacam-se José Luiz Fiorin, Beth Brait e Diana Luz Pessoa de Barros.

Dessa mesma teoria também se originaram outras, a polifônica (a que será mais enfocada na pesquisa), a intertextual, a interdiscursiva, além de outras que não iremos nos deter no momento. Daí a expressão teoria tríade, pela razão serem interligadas e uma completar a outra, por elas serem muito semelhantes, ainda que tenham os objetos de estudo diferentes. Elas passaram a ser conhecidas no Brasil a partir da década de 70.


[1] O Círculo de Bakhtin ficou conhecido por formular teorias que explicassem como se organiza e se estabelece o discurso, essa denominação foi dada a esse grupo formado por filósofos e linguistas russos por volta da década de 70, após Julia Kristeva, apresentar Bakhtin ao ocidente, com seus trabalhos de tradução e ensaios sobre a temática bakhtiniana.

[2] Valentin N. Voloshinov foi um dos integrantes do Círculo de Bakhtin, onde participou ativamente das pesquisas linguísticas, no livro Marxismo e Filosofia da Linguagem (1923), onde o livro foi assinalado por ele, mais tarde foi verificado que o livro foi de autoria de Bakhtin, mas com colaborações de seus seguidores complementando o texto escrito por ele.

2 .A VOZ DO OUTRO COMO RECURSO DE COMPOSIÇÃO

Segundo a teoria dialógica proposta por Bakhtin, as vozes integrantes de um texto são originárias de múltiplos discursos apreendidos por alguma pessoa, que faz uso desses discursos na formulação e composição do seu, com base no(s) outro(s).

Representar a idéia do outro, conservando-lhe toda a plenivalência enquanto idéia, mas mantendo simultaneamente à distância, sem reafirmá-la nem fundi-la com sua própria ideologia representada. [...] a idéia é um acontecimento vivo, que irrompe no ponto de contato dialogado entre duas consciências (BAKHTIN apud BRAIT, 2009).

Nesse sentido, a ideia é semelhante ao discurso, com o qual forma uma unidade dialética. Com o discurso, ela quer ser ouvida, entendida, “respondida” por outras vozes e de outras posições. Como o discurso, também é de natureza dialógica.

Como Bakhtin (2002) apud Brait (2009), diz que “as palavras do outro, introduzidas na nossa fala, são revestidas inevitavelmente de algo novo, da nossa compreensão e da nossa avaliação, isto é, tornaram-se bivocais”, o que se aplica ao gênero textual conto nos dá, por ele não obedecer a uma regra fixa ou métrica rígida, permitindo a presença dessas vozes.

A base da perspectiva bakhtiniana é o discurso de outrem, que foi tratado por ele em Marxismo e Filosofia da Linguagem (1929), quando mostra como esse procedimento ocorre e também propõe uma nova forma de ver e compreender esse conceito. Muitos autores, pesquisadores, jornalistas e intelectuais brasileiros usam este recurso para compor seus textos ou complementar os seus discursos ou enunciações em um texto, seja ele literário, científico, letra de música, poesia, etc. Ou também, artigos em hipertextos, noticiários, blogs ou quaisquer formas de propagação de informações.

3.O DISCURSO DE OUTREM

O discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a enunciação (BAKHTIN, 1997, p. 108).

Essa perspectiva de apropriação dos discursos de outrem foi abordada intensamente pelos teóricos do Círculo de Bakhtin, pois eles tentavam explicar como ocorria esse fenômeno nos textos, e que promovia um aprimoramento de ideias a partir das ideias de outros. Esses autores pregavam que o autor em determinado momento irá fazer uso de conceitos apropriados e baseados nas informações elaboradas por outro autor, fazendo adaptações e melhorias no texto, a fim de enriquecer o estudo sobre determinada temática.

O discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo. É a partir dessa existência autônoma que o discurso de outrem passa para o contexto narrativo, conservando o seu conteúdo e ao menos rudimentos da sua integridade linguística e da sua autonomia estrutural primitiva (BAKHTIN, 1997, p. 109).

O discurso de outrem, quando apropriado, sofre inúmeras modificações morfossintáticas no seu conteúdo, mas mantêm as ideias e os conceitos originais, mas com sentidos e estilos diferentes. Ou seja, esses discursos ainda permanecem com a sua forma semântica sobre alguma temática, elas não perdem o sentido ou o foco do que está sendo tratado no discurso, mas sofrem algumas mudanças na questão estética. Quando o autor modifica alguma partícula do texto, um verbo, tempo verbal, ou até mesmo faz uso de jargões e palavras dialetais em substituição das palavras originais, alterando a estrutura real do texto, e inserindo um novo estilo para o texto.

Cada enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados com os quais está ligado pela identidade da esfera de comunicação discursiva. Cada enunciado deve ser visto antes de tudo como uma resposta aos enunciados precedentes de um determinado campo: ela os rejeita, confirma completa, baseia-se neles, subentende-os como conhecidos, de certo modo os leva em conta (BAKHTIN, 2003, 297).

Para Vieira Costa[1] (2010), esse é o modo de funcionamento real da linguagem, é seu princípio constitutivo; é uma forma particular de composição do discurso. Portanto, todo discurso dialoga com outro discurso, manifestando-se em enunciados. O princípio de utilizar o discurso ou enunciado do texto de outro autor faz parte de uma série de funções que a linguagem possui, e que essa mesma linguagem, é recheadas de pensamentos e ideias de muitas pessoas, e interligadas entre si.


[1] VIEIRA COSTA. Sara. Dialogismo e intertextualidade, In GEGe - Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso, blog Textos círculo 2010.

4. REFERÊNCIAS:

ARANTES, Alessandro de O. ASPECTOS DIALÓGICOS EM O MOÇO DO SAXOFONE: Marcas da polifonia lygiana; Excertos do Cap. 1 . Monografia em andamento, NAESM/UERN, 2011.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 8ª. Ed. São Paulo: Hucitec, 1997ª (VOLOCHINOV, Valentin. N.), p.108 - 116.

_____. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4ª ed. São Paulo: Martins fontes, 2003. (Coleção biblioteca universal)

BARROS, Diana Luz Pessoa de; FIORIN, José Luiz. (Org.). Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: em torno de Bakhtin. 2ª ed. 1ª reimp. São Paulo: Edusp, 2003.

BRAIT, Beth (org.). Bakhtin: dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009.

DOOLEY, Robert A. Análise do discurso: conceitos básicos em linguística. Robert A. Dooley & Stephen H. Levinsohn. 4ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 13-29, p. 58-68.

LOPES, Edward. “Discurso literário e dialogismo em Bakhtin”. Dialogismo, polifonia, intertextualidade. São Paulo: Edusp. 2003. P.63-81.

VIEIRA COSTA, Sara. Dialogismo e intertextualidade, In GEGe - Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso, blog Textos círculo 2010. Disponível em: acesso em: 08/05/2011.

Semiótica, a ciência dos signos

Na moderna acepção, desenvolvida por Charles S. Pierce, a semiótica é a doutrina dos signos, tendo por objeto o estudo da natureza, tipos e funções de signos. Devido aos desenvolvimentos das últimas décadas na linguística, filosofia da língua e semiótica, o estudo dos signos ganhou uma grande importância no âmbito da teoria da comunicação. Basicamente, um signo é qualquer elemento que seja utilizado para exprimir uma dada realidade física ou psicológica; nesta relação, o primeiro funciona como significante em relação à segunda, que é o significado (ou referente); as relações entre significantes e significados podem ser de 2 tipos: denotação e conotação .

Um som, uma cauda de cão a abanar, um sinal de trânsito, um punho erguido, um caractere escrito são exemplos (entre outros possíveis) de signos; é importante realçar que os signos por si próprios nada significam, para se tornarem compreensíveis pressupõem a existência de um código que estabeleça, dentro duma dada comunidade, a totalidade das relações entre significantes e significados, por forma a tornar possível a interpretação dos signos . Desta forma, cada comunidade desenvolve os seus sistemas de signos e respectivos códigos, por forma a viabilizar a comunicação entre os seus membros; à medida que se vai subindo na cadeia biológica as necessidades de comunicação vão-se intensificando, o que se reflete naturalmente em sistemas de signos e códigos de comunicação cada vez mais sofisticados.

Muitos códigos têm sido estabelecidos dentro das sociedades humanas, destacando-se como os mais importantes os códigos da língua (falada e escrita) e os códigos não verbais (movimentos e posturas do corpo, indicações vocais e para-linguísticas, jogo fisionômico, aparência física, contacto, fatores ambientais e espaciais); a criação dos signos não verbais foi anterior à criação dos signos verbais, sendo as duas formas de comunicação inseparáveis. Em semiótica, de acordo com a divisão feita por C. W. Morris , os signos são estudados em três níveis:

1) sintático (analisa a estrutura dos signos, o modo como se relacionam, as suas possíveis combinações, etc.

2) semântico (analisa as relações entre os signos e os respectivos significados)

3) pragmático (estuda o valor dos signos para os utilizadores, as reações destes relativamente aos signos, o modo como os utilizam, etc.).

Existem numerosas classificações de signos na literatura científica; na sua diversidade, os signos fornecem os meios para definir ou referir tudo aquilo que apreendemos através dos sentidos, bem como o que pensamos, sabemos, desejamos ou imaginamos; os signos permitem a conceitualização (a formação de uma ideia sobre uma realidade não presente),influenciam fortemente o comportamento humano, bem como a nossa percepção do mundo (sendo provável até que estejam na origem do ato de pensar).

Por uma compreensão do conceito de polifonia

A discussão a respeito do princípio jornalístico de abarcar uma multiplicidade de perspectivas ao relatar os diferentes fatos do mundo social tem muito a ganhar a partir de um enfoque que considere o conceito de polifonia cunhado pelo filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin e seu círculo de estudos

Esse termo, originalmente musical, surge em sua obra quando ele se propõe a compreender a forma como os romances do autor russo Fiodor Dostoiévski, incorporavam em si diferentes visões de mundo:

A multiplicidade de vozes e consciências independentes e miscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski. Não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, à luz da consciência uma do autor, se desenvolve nos seus romances; é precisamente a multiplicidade de consciências equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade (BAKHTIN, 1997, p. 4 – grifos do autor)

Acreditamos que a compreensão mais clara sobre essa “autêntica polifonia” que Bakhtin afirma estar presente na obra de Dostiévski pode ser alcançada a partir da recuperação da noção musical de “polifonia”. Esta, entendida como uma técnica de “superposição de linhas melódicas” (WISNIK, 2007, 110), não ocorre toda vez que um cantor ou instrumento produzem sons simultâneos. Para que ela efetivamente exista não pode haver uníssono, ou seja, uma mesma sequência de sons interpretada por fontes diferentes, mas sim a execução paralela de sequências sonoras (melódicas) distintas. Ora, tomando em conta o conceito musical é claramente possível fazer uma analogia entre as “linhas melódicas” e o que Bakhtin chama de “multiplicidades de consciências”. Nesse sentido, a “autêntica polifonia” no campo da linguagem estaria presente quando o discurso traz em si mais de um ponto de vista e não quando vários indivíduos, “em uníssono”, compartilham da mesma visão de mundo. Bakhtin propõe, por essa perspectiva, uma oposição entre o romance monológico e o polifônico, deixando claro que a existência de diferentes personagens não garante a ocorrência da polifonia caso esses seres compartilharem da mesma “consciência”.

Tal reflexão literária desenvolvida por ele no fim dos anos 1920 continua sendo bastante atual. Por um lado, foi incorporada e redirecionada pela linguística da enunciação e, por outro, mostrou-se surpreendentemente convergente com reflexões da escola francesa de Análise do Discurso a respeito da constituição e das fronteiras entre os diferentes discursos sociais.

Referências:

http://www.unicentro.br/redemc/2010/Artigos/A%20contribui%C3%A7%C3%A3o%20de%20uma%20teoria%20polif%C3%B4nica

%20do%20discurso%20para%20a%20reflex%C3%A3o%20sobre%20o%20papel%20das%20ONGs%20na%20con.pdf

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tropicalismo e A Poesia Marginal


O movimento musical popular chamado Tropicalismo originou-se, ainda na década de 60, nos festivais de M. P. B. realizados pela TV Record, que projetaram no cenário nacional, os jovens Caetano Veloso, Gilberto Gil, o grupo Os Mutantes e Tom Zé, apoiados em textos de Torquato Neto e Capinam e nos arranjos do maestro Rogério Duprat.

Com humor, irreverência, atitudes rebeldes e anarquistas os tropicalistas procuravam combater o nacionalismo ingênuo que dominava o cenário brasileiro, retomando o ideário e as propostas do Movimento Antropofágico de Oswald de Andrade. Dessa forma, propunham a devoração e de deglutição de todo e qualquer tipo de cultura, desde as guitarras elétricas dos Beatles até a Bossa Nova de João Gilberto e o "nordestinismo" de Luiz Gonzaga.

Características dos textos:
ironia e paródia, humor e fragmentação da realidade; enunciação de flashes cinematográficos aparentemente desconexos, ruptura com os padrões tradicionais da linguagem ( pontuação sintaxe etc.).
Suas influências foram fundamentais na música, mas repercutiram também na literatura e no teatro.
Com o AI-5, seus representantes foram perseguidos e exilados.
A partir daí, a linguagem artística ou se cala ou se metaforiza ou apela para meios não convencionais de divulgação.

A Poesia Marginal


Segundo a professora Samira Youssef Campedelli (M Literatura, História e Texto, 3, Saraiva) "a poesia desenvolvida sob a mira da polícia e da política nos anos 70 foi uma manifestação de denuncia e de protesto, uma explosão de literatura geradora de poemas espontâneos, mal-acabados, irônicos, coloquiais, que falam do mundo imediato do próprio poeta, zombam da cultura, escarnecem a própria literatura.

A profusão de grupos e movimentos poéticos, jogando para o ar padrões estéticos estabelecidos, mostra um poeta cujo perfil pode ser mais ou menos assim delineado ele é jovem, seu campo é a banalidade cotidiana, aparentemente não tem nem grandes paixões nem grandes imagens, faz questão de ser marginal". Experimentalismo, moralidade, ideologia e irreverência são algumas de suas características.

A divulgação dessa obra foge do "circuito tradicional": são textos fechados em muros; jornais, revistas e folhetos mimeografados ou impressos em gráficas de fundo de quintal e vendidas em mesas de restaurantes, portas de cinemas, teatros e centros culturais; happening e shows musicais; até uma "chuva de poesia" foi realizada no centro de São Paulo, da cobertura do edifício Itália, em 1980.

Ainda de acordo com a Professora Samira (opuscit, p.354) "Recupera-se alguns laços com a produção do primeiro Modernismo (1922) - poemas -minuto, poemas ¬piada; experimentaram-se técnicas como a colagem e a desmontagem dadaístas; praticaram-se formas consagradas, como o sonetos ou o haicai; tudo foi possível dentro do território livre da poesia marginal, como bem atestam os poemas de Paulo Leminsky, à moda grafite, com sabor de haicai:

NÃO DISCUTO COM O DESTINO O QUE PINTAR EU ASSINO
Representantes desse grupos: Wally Salomão, Cacaso,Capinam, Alice Ruiz, Charles, Chacal, Torquato Neto e Gilberto Gil (Marginalia e "Geléia Geral")
o céu não cai do céu
O céu não cai do céu, poema de Régis Bonvicino
Não é rara também a paródia, assim como a metalinguagem.
Enquanto os concretistas atribuem grande importância à construção do poema, os marginais preocupam-se sobretudo com a expressão, ora de fatos triviais, ora de seus sentimentos. Por isso, boa parte dessa poesia marca-se por um tom de conversa íntima, de confissão pessoal.